domingo, 26 de fevereiro de 2012

BUNKER ROY e a UNIVERSIDADE DOS PÉS DESCALÇOS - - A TRANSCRIÇÃO DA PALESTRA DO POST ANTERIOR BUNKER ROY - A TRANSCRIÇÃO DA PALESTRA DO POST ANTERIOR


Assim, em 1965, fui para a que foi chamada a pior crise de fome de Bihar, na Índia, e vi fome, morte, pessoas a morrer de fome, pela primeira vez. Isso mudou a minha vida.Voltei para casa, disse à minha mãe: "Gostaria de viver e trabalhar numa aldeia." A minha mãe entrou em coma. (Risos) "O que é isto? O mundo inteiro está ao teu dispor, os melhores empregos estão ao teu dispor, e tu queres ir trabalhar numa aldeia? Quero dizer, há alguma coisa errada contigo?" Eu disse: "Não, tive a melhor educação possível.Isso fez-me pensar. E queria retribuir alguma coisa à minha maneira." "O que queres fazer numa aldeia? Sem emprego, sem dinheiro, sem segurança, sem perspectivas." Eu disse: "Quero viver e cavar poços durante cinco anos." "Cavar poços durante cinco anos?Tu frequentaste a escola e a faculdade mais caras da Índia e queres cavar poços durante cinco anos?" Ela deixou de me falar durante muito tempo, porque achava que eu tinha deixado ficar mal a minha família.
Mas, então, descobri os mais extraordinários conhecimentos e habilidades que as pessoas muito pobres têm, que nunca são trazidos ao conhecimento público -- que nunca são identificados, respeitados, aplicados em larga escala. E pensei fundar uma Universidade de Pés-Descalços -- uma universidade só para os pobres. O que os pobres considerassem ser importante seria reflectido na universidade. Fui a uma aldeia pela primeira vez. Os anciãos vieram ter comigo e disseram: " Estás a fugir da polícia?"Eu disse: "Não." (Risos) "Ficaste reprovado no teu exame?" Eu disse: "Não." "Não conseguiste um cargo público?". Eu disse: "Não." "O que é que estás aqui a fazer?Porquê que estás aqui? O sistema de educação na Índia aponta-te Paris, Nova Deli e Zurique; o que estás a fazer nesta aldeia? Há alguma coisa errada contigo que não nos estejas a contar?" Eu disse: "Não, eu quero realmente fundar uma universidade só para os pobres." O que os pobres achassem que era importante seria reflectido na universidade.
Portanto, a universidade funciona segundo os estilos de vida e de trabalho de Mahatma Gandhi. Come-se no chão, dorme-se no chão, trabalha-se no chão. Não há contratos, não há contratos escritos. Podem ficar comigo 20 anos, ou partir amanhã. E ninguém pode receber mais de 100 dólares por mês. Quem vier pelo dinheiro, não entra na Universidade dos Pés-Descalços. Quem vier pelo trabalho e pelo desafio, entra para a Universidade dos Pés-Descalços. Lá queremos que se tentem criar ideias malucas.Qualquer ideia que tenha, venha experimentá-la. Não faz mal se falhar. Maltratado, ferido, começará de novo. É a única universidade onde o professor é o aprendiz e o aprendiz é o professor. E é a única universidade onde não é conferido certificado. É-se certificado pela comunidade que se serve. Não é necessário um papel para pendurar na paredepara mostrar que se é engenheiro.
Portanto, quando eu disse isto, eles disseram: "Bom, mostre-nos o que for possível. O que está a fazer? É tudo conversa fiada se não for capaz de nos mostrar isso no terreno."Então, construímos a primeira Universidade dos Pés-Descalços em 1986. Foi construída por 12 arquitectos Pés-Descalços que não sabem ler, nem escrever,construída por 1,50 dólares o metro quadrado. 150 pessoas viveram ali, trabalharam ali.Receberam o Prémio Aga Khan para a Arquitectura em 2002. Mas depois desconfiou-se, achou-se que havia um arquitecto por detrás. Eu disse: "Sim, eles fizeram as plantas,mas os arquitectos Pés-Descalços realmente construíram a universidade." Na verdade, fomos os únicos a devolver o prémio de 50.000 dólares, porque não acreditaram em nós, e nós pensámos que eles estavam, verdadeiramente, a insultar os arquitectos Pés-Descalços de Tilonia.
