quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

SÓ PRA CONTRARIAR


SÓ PRA CONTRARIAR
Denilson Cardoso de Araújo


            A presença dos pagodeiros do Grupo SPC sob chuvas de Ano Novo em Teresópolis deixou-me desconfortável. Parece que chegou só pra contrariar a contenção de festejos que, por lutuoso respeito, se praticou no ano findo, nas serras atingidas pela tragédia do verão passado. Dinheiro gasto pela Prefeitura, justificado a título de “levantar a autoestima teresopolitana”. Esquisito.
            Autoestima não se reconstrói na passividade do espectador. Autoestima se faz e refaz no protagonismo. No agir. Povo no palco. Não na plateia. É de triste memória a cidade do Dedo de Deus, sem pão que baste, dar circo assim, como em desgovernos outros, que fizeram do pátio do Palácio Cor de Rosa desmobilizador play ground de entretenimento muito e cidadania pouca.
            Crianças de agora são criadas em passividades. Games e internet, interagindo prioritariamente na virtualidade. Terão problemas de autoestima. Afora a já antiga e gravíssima lacuna das finadas búricas de gude e piões de ponteira afiada, perdem o convívio real, com gente de carne e osso e problemas de ferro e pedra. Ainda bem que, só pra contrariar, há os que virtuosamente criam filhos no antídoto de ter que se virar para obter brinquedos. A caixa de papelão recolhida na rua, com certos recortes, exatas dobraduras e bem escolhido guache será avião, armadura romana ou veste de super-herói. Isso, praticado em grupo, exigindo aprendizado de cooperação e negociações com adultos que fornecerão tesouras e guache, produz gente criativa, capaz de transformação da realidade. Mas a maioria só aperta botões.
            Tamagochi era um “bichinho de estimação eletrônico”. Invenção de japonês, precisava ser acarinhado, alimentado, tirar soneca, tudo apertando botões. Mal cuidado, morria. Houve berçários de Tamagochis, para quando o adolescente tinha compromisso, aula, etc. Isso deve ter mais de 15 anos. Parece que foi testagem da predisposição contemporânea de dominar-se por aparelhos eletrônicos. Tamagochis hoje têm muitas raças – celulares, ipads, ipods, tablets. Famintos, nos cochos do Google, do “Face”, etc. Você vê esses jovens viciados em contato eletrônico. Dentro do cinema “twitam” conteúdos do filme, em sala de aula não saem do MSN, quando beijam, anunciam.
            Esse adolescente passivo, dos games e neo-tamagochis – e dos shows no pátio - logo comparece à eleição-videogame. Nossa votocracia tem urna eletrônica, afinal. E a TV, que mentoreia candidatos-sabonetes. E a Internet, com projeções e avaliações. Tudo somado, eleições – que deviam ser momento nobre do protagonismo cidadão – viradas em games de cenários bonitos, e realidade pouca. “Fatality!” na cidadania!
            Por isso, sou dos que duvidam da democracia frágil que concede supérfluos, mas anestesia no essencial. Votamos muito. Decidimos pouco. Parca e porcamente representados. O poder econômico gera os parlamentos que deseja. Eleitos fazem o que bem entendem, seja ou não relevante, seja ou não de interesse da cidadania.
            Certa vez, o Chico Buarque sugeriu como antídoto para trapalhadas governamentais a criação do Ministério do “Vai dar M...”. O sujeito ficaria lá pelo Planalto, observando. Consultado sobre pessoas e propostas, conforme avaliasse a situação, diria no ouvido do mandatário: “Vai dar M...”. Boa proposta, que não foi levada a sério.
            Devíamos ter algo assim, em nível de cidadania. Só pra contrariar. E podia chamar-se, como os pagodeiros loteados pelos irmãos Pires, SPC mesmo, que é sigla boa. Serviu ao despropositado show de Ano Novo, serve à proteção do crédito, bem poderia servir a um Serviço de Proteção ao Cidadão. Uma conjugação de “Vai dar M...” com Ficha Limpa e Ouvidoria, mais Assembleia semestral de prestação de contas do eleito, com poderes de revogar mandatos.
            Lembro um PT de primórdios que chegou a debater como essencial essa cláusula, da revogabilidade de mandatos. O sujeito que, eleito com determinadas propostas e programas, servisse mal aos votantes que nele creram, seria democraticamente defenestrado. Foi pras calendas, dada a Articulação que se criou em torno do lulismo vigente. Ao admitir Mensalão, como não admitiria pecadilho menor, de traição do voto?
            Mas atos de cidadania sobrevivem. Haverá em Teresópolis manifestação da Associação de Vítimas da Chuva, com minuto de silêncio às 18 horas do dia 12 de janeiro. Seria bom que o evento se espalhasse por Petrópolis e Friburgo. Bom que balões brancos subissem aos céus levando nomes das vítimas. Bom que fossem lidos tais nomes, em praça pública. Melhor, que os vivos gritassem o protesto dos mortos.
            E, melhor que tudo isso, seria o povo na rua cobrando o dinheiro sumido nas enchentes, a entrega das casas necessárias, a contenção e replantio das encostas que assustam no despudor de seus barros desnudos, a prisão dos roubadores do erário, a criação efetiva de formas de prevenção às tragédias. E seria ótimo que, ao minuto de silêncio, se seguisse rumoroso bater de panelas, clamor da indignação que levasse a transformações profundas nestas sofridas serras. Só pra contrariar. Só pra variar. Nada melhor para a nossa autoestima.
                                   
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denilsoncdearaujo.blogspot.com

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