Denilson
Cardoso de Araújo
Não há Carnaval que justifique. Não há
carência de recursos públicos que autorize. Não há confusão administrativa que torne
aceitável. Não há miopia política que tanto autorize. Não há povo mal educado
que a esse ponto desculpe a omissão. Nada faz possível relevar a depredação que
após tomar conta das ruas da Cidade Imperial, emporcalhando monumentos,
obelisco, escolas, ruas, postes, orelhões, estátuas, muros, casas tombadas,
casas ruindo, ruínas preciosas, escalou a estátua do imperador cravada no
centro da cidade, e vandalizou-a com tinta amarela.
Talvez seja coisa de petropolitano não
aqui residente por 30 anos, e que agora estabelecido percorre as ruas
diariamente e se espanta com a decadência dos equipamentos urbanos. É “de Pedro”
a cidade. Pedro, pedra, alicerce. Serviu para o Evangelho. Tu és Pedro, “sobre
esta pedra...”, disse Jesus. Embora haja interpretações divergentes, e eu
compartilho a que vê no dito o simbolismo da fé pétrea do apóstolo, o fato é
que, em torno da figura de Pedro se ergueu o vestíbulo do cristianismo. Petró-polis.
Tu és Pedro, Imperador. Sobre esta pedra se ergueu uma cidade, como a fez
Koeller.
Saindo daqui e nômade em 30 anos por
outras paragens, pude notar certas vaidades que cultivamos intra-muros e que
soavam mal a quem observava de fora. Nobrezas envelhecidas, títulos de pompa e
sem circunstância nos fizeram assim. Talvez uma ponta de arrogância, aqui e ali,
quem sabe. Coisas de cidade que perdeu o porte que o Império lhe dava e que
resistia à possível decadência. Não condeno. Coisas de cidade que, em
República, era adolescente e carecia se reinventar. Acho que em algum momento
se chega ao equilíbrio.
E era mesmo impossível não se
maravilhar e inchar o peito, num matinal domingo em sol de ouro e céu azul, com
a luz rebatendo nos vitrais da Catedral, correndo pelos rios, encarapitando-se
nos castelos e mansões, deslizando pelas encostas e indo brincar nos jardins do
Museu. Daí, a humildade passa a ser difícil exercício.
E o que dizer das Academias Petropolitanas,
de Letras, de Poesia, de Educação, com seus tantos luminares? Que dizer de
Cláudio de Souza e sua Casa ora recuperada? Que dizer de Raul de Leoni, e dos
muitos intelectos, como Zweig, Érico, Dante Milano, Jorge Amado, Vinícius, que
aqui buscaram letras para suas obras e luz para suas letras? Que dizer dos
trovadores e poetas, como Roberto Francisco e Carolina de Castro, que
extrapolaram fronteiras com a precisão de seus versos? Que dizer de cidade onde
hoje pontificam (e citarei alguns, apenas, na certeza de ser injusto com tantos
outros aos quais rogo desculpas...) Fernando Py, Fernando Magno, Ataualpa
Filho, Fernando Costa, Sylvio Adalberto, Carmem Felicceti, Gustavo Wider,
Gerson Valle, Christiane Michelin, Joaquim Santos, Vera Abad?
Que dizer de uma cidade que teve nas
famílias Chaves e Aguiar de Reynaldo, Mariazinha, Wolney e Ernani esteio que
celebrou a música deixando legados como a Banda Marcial do D. Pedro II, o Coral
Municipal, a Escola de Música Santa Cecília? E falando em música, que dizer de
uma cidade onde nasceu Guerra-Peixe? Onde há Canarinhos e Princesas, rouxinóis
todos? Onde atuou Joar Gelli, Célio Barbosa, onde Marco Aurêh labora? Onde o
Grupo Taruíra encanta? Onde o Coral Celebrai, da Segunda Igreja Batista,
inspira? Onde encantaram pelas igrejas evangélicas os violinos de Henrique
Carnevalli e do Pr. Nilson Dimárzio?
Que dizer de uma cidade de educadores
como Dinizar de Araújo, Maurício Cardoso de Mello, Josemar Contage, Ernani
Pinto Ferreira, Josemar Contage, Frei Mozer, e tantos outros? Uma cidade de
cujos bancos acadêmicos saíram tantos juristas e Desembargadores?
São compreensíveis, portanto, as causas
de nosso orgulho, que pode ter deslizado à vaidade. E o problema do vaidoso que
não se humilda (se torna humilde), é não escapar à arrogância. Fatalmente acaba
humilhado, exposto, envergonhado. E o fato é que, assim como a casa suja e mal
cuidada frequentemente demonstra, mais do que penúria material da família, a
certeza da penúria moral da sua alma, uma cidade suja e de prédios mal cuidados
põe na sua pele as erupções e escaras de mazelas que lhe correm as entranhas. Nem
se diga que descuro questões sociais e a pobreza do nosso povo. Pois se assim
se cuida do Imperador, quanto não padecem os pobres, pelos subúrbios e encostas?
E tenho visto que muito padecem.
No Rio existe a cerimônia de lavagem
da estátua de Tiradentes, em frente à ALERJ, que gerações sucessivas de alunos
praticaram, como ato de civismo. A estátua de Pedro II devia merecer algo
parecido. Um rodízio de escolas para esse cuidado, não faria mal aos alunos,
faria bem à estátua, e talvez ajudasse a evitar que fosse assim vandalizada.
Um dia perdemos as hortênsias que nos
forneceram saudoso codinome. Dizem-me que foram transplantadas para Caxias do
Sul, onde fazem sucesso. Se não queremos honrar o legado deste maior brasileiro
que foi Pedro II, consolidador de uma nação, que proponhamos a mudança da
centenária estátua para dentro do Museu Imperial ou para o Palácio de São
Cristóvão. E que se altere o nome da cidade, então. Se em nós seca o orgulho da
nossa bela herança, que adotemos de vez o mais adequado nome de... Córrego
Seco.

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