CURTA

quinta-feira, 14 de junho de 2012

QUILIMERO



 Denilson Cardoso de Araújo   

            Elis Regina certa vez contou o aprendido inesquecível que colheu na fonte melhor: Adoniram Barbosa. É que é preciso escrever o errado certo. Olha que coisa bonita! Até para escrever errado tem jeito correto. Há que aprender!
            José Rubinato, filho de imigrantes, Adoniram era. Craquíssimo. No glorioso “Tiro ao Álvaro”, ele ensinou o jeito certo de falar “alvo” errado. Muitos intérpretes, depois descaracterizaram o seu jeito certo de errar o suporte do tiro ao “Álvaro”. Da tábua, ele lindamente dizia “táuba”, mas há quem diga “táubua”. Aí errado está. “Táuba” fica bem melhor. Talvez alguns usem “táubua” por questões de rítmica específica da interpretação do sujeito, ou querendo amelhorar a prosódia, mas isso é desvirtuar a obra.
            Uma vez, em outra vida (mas mesmo aqui vivida, que espírita não sou), era eu fiscal de operações do Banco do Brasil. Tinha que ir a uma fábrica em São Gonçalo, verificar estoques. Sem carro, descarrado melhor diria, ia de ônibus. Não achava uma tal Rua Washington Luís de nenhum jeito. Até que atentei, depois de largas caminhadas e arrodeios, com a placa improvisada em madeira velha, onde se lia, de forma perfeita e clara: Rua Osto Luis, com aqueles esses de prumo trocado. Achei lindo, aquilo, e muito certo.
            Guimarães Rosa, todo mundo sabe, catou na boca dos tropeiros, dos matutos, os muito especiais falares que cultivaram por séculos. Criou um mundo novo. Sou um pobre monoglota que arranha a periferia de outras línguas sem alcançar-lhes cerne. Mas sempre imagino como deve ser infeliz um tradutor de Guimarães Rosa, já que muita gente culta daqui da donde ele escrevinhou precisa de um dicionário próprio pra alcançar as altitudes que Guimarães avoou. E “avoou” porque Rosa jamais “voaria”, simplesmente. Mas, que sei eu? Nonadas. Aliás, não posso miesquecer Manoel de Barros, que já escreveu nadifúndios, olha que bunito!
            Certa vez fiz um poema que era falado errado. Gosto do poema. Um grande ator meu amigo (Amaury de Lima) incluiu-o em seu repertório. Fazia uma interpretação de arrepiar. Fê-la, dentre outros palcos, na conchinha do Museu.  Chama “Reflexões de um trabalhador ao pôr do sol”. Vai um trechim (é, hoje estou, assim, impossíver): “La vão us que se veste de lama e graxa/ Us zome de ofício que trata a terra/ e as madeira cuas mão nua/ Us que pega nus ferro das máquina/ mas barriga das pedrêra/ e que cuas merma mão machucada/ chega de noite nos  barraco e, nus milagre do tesão/ sabe us carinho mais safado/ e mermo os mais delicado/ que faz as mulhé gemê e canta de paixão (...)”. Então, é um poema de que gosto. Tem seu drama, tem sua chama, e termina visionário, querendo um futuro libertário pros trabalhadô. Pois entonce. É um poema que eu escrevi o errado mui errado. Na boa inspiração de escrever errado, não pesquisei o jeito certo de o fazer.
            Intão. Tem que muito estudeari.
            Quem muito estudeou foi Elomar Figueira de Mello. Aliás, esse texto veio do seguinte. Tive esta semana que escrever muito e muito sério e muito correto sobre muitas coisas muito tristes. E quem me salvou de ficar completamente ensimesmudo de tristezura, foi Xangai cantando Elomar, que me foi trazido aos orvido por Bete Babo, que é também cantora.
            Pois o hômi, lá das suas fermosas barrancas do Rio Gavião não é que criou todo um dicionário, recolhendo na fonte de bocas desdentadas o que di mió havia pra tecer sua poesia?
            Pois ouvindo seu cancioneiro, me deparo com uma palavra que de há muito ouvira. Décadas. Mas nunca assuntara a palavra. Não gosto do dicionário que às vezes vem junto com as letras. Fico na adivinhação. Se não entendo a palavra, compreendo a melodia e seu conjunto verboso. Me basta. Aliás, em termos de Elomar, em geral, me arrasta. É um cantadô dos mió. E Xangai virou porta voz, embora a voz de Elomar seja mais grave e profética. É que Elomar é Moisés e Xangai, Josué. Um repartiu o mar, o outro, adentrou.
            Apois, intão... Me deparo com o vocábulo Quilimero, nome de alguém vaqueiro. E no carro, dirigindo pra Itaipava, vem aquela luz: Climério, é o nome do sujeito, oras!!! Não ria, vossa mercê que já bem isso sabia. É que sou meio lerdo, e pra mim, foi uma alumiação. Depois que Colombo bota o ovo em pé, fica tudo fácil. Pois se Elomar escreveu “quilarão” para descrever o “clarão” da Lua, já era pra eu ter compreendido, né? Mas, fazer o quê. Sou lerdo.
            Bom, disso tudo, pode arresultá de alguém me apor nas fileiras dos que defendem ensinar errados falares nas faculidade e nos colégio. Nada disso! Escola tem que ensinar o certo. Porque o escrever-falar certo do jeito certo é o que abre portões. Neste particular Joãosinho Trinta podia bem chegar e arremedar seu próprio dito: Quem gosta de fala errada é intelectual. É, intelectuár gosta mesmo. O Gláuber, por exemplo, só escrevia jorjamado e isso era bem bonito, em se tratando do cineasta e do autor baianos.
            Mas pra ter o direito de falar errado errado, só quem assim cultivou desdio berço. Por isso um vaquêro pode. Fica bem. Já o Elomar, o Gláuber, o Rosa, gente de muito istudo, só dispois que aprendeu o certo ganha o direito de apreciá o erro. E fica muito bunito quando eles falam errado. Mas nós, mortais incultos, podemos não. Picasso só foi ao grafite depois de ser acadêmico. Assim que tem qui ser.
            Então ficamos assim: precisamos todos de leitura muita pra aprender o certo certo. Só então se pode beijar as sandálias de Adoniram, o que sabe o jeito que o errado se fala certo. Sendo certo que Adoniram não tinha diploma, mas exato é que muito estudo tinha.
            Que ninguém se avexe com essa crônica isquisita. É um brinquedo gentil pra uma tarde dura em que meninas arrancaram o coração de uma colega. Foi meu descanso da tragédia. Sorri, fazendo. Ouvindo Xangai. Não fosse assim, terminaria o dia ensimesmudo. Mas Quilimero me fez quilarão tão graúdo que o dia tinha que terminar em Lua. E olha que é tempo de minguante, eu acho. Mas aqui nos meus dedos, ela encheu, bonita, gorda, uma rainha de prata. Por isso, aqui termino. Por ora, amarro meu jegue. Amanhã retomo meu camin.

denilsoncdearaujo.blospot.com

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