quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

CONSTRUÇÃO DO DESABAMENTO


Denilson Cardoso de Araújo


            Eu e meus irmãos, razoáveis operários nas obras da família, comandadas pelo desassombro empreiteiro de meu pai, aprendemos o supremo valor da correta conjugação dos tijolos. Sua melhor sintaxe. Tijolo por tijolo num desenho lógico, disse o poeta. Embora não pudéssemos sobreviver como pedreiros, fomos para sempre instruídos no respeito ao braço que edifica.
            Há divertidas controvérsias em almoços de domingo, mas, de meu pai, construção alguma ruiu. Difícil erguê-las, dar-lhes base e prumo eficaz, boa estatura e confiável firmeza. Assim, as edificações morais. Como de pé manter a família, a sociedade, um país, aquele prédio?
            Prédio e família são atos de constância. Intempéries oferecem às famílias ciclos de medição de propósito e persistência, como granizos e vendavais que testam resiliência de prédios. Hoje vemos em pai e mãe vigas-mestras, colunas-base que deram sustentáculo à pequena capela de nós. Capela esta que, frente ao descalabro de proles arruinadas no ódio ou enferrujadas na indiferença, a amigos, parece catedral. Não, não é. É capela. Mas digna, com azul-renúncia em modestos vitrais.
            Por isso, vemos. Nenhum desmoronamento – de prédio, sociedade ou família - se faz só no agora. Ruínas são plantas de semeadura alongada, tratos culturais demorados e lenta colheita. Seu repente é apenas coroamento de processo. No caso do prédio de 20 andares da 13 de Maio carioca, surgem dos escombros remotos motivos, razões medianas, causas imediatas. Simplistas, culpamos a gota de água que transbordou a maré.
            A ruína pode ser já congênita, uma construção de desabamento. Inoculado extermínio no ato de engenharia leviana. Setenta anos atrás, aquele prédio foi concebido em 15 andares. Inchaços inteiraram duas dezenas de pisos. Alargaram andares. Abriram janelões. Suprimiram paredes, se indica. Pessoas subiam e desciam acessos sem perceber que a ruína ali já morava. Como vírus, que propaga em silêncio. Como câncer, cerca a célula indefesa e, no escuro, faz demolição no organismo. Veio a morte da edificação.
            De famílias, também, ouço estrondos de queda. Vemo-las aos cacos, farelos de gente. Acatamos indevidas janelas e permitimos remoção de colunas. Casais que apressadamente se uniram, apressadamente cedem às primárias contendas. Dos que não se separam, muitos aceitam agressões da TV, abdicam reuniões de família, esquecem domingos de mesa geral, desrespeitam seus velhos, convertem filhos sem disciplina em brucutus sociais. Por isso, um dia desabam. Aquele chafurda no vício, essa traz gravidez prematura, perde-se filho embriagado ao volante, a família se esvai.
            Como aprendemos agora, desabamento de estruturas provoca prejuízos à volta. Dois prédios mais vieram ao chão, na Rua 13 de Maio. Menores, não suportaram o peso do prédio maior. Na engenharia da vida ninguém vive só para si. Estamos interligados. Por isso o dever solidário, de que abdicamos. Altos são os custos. O desabamento moral de um ser humano, principalmente o adulto em egoísta busca do idiota prazer para si, acaba por atingir os seus, especialmente os filhos, prédios menores que são. Daí, se propaga erosão nas famílias. Como não há boa escola sem família capaz, fragiliza-se a escola que, debilitada, corrói a sociedade, cuja ruína destroça o país. A propagação da energia da pedra atirada na água.
            Inovações legais e culturais nos tem vindo, como meteoros da paixão na água. Instalam-se, sem prospecção ou cautela. A mídia as impõe aos costumes, acrescentam-se ao ordenamento. Dispositivos que podem até melhorar a vista da paisagem, mas agridem paredes de sustentação.
            Rousseau viu parentesco nos ofícios de legislador e arquiteto: seja solo seja povo, não se ergue edifício ou legislação, sem prévia sondagem. Terreno ou sociedade podem não suportar construções de concreto ou de normas legais, diz “O Contrato Social”. É assim que o que se pretende construção muitas vezes destrói.
            Erodem-se fundações da sociedade, no afã de garantir bela vista à reivindicação particular. Morrem lutas solidárias e fraternas. Há luta de coletivos, que resultam na peleja entre coletivos. A reivindicação maximizada de um segmento inviabiliza atendimento a outra demanda. Os sem voz, vão-se ao relento, quando deviam ser prioridade. A multiplicação disso abre fissuras no todo edifício.
            Mídia irresponsável, aborto, legalização das drogas, lei da palmada, casamento gay, direitos sexuais juvenis, etc., são demandas que, aos poucos, infiltram a construção com fissuras que podem perdê-la. Certa mãe liberou o quarto para que filha de 14 anos iniciasse vida sexual. Numa escola, dois meninos de 07 a 08 anos, se beijavam no recreio. A direção não sabia o que fazer. A polícia paulista apreendeu dezenas de adolescentes em bailes onde funk, drogas e álcool preparavam meninas para o “cafofo” sob o palco, paramentado para o sexo. Disseram-me de ingênuos pais que deixam filhas tenras em boates, onde adentram para função de objeto.
            Prédios desabam, famílias desmoronam, tombam sociedades. Sólidos esfarelam no ar. Depois, catamos pedaços de criaturas. Dedos achados em Gramacho. Macabro quebra-cabeças de membros alastrados, na busca da pessoa que não mais lá está, indivíduo promovido a entulho.
            Os destroços na 13 de Maio são áureo lembrete de prévios cuidados devidos à vida, para que não a construamos como um desabamento. Não o desperdicemos. 

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