quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

SÁBIO VÉI JACÓ


Denilson Cardoso de Araújo

            Ressalvada minha repulsa à bebedeira que traz mortes, à pornografia e descuidos que dão violência e desleixos com crianças e adolescentes, e ao flerte de agremiações e crime, não tenho nada contra a idéia do Carnaval, em si. Embora eu seja sempre dele retirante em paragens tranqüilas, considero-o hipótese de celebração da alegria, festa de coletividade que se autoriza ao sorriso, e oportuniza a canção e a dança.
            Como outros povos, judeus já guardavam tradição de grandes festejos. A lei mosaica determinava festas da colheita, das barracas, de tudo. Verdadeiro carnaval a festa do Purim, que celebra o livramento de Israel cativo pela intervenção da Rainha Ester. Inclusive com fantasias e escolha de rainhas-ester e mordecais para presidir a festa.
O Carnaval do Rio de Janeiro misturou zé pereira, corsos, batalhas de limão de cheiro e confete e o entrudo, com festejos marranos. Um dia, deu-se a escola de samba e veio o concurso promovido por jornal desportivo precisado de novidades para vendas em período sazonal.
Não é festa religiosa. Mas católicos demarcam no seu termo o começo da Quaresma. Tia Ciata, doceira de renome, em cujo quintal João da Baiana, Pixinguinha, Donga e Sinhô firmaram a tradição do samba carioca, era também mãe de santo. Por isso, no Carnaval persistem ligações com os terreiros. Os enredos, cada vez mais, vestem temas do mundo dos orixás. Sabe-se de escolas que só começam suas operações após despachos na avenida. Diz-se de incorporações ocorridas nos desfiles. Muitos católicos, evangélicos, budistas ou pessoas sem confissão religiosa, participam sem notar a conexão, ou a ela dando importância de inofensivo folclore. Em tempos de discurso “politicamente correto”, qualquer crítica ao proselitismo religioso ali embutido, nasce fadada à condenação. Mas ele existe e impõe tom unicista só quebrado nas torções do sincretismo. É inadequado, principalmente porque envolvidas verbas oficiais.
Eu, que defendo cotas para negros, não creio que consciência de africanidade e luta por respeito e direitos passam necessariamente pela propagação de religiosidades africanas. Embora delas tenham vindo lideranças como Abdias Nascimento, não se pode esquecer que negros norte-americanos fizeram suas memoráveis batalhas sob o comando de pastores batistas. Desmond Tutu, anglicano, liderou com Mandela a epopéia anti-apartheid na África do Sul. No Brasil, em que pese a predominante omissão eclesiástica no tema, lideranças negras cristãs sobressaem em movimentos como o Afrokut e coletivos como o Afrodescendentes Evangélicos.
Mas como o tema aqui é Carnaval, me coloco à margem de confissões religiosas e lutas raciais, para seguir achando que a evolução do mestre-sala com a porta-bandeira é dos mais esplêndidos balés já criados pela arte humana. Raramente visto na íntegra por quem o observa na TV que, sempre atrás das nádegas mais expostas, só mostra flashes do bailado. Mas quem teve o privilégio de ver toda a coisa, não tem como não se encantar com a corte acrobática e giratória feita pelo cavalheiro negro de pés velozes à mulata de vestido rodado que levita o pavilhão.
            Sigo firme também na convicção de que o pujante som da bateria quando se anuncia é mesmo de fazer chorar. Há impacto orgânico que vai dos pés à medula, em arrepio. Espectadores de Fórmula 1 relatam emoção similar, no verem jatos rodoviários em retão de autódromo. O som de turbina arranca lágrimas incontroláveis aos marinheiros de primeira arquibancada, como se fosse o Aleluia de Handel. Certa vez levei Mariana para assistir à Nona de Mahler. É uma Sinfonia ‘heavy’. Quando o coral aliou-se à gigantesca orquestra que a obra exige, ela não conteve o choro. Certas massas sonoras nos penetram as células.
            Falar em Mahler pode dar controvérsias, que passam do messianismo de Wagner à disputa com austríacos e italianos. Não sou muito habilitado a embates eruditos. O fato é que, se gosto de Etta James e de Cassiane, de Tom Waits e de Antonio Nóbrega, de Moacir Franco e de Janis Joplin, é óbvio que não me agredirá os ouvidos e os sentimentos a possibilidade de estar à vontade em Mahler hoje e em Mozart amanhã. Alguém dirá que é maluquice. Mas nunca fui de paixões que demandam destruir um gosto para honrar outro. Lamento essa coisa meio brasílica, de sempre destruir o supostamente velho para dar passagem ao aparentemente novo.
            O que nos remete à música impagável em que Luiz Gonzaga conta o retorno à casa paterna. Famoso, tocado em rádios e com disco gravado. Ia com a nova sanfona, “de 120 baixos”. O velho Januário tinha sanfona modesta mas, por exímio, era lenda. Na genial letra de Humberto Teixeira, quando percebeu a empáfia do garoto que voltava, virou-se em repreensão o “véi” Jacó: “Luiz, respeita Januário! Tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso e com ele ninguém vai. Luiz, respeita os oito baixos do teu pai!”
            Grosso modo, o “véi” Jacó apenas traduziu ao jovem Gonzaga o mandamento de “honrar pai e mãe para que se prolonguem os teus dias sobre a terra” (Êxodo 20:12). Gonzaga viveu muito. Artista de brilhante obra, viverá mais, como se vê dos festejos do centenário do Rei do Baião. Bom que a vitória da Unidos da Tijuca, sem proselitismos, com suas pessoas de barro, com suas pessoas-sanfona, nos tenha lembrado Gonzaga, Januário e o sábio mandamento bíblico. Véi Jacó sabia das coisas.

                                    denilsoncdearaujo@gmail.com

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