EFÍGIES DA TRAGÉDIA
Denilson Cardoso de Araújo
Aquele cachorro ia na enxurrada,
toda gente via. Tentava manter a cabeça à tona, engolia lama e água. Ao lado,
descia o homem, já afogado. O cachorro agarrou-se a ele. Terminaram descarnados
nas pedras lá debaixo. Um braço se perdera no caminho. Nunca achado.
Aquela
mulher chegou ao ginásio se arrastando. Tinha varizes sujas, saltando pelas
pernas gordas de esfarrapadas meias. O pano no cabelo tinha flores, mas flores
não havia na seca fala que implorava. Comida, teto, o colchonete para os netos.
Ela implorava. Da face, uma pedra em gota escorria.
Aquele homem tinha lodo nos cabelos
alvos. Negros beiços mais do que rachados. Chorava, dois joelhos afundados na
profunda lama. Cheirava mal. Chorava mal, porque um soluço seco entrecortava
suas palavras. As mãos erguidas ao céu gritavam pelos dedos. Todo Portinari, o
quadro.
Aqueles pais rondavam pedras que
fechavam a estrada, como meteoros de um céu ingrato. Gigantescas pedras, e os
filhos, tão pequenos, onde estão? Deixa-me passar, moço, que não sei da minha
filha. Saiu ontem, ainda não voltou... Por Deus, deixa-me passar, moço. Mas as
pedras, colossais. Aqueles pais as rondavam querendo arrostar barreiras,
arrancar do coração das penhas a esperança em réstia.
Aquela
moça ia na solidariedade do banco de trás. Tinha arregalados olhos de quem
achava estranha a vida no escuro dia, mas era imperativo cumprir horário em
casa da madame. De repente, o motorista ouve o desespero de quem viu a encosta ao
abismo derrubada. A casa do meu noivo... cadê, moço?! Cadê?! E nada era
possível dizer. Nada era possível fazer sobre o casamento inutilmente já
marcado. A não ser parar o carro e amparar a cabeça que arrebentava em comoção.
Aquela
mulher entrou no abrigo. Olhou à volta, jornalistas muitos, providência pouca,
a desolação nos colchonetes. Lembrou remédios perdidos, perdidos amigos, fome
estranha, dentes da lama. O repórter apontou a câmera, pouco antes de ela cair em convulsão. O
voluntário afastou o repórter com piedoso safanão indignado. Queria dar-lhe um
murro, mas urgia proteger a cabeça da mulher.
Aquela moça ia para a Academia com
seus tênis de marca. Coquete e bronzeada, patrícia e oxigenada, o silicone
saltando a camiseta. O voluntário que corria aos socorros, insone e enlameado,
teve ânsias de vômito e de pergunta. Em que mundo vive você que está aí,
pedindo brioches ao povo sem pão, Antonieta alienada?
Aquela
igreja pobre tivera culto na véspera. Comprara nova passadeira para o corredor
do centro. Os bancos tinham sido lustrados. Alguns congregados podiam não
gostar, pensou o pastor. Flash inútil a lhe demover do abrir portas na
misericórdia. Quando viu aquele povo ali, abrigado na Casa de Deus, pensou que
não havia melhor prece e culto que o abraço das paredes do templo aos que
doíam. Improvisou na passadeira um colchonete e foi providenciar a sopa. Aguada
de lágrimas no tempero, mas quente da esperança voluntária.
Aquela
grávida sonhava, quando ruiu o mundo. No sonho, crianças e berços de jardim sob
um sol de mel. Agora, em meio ao lamaçal do pesadelo, ela paria. A criança
veio, sob lama e gritos, enquanto apressados socorristas se achegavam. Do
apocalipse ao gênesis, um minuto. A enfermeira voluntária desabou com o bebê ao
colo, lembrando a criança morta de ainda há pouco.