De cinco em cinco anos temos uma eleição. As crianças entre os 6 e os 14 anosparticipam num processo democrático, e elegem um primeiro-ministro. A primeira-ministra tem 12 anos. De manhã, toma conta de 20 cabras, mas à noite é primeira-ministra. Tem um governo, um ministro da educação, um ministro da energia, um ministro da saúde. E eles efectivamente acompanham e supervisionam 150 escolas com 7.000 crianças. Ela recebeu o Prémio das Crianças do Mundo há 5 anos, e foi à Suécia. Pela primeira vez saiu da sua aldeia. Nunca tinha visto a Suécia. Não estava nada deslumbrada com o que estava a acontecer. E a Rainha da Suécia, que está ali, virou-se para mim e disse, "Pode perguntar a esta criança onde foi ela buscar tanta autoconfiança? Ela só tem 12 anos, e não está deslumbrada com nada." E a rapariga, que está à sua esquerda, virou-se para mim e olhou para a rainha directamente nos olhos e disse, "Por favor, diga-lhe que sou a primeira-ministra."
Fomos a África, e fizemos a mesma coisa. Todas estas mulheres sentadas à mesma mesa, vindas de 8, 9 países, todas a conversar entre si, não compreendendo uma palavra, porque estão todas a falar línguas diferentes. Mas a sua linguagem corporal é extraordinária. Estão a falar entre si e, na verdade, a tornar-se engenheiras solares. Fui à Serra Leoa, e aconteceu um ministro ir a guiar, pela calada da noite -- atravessa uma aldeia. Volta para trás, vai à aldeia e diz: "Bom, o que é que se passa?" Eles disseram: "Estas duas avós..." "Avós?" O ministro não podia acreditar no que estava a acontecer."Onde é que elas foram?" "Foram à Índia e voltaram." Foi directo ao presidente. Disse: "Sabe que há uma aldeia electrificada com energia solar na Serra Leoa?" Ele disse: "Não." Metade do governo foi visitar as avós no dia seguinte. "Como é que isto aconteceu?" Então, ele chamou-me e disse: "Pode treinar-me 150 avós?" Eu disse: "Não posso, Senhor Presidente. Mas elas treinam. As avós treinam." Assim, ele construiu-me o primeiro centro de treino Pés-Descalços na Serra Leoa. E 150 avós foram treinadas na Serra Leoa.
Gambia: fomos à Gambia seleccionar uma avó. Fomos a uma aldeia. Eu sabia que mulher gostaria de levar. A comunidade reuniu-se e disse: "Leve estas duas mulheres."Eu disse: "Não, quero levar esta mulher." Eles disseram: "Porquê? Ela não conhece a língua. Você não a conhece." Eu disse: "Gosto da linguagem corporal. Gosto da maneira como ela fala." "Tem um marido difícil; não é possível." "Chamem o marido." O marido veio, fanfarrão, político, de telemóvel na mão. "Não é possível." "Porque não?" "A mulher, veja como ela é bonita." Eu disse: "Sim, ela é muito bonita." "O que acontece se ela foge com um indiano?" Era esse o seu maior medo. Eu disse: "Ela estará feliz. Ligar-lhe-á pelo telemóvel." Ela foi como uma avó e regressou como um tigre. Desceu do avião e falou aos jornalistas como se fosse uma veterana. Lidou com a comunicação social nacional e tornou-se uma estrela. E quando voltei, seis meses mais tarde, disse: "Onde está o teu marido?" "Ah, anda por aí. Não interessa." (Risos) Uma história de sucesso.

Extraído de - http://www.ted.com/talks/lang/pt/bunker_roy.html

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