Denilson
Cardoso de Araújo
Ressalvada
minha repulsa à bebedeira que traz mortes, à pornografia e descuidos que dão violência
e desleixos com crianças e adolescentes, e ao flerte de agremiações e crime, não
tenho nada contra a idéia do Carnaval, em si. Embora eu seja sempre dele retirante em
paragens tranqüilas, considero-o hipótese de celebração da alegria, festa de
coletividade que se autoriza ao sorriso, e oportuniza a canção e a dança.
Como
outros povos, judeus já guardavam tradição de grandes festejos. A lei mosaica
determinava festas da colheita, das barracas, de tudo. Verdadeiro carnaval a
festa do Purim, que celebra o livramento de Israel cativo pela intervenção da
Rainha Ester. Inclusive com fantasias e escolha de rainhas-ester e mordecais
para presidir a festa.
O Carnaval do Rio de Janeiro misturou
zé pereira, corsos, batalhas de limão de cheiro e confete e o entrudo, com
festejos marranos. Um dia, deu-se a escola de samba e veio o concurso promovido
por jornal desportivo precisado de novidades para vendas em período sazonal.
Não é festa religiosa. Mas católicos
demarcam no seu termo o começo da Quaresma. Tia Ciata, doceira de renome, em
cujo quintal João da Baiana, Pixinguinha, Donga e Sinhô firmaram a tradição do
samba carioca, era também mãe de santo. Por isso, no Carnaval persistem ligações
com os terreiros. Os enredos, cada vez mais, vestem temas do mundo dos orixás.
Sabe-se de escolas que só começam suas operações após despachos na avenida. Diz-se
de incorporações ocorridas nos desfiles. Muitos católicos, evangélicos,
budistas ou pessoas sem confissão religiosa, participam sem notar a conexão, ou
a ela dando importância de inofensivo folclore. Em tempos de discurso
“politicamente correto”, qualquer crítica ao proselitismo religioso ali embutido,
nasce fadada à condenação. Mas ele existe e impõe tom unicista só quebrado nas
torções do sincretismo. É inadequado, principalmente porque envolvidas verbas
oficiais.
Eu, que defendo cotas para negros, não
creio que consciência de africanidade e luta por respeito e direitos passam necessariamente
pela propagação de religiosidades africanas. Embora delas tenham vindo
lideranças como Abdias Nascimento, não se pode esquecer que negros
norte-americanos fizeram suas memoráveis batalhas sob o comando de pastores
batistas. Desmond Tutu, anglicano, liderou com Mandela a epopéia anti-apartheid
na África do Sul. No Brasil, em que pese a predominante omissão eclesiástica no
tema, lideranças negras cristãs sobressaem em movimentos como o Afrokut e
coletivos como o Afrodescendentes Evangélicos.
Mas como o tema aqui é Carnaval, me
coloco à margem de confissões religiosas e lutas raciais, para seguir achando
que a evolução do mestre-sala com a porta-bandeira é dos mais esplêndidos balés
já criados pela arte humana. Raramente visto na íntegra por quem o observa na
TV que, sempre atrás das nádegas mais expostas, só mostra flashes do bailado.
Mas quem teve o privilégio de ver toda a coisa, não tem como não se encantar
com a corte acrobática e giratória feita pelo cavalheiro negro de pés velozes à
mulata de vestido rodado que levita o pavilhão.
Sigo
firme também na convicção de que o pujante som da bateria quando se anuncia é
mesmo de fazer chorar. Há impacto orgânico que vai dos pés à medula, em arrepio. Espectadores
de Fórmula 1 relatam emoção similar, no verem jatos rodoviários em retão de
autódromo. O som de turbina arranca lágrimas incontroláveis aos marinheiros de
primeira arquibancada, como se fosse o Aleluia de Handel. Certa vez levei Mariana
para assistir à Nona de Mahler. É uma Sinfonia ‘heavy’. Quando o coral aliou-se
à gigantesca orquestra que a obra exige, ela não conteve o choro. Certas massas
sonoras nos penetram as células.
Falar
em Mahler pode dar controvérsias, que passam do messianismo de Wagner à disputa
com austríacos e italianos. Não sou muito habilitado a embates eruditos. O fato
é que, se gosto de Etta James e de Cassiane, de Tom Waits e de Antonio Nóbrega,
de Moacir Franco e de Janis Joplin, é óbvio que não me agredirá os ouvidos e os
sentimentos a possibilidade de estar à vontade em Mahler hoje e em Mozart
amanhã. Alguém dirá que é maluquice. Mas nunca fui de paixões que demandam
destruir um gosto para honrar outro. Lamento essa coisa meio brasílica, de sempre
destruir o supostamente velho para dar passagem ao aparentemente novo.
O
que nos remete à música impagável em que Luiz Gonzaga conta
o retorno à casa paterna. Famoso, tocado em rádios e com disco gravado. Ia com a
nova sanfona, “de 120 baixos”. O velho Januário tinha sanfona modesta mas, por exímio,
era lenda. Na genial letra de Humberto Teixeira, quando percebeu a empáfia do
garoto que voltava, virou-se em repreensão o “véi” Jacó: “Luiz, respeita
Januário! Tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso e com ele ninguém vai.
Luiz, respeita os oito baixos do teu pai!”
Grosso
modo, o “véi” Jacó apenas traduziu ao jovem Gonzaga o mandamento de “honrar pai
e mãe para que se prolonguem os teus dias sobre a terra” (Êxodo 20:12). Gonzaga
viveu muito. Artista de brilhante obra, viverá mais, como se vê dos festejos do
centenário do Rei do Baião. Bom que a vitória da Unidos da Tijuca, sem
proselitismos, com suas pessoas de barro, com suas pessoas-sanfona, nos tenha
lembrado Gonzaga, Januário e o sábio mandamento bíblico. Véi Jacó sabia das
coisas.
denilsoncdearaujo@gmail.com
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