Aqueles
pais rondavam os abrigos. Foram aos hospitais. Quando já era madrugada,
convenceram-se. Necessário ir ao IML. Fechado estava, no colégio improvisado.
Corpos chegavam, renovando o espanto. Dormiram na fila até que foram ver as
horríveis fotografias que notícia boa não guardavam. A mulher desfaleceu na
lama empapada. Um estranho os abraçou.
Aquele
bombeiro vinha já exausto. Cansado de cavar as pedras, driblava o barro que
escorria, aluvião que vazava em toda greta do morro desabado. A farda se
rasgara no joelho e o suor da testa lhe criara lodo à volta dos olhos. Por
isso, discernia mal, mas pôde ver aquela mão que se estendia, como flor
brotando da terra. Cavou ansiosamente. Colegas se achegaram. Roubar o
sobrevivente à lama de casulo foi realizar um parto. Devolvida aquela vida ao
mundo, o bombeiro recostou a cabeça e gemeu a dor. Só agora via o osso quebrado
na pá da mão ensangüentada.
Aquela
criança brincava à volta do abrigo, surpreendeu-se o voluntário que levava água
aos miseráveis que chegavam. O céu permanecia temerário, mas um facho de luz
encontrara jeito de iluminar o brincante menino. E viu-lhe o gesto de estender
na mão pequena o boneco sem braço ao bebê que engatinhava no pasmo.
Aquelas
cidades sussurraram esse tempo inteiro. Um silêncio reverente se espalhou e,
descabido, não saiu o Carnaval da perplexidade. Aquelas cidades choraram esse
tempo todo. Invencível pranto, de jamais cessar. Depois do espetáculo, as TV’s,
elite da Tropa do Ibope, levantaram acampamentos atrás de drama novo. O turismo
da tragédia cessou. Prometidas obras não vieram. Vexatórios roubos se viram.
Caíram prefeitos. E a tragédia segue, ao desamparo, indecifrada esfinge.
Mas
o profeta Jeremias gritou do cume das montanhas sua visão do vaso desfeito em
barro na mão do oleiro, em 12 de janeiro. A serra despencada em seu outeiro, em
12 de janeiro. Revelou ser necessário quebrar o que mal feito estava e refazer
os moldes todos. Todos. Faz hoje um ano que anuncia. Só não ouviu a voz quem
não quis. Onde vítimas houve, governos foram tardos, mas chegaram voluntários.
A lição? O mundo é um dever nosso, povo da serra. Este, o caminho da mudança.
denilsoncdearaujo.blogspot.com

Denilson como sempre sua sensibilidade falou mais alto, o retrato de uma tragédia ou catástrofe como querem alguns revivido em pedaços que agora possivelmente já não doe tanto nos que não foram atingidos, mas que deveria doer na alma dos que recursos obtiveram e nada fizeram como ainda não o fazem e nunca farão. Eles não sofreram as dores da perda, eles são pedras e como pedra desprovida de sentimentos para com seu próximo até o dia em que a eles Deus se manifestará.
ResponderExcluirBeijos!
Cada fato desses, eu vi e vivi, como sei que vc e muitos viveram e sentiram. Tomara que muitos mais sintam e se movimentem para que tragedias assim nao acontecam. Pq tragedia maior eh a falta de solidariedade e compaixao. Bj, Madah. Que Deus te abencoe.
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ResponderExcluirEmbora esse seja meu primeiro comentário, acompanho seu trabalho há algum tempo, inclusive no Jus Navigandi. Quero parabenizá-lo por ter um dom tão adimirável, o dom da palavra. Suas críticas me acrescentam muito e a cada novo artigo conscientizo-me mais sobre os problemas abordados. Fui também umas das vítimas dessa enorme catástrofe e sei o quão importantes são suas palavras sobre esse assunto. Parabéns mais uma vez e fique com Deus.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário tão gentil, Victor. Dom de Deus. Procuro ser responsável com ele. Deus te abençoe.
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