quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

GREVE CRISE GRAVE

Denilson Cardoso de Araújo


            O Brasil de extremos não sabe ao certo se ama ou odeia seus policiais. Problema de história e de imagem. Tiradentes, herói, foi policial no Regimento de Cavalaria Paga. Eram policiais, bandidos, o Esquadrão da Morte, Mariel e o Fleury. “Cosme e Damião”, duplas de rua em policiamento quase britânico. Heróis. Polícia militar força auxiliar da ditadura. Bandidos.
            José Padilha encafifou na segurança pública. Com “Notícias de uma Guerra Particular”, do João Moreira Salles, seus filmes formam imprescindível saga documental. Contradições, cruezas e dúvidas policiais transbordam de “Notícias” e sangram de “Ônibus 174”. Em “Tropa de Elite I” ambigüidade inexiste: Nascimento é o mocinho. Na calamidade, não cabe ao policial debater se a Lei Áurea ficou meia boca. “Tropa II” desnuda milícias donatárias de senzalas. Septicemia em mídias, palácios e parlamentos. Ao fim, nos salva o bom policial. Facilitada à vida real a expulsão do tráfico no Alemão.
            A penosa profissão padece mazela que nem Capitão Nascimento ajeita. É força da ordem. Impostos da maioria pagando segurança de luxo a riquezas de poucos. Fato perverso do modelo que opera este Brasil moído de sofrimentos. Como o drama da falta de moradia.
            Pinheirinho. Com a ordem judicial de desocupação, lá se foi a polícia, em constitucional missão. Resistência houve, vaia veio. Justa ou não, cola. Mazelas comportamentais da corporação, inegáveis excessos, assim decidem. Mas a balbúrdia maior vem do fato de ser, a polícia ostensiva, ponta de lança do sistema. Este, aguçado pelo fio da navalha neoliberal, é perpetuador de injustiças. Fecham a conta: ‘sistema injusto’ + ‘policial força do sistema’ = ‘policial injusto’.
            Eterno debate nas esquerdas, esse. É conhecida a diatribe de Pasolini, quando do movimento de 1968. Ousou o cineasta ousado dizer aos revoltosos que ocupavam universidades e combatiam a polícia, que a revolta de universitários bem nascidos era burguesa (o que de fato se viu), e que ele, comunista, se identificava com os policiais, pobres filhos de pobres. Anarquistas – que vêem polícias como forças da ordem, somente - têm urticária quando no apoio a passeatas de policiais vêem certos socialismos que enxergam, além da farda, assalariados explorados.
            Óbvio. O policial é agente do sistema mesmo. Como o são, por exemplo, bancários, operadores do Direito, educadores, ora bolas! Bancos escorcham clientes, gente do Direito faz cumprir injustas leis do sistema, e escolas desprezadas e manipuladas pelo sistema, a ele fornecem gado. Todos estamos, de algum modo, na máquina. A questão é ter senso crítico. Conheço bancários, juízes, educadores e policiais que o têm. De dentro do sistema, trabalham para mudá-lo. É o que importa.
            Problema é o escasso ganho para o diário mister do risco de vida. Alguns vestem farda no quartel, para não serem mortos em casa. A malvadeza do esquema põe filhos da pobreza da lei morando em parede colada com filhos da pobreza do crime. Daí, greves. Incentivadas pelo PT. Ouviram Jacques Wagner apoiá-los em 2001, quando não era governador. Lula candidato disse que tinham direito à greve porque serviço essencial tem que merecer essencial salário. Greves policiais foram anistiadas pelo PT. Agora cospem neles.
            A PEC-300, que cria piso nacional de salários, aprovou-se na Câmara, em primeiro turno, nos idos de 2010. O segundo turno empacou-se na gaveta. Os policiais tomaram chá de cadeira de secretário, ministro e deputado. Quando estes dão as caras, se revezam em enrolações labirínticas, prometendo vírgulas do nada. Na Bahia, há decisões judiciais em favor dos policiais, que o governador descumpre. Enquanto seguem no estresse de arriscar a vida sem salário digno, suas mulheres e filhos vão pra rua bater panelas. Nada. Um dia, vai-se a paciência. Vem a greve crise grave.
            Empresários exasperados, trator governamental, prisão de líderes a pretexto da escuta que só provava bravatas. Tudo coroado no massacre televisivo do movimento. A população, chegada agora à novela de mil capítulos inúteis vividos, erra de vilão e apoia, quando o mundo desaba sobre eles.
            Greve de serviço essencial não é novidade, frente aos desmandos de gestores públicos irresponsavelmente desdenhosos. Médicos as fazem. Juízes as fazem. Na crise da Europa, bombeiros belgas a fazem. Mais de centena de greves de policiais teve o Brasil. Mas repressão assim não se viu.
            Não defendo sofrimentos da população. Sabe-se de policiais grevistas armados nos piquetes. Inadmissível! Greve de força de segurança é já movimento difícil. Quando envereda pela irresponsabilidade de alguns, é crime e suicídio. Assassinatos na Bahia aumentavam há tempos, mas acho que há muito a investigar no surto que lá ocorreu. A irresponsabilidade governamental pode ter aberto espaço para criminosos de farda sabotarem o movimento.
            Por isso, dada a ressalva, minha palavra é de solidariedade aos bons policiais e bombeiros que lutavam por dignidade. Mantenham a espinha ereta. A greve tentada não nasceu ontem e não morrerá amanhã. Ela avisa que o Brasil está perdendo a chance de - pela via da PEC 300, quem sabe? – debater futuro decente na segurança pública. Ele não virá sem condições dignas de sobrevivência para policiais e bombeiros. A penúria não é boa conselheira da arma.

1 comentários:

  1. O que falar, se você já disse tudo?
    Eu estive na Cinelândia, com os policiais daqui de Teresópolis, quando decretaram a greve.
    Dignidade já.

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