Denilson Cardoso de Araújo
O
Brasil de extremos não sabe ao certo se ama ou odeia seus policiais. Problema
de história e de imagem. Tiradentes, herói, foi policial no Regimento de
Cavalaria Paga. Eram policiais, bandidos, o Esquadrão da Morte, Mariel e o
Fleury. “Cosme e Damião”, duplas de rua em policiamento quase britânico. Heróis.
Polícia militar força auxiliar da ditadura. Bandidos.
José
Padilha encafifou na segurança pública. Com “Notícias de uma Guerra
Particular”, do João Moreira Salles, seus filmes formam imprescindível saga
documental. Contradições, cruezas e dúvidas policiais transbordam de “Notícias”
e sangram de “Ônibus 174” .
Em “Tropa de Elite I” ambigüidade inexiste: Nascimento é o mocinho. Na
calamidade, não cabe ao policial debater se a Lei Áurea ficou meia boca. “Tropa
II” desnuda milícias donatárias de senzalas. Septicemia em mídias, palácios e
parlamentos. Ao fim, nos salva o bom policial. Facilitada à vida real a expulsão
do tráfico no Alemão.
A penosa profissão padece mazela que
nem Capitão Nascimento ajeita. É força da ordem. Impostos da maioria pagando segurança
de luxo a riquezas de poucos. Fato perverso do modelo que opera este Brasil moído
de sofrimentos. Como o drama da falta de moradia.
Pinheirinho.
Com a ordem judicial de desocupação, lá se foi a polícia, em constitucional missão.
Resistência houve, vaia veio. Justa ou não, cola. Mazelas comportamentais da
corporação, inegáveis excessos, assim decidem. Mas a balbúrdia maior vem do
fato de ser, a polícia ostensiva, ponta de lança do sistema. Este, aguçado pelo
fio da navalha neoliberal, é perpetuador de injustiças. Fecham a conta: ‘sistema
injusto’ + ‘policial força do sistema’ = ‘policial injusto’.
Eterno
debate nas esquerdas, esse. É conhecida a diatribe de Pasolini, quando do movimento
de 1968. Ousou o cineasta ousado dizer aos revoltosos que ocupavam
universidades e combatiam a polícia, que a revolta de universitários bem
nascidos era burguesa (o que de fato se viu), e que ele, comunista, se
identificava com os policiais, pobres filhos de pobres. Anarquistas – que vêem polícias
como forças da ordem, somente - têm urticária quando no apoio a passeatas de
policiais vêem certos socialismos que enxergam, além da farda, assalariados
explorados.
Óbvio.
O policial é agente do sistema mesmo. Como o são, por exemplo, bancários,
operadores do Direito, educadores, ora bolas! Bancos escorcham clientes, gente
do Direito faz cumprir injustas leis do sistema, e escolas desprezadas e
manipuladas pelo sistema, a ele fornecem gado. Todos estamos, de algum modo, na
máquina. A questão é ter senso crítico. Conheço bancários, juízes, educadores e
policiais que o têm. De dentro do sistema, trabalham para mudá-lo. É o que
importa.
Problema
é o escasso ganho para o diário mister do risco de vida. Alguns vestem farda no
quartel, para não serem mortos em
casa. A malvadeza do esquema põe filhos da pobreza da lei morando
em parede colada com filhos da pobreza do crime. Daí, greves. Incentivadas pelo
PT. Ouviram Jacques Wagner apoiá-los em 2001, quando não era governador. Lula candidato
disse que tinham direito à greve porque serviço essencial tem que merecer
essencial salário. Greves policiais foram anistiadas pelo PT. Agora cospem
neles.
A
PEC-300, que cria piso nacional de salários, aprovou-se na Câmara, em primeiro
turno, nos idos de 2010. O segundo turno empacou-se na gaveta. Os policiais
tomaram chá de cadeira de secretário, ministro e deputado. Quando estes dão as
caras, se revezam em enrolações labirínticas, prometendo vírgulas do nada. Na
Bahia, há decisões judiciais em favor dos policiais, que o governador
descumpre. Enquanto seguem no estresse de arriscar a vida sem salário digno, suas
mulheres e filhos vão pra rua bater panelas. Nada. Um dia, vai-se a paciência.
Vem a greve crise grave.
Empresários
exasperados, trator governamental, prisão de líderes a pretexto da escuta que só
provava bravatas. Tudo coroado no massacre televisivo do movimento. A
população, chegada agora à novela de mil capítulos inúteis vividos, erra de
vilão e apoia, quando o mundo desaba sobre eles.
Greve
de serviço essencial não é novidade, frente aos desmandos de gestores públicos irresponsavelmente
desdenhosos. Médicos as fazem. Juízes as fazem. Na crise da Europa, bombeiros
belgas a fazem. Mais de centena de greves de policiais teve o Brasil. Mas repressão
assim não se viu.
Não
defendo sofrimentos da população. Sabe-se de policiais grevistas armados nos
piquetes. Inadmissível! Greve de força de segurança é já movimento difícil. Quando
envereda pela irresponsabilidade de alguns, é crime e suicídio. Assassinatos na
Bahia aumentavam há tempos, mas acho que há muito a investigar no surto que lá
ocorreu. A irresponsabilidade governamental pode ter aberto espaço para
criminosos de farda sabotarem o movimento.
Por
isso, dada a ressalva, minha palavra é de solidariedade aos bons policiais e
bombeiros que lutavam por dignidade. Mantenham a espinha ereta. A greve tentada
não nasceu ontem e não morrerá amanhã. Ela avisa que o Brasil está perdendo a
chance de - pela via da PEC 300, quem sabe? – debater futuro decente na
segurança pública. Ele não virá sem condições dignas de sobrevivência para
policiais e bombeiros. A penúria não é boa conselheira da arma.

O que falar, se você já disse tudo?
ResponderExcluirEu estive na Cinelândia, com os policiais daqui de Teresópolis, quando decretaram a greve.
Dignidade já.