Denilson Cardoso de Araújo
Eu e meus irmãos, razoáveis
operários nas obras da família, comandadas pelo desassombro empreiteiro de meu
pai, aprendemos o supremo valor da correta conjugação dos tijolos. Sua melhor
sintaxe. Tijolo por tijolo num desenho lógico, disse o poeta. Embora não pudéssemos
sobreviver como pedreiros, fomos para sempre instruídos no respeito ao braço
que edifica.
Há
divertidas controvérsias em almoços de domingo, mas, de meu pai, construção
alguma ruiu. Difícil erguê-las, dar-lhes base e prumo eficaz, boa estatura e
confiável firmeza. Assim, as edificações morais. Como de pé manter a família, a
sociedade, um país, aquele prédio?
Prédio
e família são atos de constância. Intempéries oferecem às famílias ciclos de
medição de propósito e persistência, como granizos e vendavais que testam
resiliência de prédios. Hoje vemos em pai e mãe vigas-mestras, colunas-base que
deram sustentáculo à pequena capela de nós. Capela esta que, frente ao
descalabro de proles arruinadas no ódio ou enferrujadas na indiferença, a
amigos, parece catedral. Não, não é. É capela. Mas digna, com azul-renúncia em
modestos vitrais.
Por
isso, vemos. Nenhum desmoronamento – de prédio, sociedade ou família - se faz só
no agora. Ruínas são plantas de semeadura alongada, tratos culturais demorados e
lenta colheita. Seu repente é apenas coroamento de processo. No caso do prédio
de 20 andares da 13 de Maio carioca, surgem dos escombros remotos motivos, razões
medianas, causas imediatas. Simplistas, culpamos a gota de água que transbordou
a maré.
A
ruína pode ser já congênita, uma construção de desabamento. Inoculado
extermínio no ato de engenharia leviana. Setenta anos atrás, aquele prédio foi
concebido em 15 andares. Inchaços inteiraram duas dezenas de pisos. Alargaram andares.
Abriram janelões. Suprimiram paredes, se indica. Pessoas subiam e desciam
acessos sem perceber que a ruína ali já morava. Como vírus, que propaga em silêncio. Como
câncer, cerca a célula indefesa e, no escuro, faz demolição no organismo. Veio
a morte da edificação.
De
famílias, também, ouço estrondos de queda. Vemo-las aos cacos, farelos de
gente. Acatamos indevidas janelas e permitimos remoção de colunas. Casais que apressadamente
se uniram, apressadamente cedem às primárias contendas. Dos que não se separam,
muitos aceitam agressões da TV, abdicam reuniões de família, esquecem domingos de
mesa geral, desrespeitam seus velhos, convertem filhos sem disciplina em
brucutus sociais. Por isso, um dia desabam. Aquele chafurda no vício, essa traz
gravidez prematura, perde-se filho embriagado ao volante, a família se esvai.
Como
aprendemos agora, desabamento de estruturas provoca prejuízos à volta. Dois
prédios mais vieram ao chão, na Rua 13 de Maio. Menores, não suportaram o peso
do prédio maior. Na engenharia da vida ninguém vive só para si. Estamos
interligados. Por isso o dever solidário, de que abdicamos. Altos são os custos.
O desabamento moral de um ser humano, principalmente o adulto em egoísta busca
do idiota prazer para si, acaba por atingir os seus, especialmente os filhos,
prédios menores que são. Daí, se propaga erosão nas famílias. Como não há boa
escola sem família capaz, fragiliza-se a escola que, debilitada, corrói a sociedade,
cuja ruína destroça o país. A propagação da energia da pedra atirada na água.
Inovações
legais e culturais nos tem vindo, como meteoros da paixão na água. Instalam-se,
sem prospecção ou cautela. A mídia as impõe aos costumes, acrescentam-se ao
ordenamento. Dispositivos que podem até melhorar a vista da paisagem, mas
agridem paredes de sustentação.
Rousseau
viu parentesco nos ofícios de legislador e arquiteto: seja solo seja povo, não
se ergue edifício ou legislação, sem prévia sondagem. Terreno ou sociedade
podem não suportar construções de concreto ou de normas legais, diz “O Contrato
Social”. É assim que o que se pretende construção muitas vezes destrói.
Erodem-se
fundações da sociedade, no afã de garantir bela vista à reivindicação
particular. Morrem lutas solidárias e fraternas. Há luta de coletivos, que
resultam na peleja entre coletivos. A reivindicação maximizada de um segmento
inviabiliza atendimento a outra demanda. Os sem voz, vão-se ao relento, quando
deviam ser prioridade. A multiplicação disso abre fissuras no todo edifício.
Mídia
irresponsável, aborto, legalização das drogas, lei da palmada, casamento gay,
direitos sexuais juvenis, etc., são demandas que, aos poucos, infiltram a
construção com fissuras que podem perdê-la. Certa mãe liberou o quarto para que
filha de 14 anos iniciasse vida sexual. Numa escola, dois meninos de 07 a 08 anos, se beijavam no
recreio. A direção não sabia o que fazer. A polícia paulista apreendeu dezenas
de adolescentes em bailes onde funk, drogas e álcool preparavam meninas para o
“cafofo” sob o palco, paramentado para o sexo. Disseram-me de ingênuos pais que
deixam filhas tenras em boates, onde adentram para função de objeto.
Prédios
desabam, famílias desmoronam, tombam sociedades. Sólidos esfarelam no ar.
Depois, catamos pedaços de criaturas. Dedos achados em Gramacho. Macabro
quebra-cabeças de membros alastrados, na busca da pessoa que não mais lá está,
indivíduo promovido a entulho.
Os
destroços na 13 de Maio são áureo lembrete de prévios cuidados devidos à vida,
para que não a construamos como um desabamento. Não o desperdicemos.

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