quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A BARBA AMARELA DO IMPERADOR


Denilson Cardoso de Araújo

Não há Carnaval que justifique. Não há carência de recursos públicos que autorize. Não há confusão administrativa que torne aceitável. Não há miopia política que tanto autorize. Não há povo mal educado que a esse ponto desculpe a omissão. Nada faz possível relevar a depredação que após tomar conta das ruas da Cidade Imperial, emporcalhando monumentos, obelisco, escolas, ruas, postes, orelhões, estátuas, muros, casas tombadas, casas ruindo, ruínas preciosas, escalou a estátua do imperador cravada no centro da cidade, e vandalizou-a com tinta amarela.
Talvez seja coisa de petropolitano não aqui residente por 30 anos, e que agora estabelecido percorre as ruas diariamente e se espanta com a decadência dos equipamentos urbanos. É “de Pedro” a cidade. Pedro, pedra, alicerce. Serviu para o Evangelho. Tu és Pedro, “sobre esta pedra...”, disse Jesus. Embora haja interpretações divergentes, e eu compartilho a que vê no dito o simbolismo da fé pétrea do apóstolo, o fato é que, em torno da figura de Pedro se ergueu o vestíbulo do cristianismo. Petró-polis. Tu és Pedro, Imperador. Sobre esta pedra se ergueu uma cidade, como a fez Koeller.
Saindo daqui e nômade em 30 anos por outras paragens, pude notar certas vaidades que cultivamos intra-muros e que soavam mal a quem observava de fora. Nobrezas envelhecidas, títulos de pompa e sem circunstância nos fizeram assim. Talvez uma ponta de arrogância, aqui e ali, quem sabe. Coisas de cidade que perdeu o porte que o Império lhe dava e que resistia à possível decadência. Não condeno. Coisas de cidade que, em República, era adolescente e carecia se reinventar. Acho que em algum momento se chega ao equilíbrio.
E era mesmo impossível não se maravilhar e inchar o peito, num matinal domingo em sol de ouro e céu azul, com a luz rebatendo nos vitrais da Catedral, correndo pelos rios, encarapitando-se nos castelos e mansões, deslizando pelas encostas e indo brincar nos jardins do Museu. Daí, a humildade passa a ser difícil exercício.
E o que dizer das Academias Petropolitanas, de Letras, de Poesia, de Educação, com seus tantos luminares? Que dizer de Cláudio de Souza e sua Casa ora recuperada? Que dizer de Raul de Leoni, e dos muitos intelectos, como Zweig, Érico, Dante Milano, Jorge Amado, Vinícius, que aqui buscaram letras para suas obras e luz para suas letras? Que dizer dos trovadores e poetas, como Roberto Francisco e Carolina de Castro, que extrapolaram fronteiras com a precisão de seus versos? Que dizer de cidade onde hoje pontificam (e citarei alguns, apenas, na certeza de ser injusto com tantos outros aos quais rogo desculpas...) Fernando Py, Fernando Magno, Ataualpa Filho, Fernando Costa, Sylvio Adalberto, Carmem Felicceti, Gustavo Wider, Gerson Valle, Christiane Michelin, Joaquim Santos, Vera Abad?
Que dizer de uma cidade que teve nas famílias Chaves e Aguiar de Reynaldo, Mariazinha, Wolney e Ernani esteio que celebrou a música deixando legados como a Banda Marcial do D. Pedro II, o Coral Municipal, a Escola de Música Santa Cecília? E falando em música, que dizer de uma cidade onde nasceu Guerra-Peixe? Onde há Canarinhos e Princesas, rouxinóis todos? Onde atuou Joar Gelli, Célio Barbosa, onde Marco Aurêh labora? Onde o Grupo Taruíra encanta? Onde o Coral Celebrai, da Segunda Igreja Batista, inspira? Onde encantaram pelas igrejas evangélicas os violinos de Henrique Carnevalli e do Pr. Nilson Dimárzio?
Que dizer de uma cidade de educadores como Dinizar de Araújo, Maurício Cardoso de Mello, Josemar Contage, Ernani Pinto Ferreira, Josemar Contage, Frei Mozer, e tantos outros? Uma cidade de cujos bancos acadêmicos saíram tantos juristas e Desembargadores?
São compreensíveis, portanto, as causas de nosso orgulho, que pode ter deslizado à vaidade. E o problema do vaidoso que não se humilda (se torna humilde), é não escapar à arrogância. Fatalmente acaba humilhado, exposto, envergonhado. E o fato é que, assim como a casa suja e mal cuidada frequentemente demonstra, mais do que penúria material da família, a certeza da penúria moral da sua alma, uma cidade suja e de prédios mal cuidados põe na sua pele as erupções e escaras de mazelas que lhe correm as entranhas. Nem se diga que descuro questões sociais e a pobreza do nosso povo. Pois se assim se cuida do Imperador, quanto não padecem os pobres, pelos subúrbios e encostas? E tenho visto que muito padecem.
Humilha-nos o estado da Casa do Barão de Mauá, do Obelisco e de outros monumentos, e determinam: graves são nossas mazelas. Mais emblemático do que tudo, entretanto, é o desleixo com o vandalismo à estátua de Pedro II. Após pichações que se sucederam e envelheceram sobre a fuligem incrustada e a urina dos cães que a manchou, veio agora o desrespeito-mor. O amarelo entornado em sua cabeça e barba. Já me disseram de turistas que sobem ao colo do monumento para bater fotos. A não ser que a explodam, não falta mais nada.
No Rio existe a cerimônia de lavagem da estátua de Tiradentes, em frente à ALERJ, que gerações sucessivas de alunos praticaram, como ato de civismo. A estátua de Pedro II devia merecer algo parecido. Um rodízio de escolas para esse cuidado, não faria mal aos alunos, faria bem à estátua, e talvez ajudasse a evitar que fosse assim vandalizada.
Um dia perdemos as hortênsias que nos forneceram saudoso codinome. Dizem-me que foram transplantadas para Caxias do Sul, onde fazem sucesso. Se não queremos honrar o legado deste maior brasileiro que foi Pedro II, consolidador de uma nação, que proponhamos a mudança da centenária estátua para dentro do Museu Imperial ou para o Palácio de São Cristóvão. E que se altere o nome da cidade, então. Se em nós seca o orgulho da nossa bela herança, que adotemos de vez o mais adequado nome de... Córrego Seco.

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