quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

D. LUÍSA NUNCA IRÁ AO CANADÁ




Denilson Cardoso de Araújo
           
            Atrasado que sou, a novidade da jovem paraibana que estava no Canadá, me chegou já finada. Soube da jovem Luíza no dia em que conheci D. Luisa, anciã. Atendi-a, mulher digna, com sorriso de nobreza que desmentia na alma a condição de física penúria e material miséria. Como ela, muitas, que arrastam carências porta em porta das moucas repartições da cidade. Pano na cabeça, calçados furados vazando reumatismo e artroses. Mendigam cestas básicas, remédios, auxílios. Atiradas irresponsavelmente de um a outro balcão, distantes eternidades. Há quem desdenhe D. Luisa, achando que pretende vida mansa... Como fácil fosse essa vida de sustentar filho deficiente, netos sem creche e marido acamado, com os poucos trocados que, lavadeira bissexta ou faxineira de coluna estragada, obtém!
            Acostumada à desfeita, Dona Luisa segue o caminho, da lama ao lixo, passando entre alamedas de luxo. É negra, sua pele. Refaz caminhos de avós, que perambulavam entre palacetes com seus farrapos e trabalhos de ganho. A única viagem de grande latitude que seu DNA conheceu foi porão de tumbeiro, quando ancestrais vieram da África. A própria D. Luisa somente recorda manhã velha, quando desceu da serra à praia do lameiro de fundo da Guanabara.
            Exerce olimpíada sem louros, pelas repartições que nunca resolvem demandas. Êxodos, em desertos de fome, sem coluna de nuvem ou fogo. Sob chuva ou sol, sem maná. Sai de casa, a D. Luisa, somente com pão sonolento e aguada cafeína. É o sustento de dia inteiro. Muitas vezes, quando retorna à casa precária, leva ao colo somente frustrações. As supera. É preciso forjar a canja rala com pedaços de frango que a remota geladeira reserva entre ferragens ferrugens. Quando consegue leite ou cesta básica, vai o peso nos braços. Transparente, a cesta causa vergonha. Mas a profecia de estômagos calmos a felicita. Por isso, abraça o fardo. Fugazes que somos, não vemos D. Luisa, a invisível.
            Entretanto, a jovem paraibana mereceu de nós abusiva visagem, internacional notoriedade, em uma semana. Efeito avassalador da mobilização virtual “espontânea”. Culto da novidade, neste mundo cada vez mais sem tino, tão teen. Gosto pela inconseqüente bobeira. Andy Warhol radicalizado em celebridades de 15 segundos.
            Não trago à mesma crônica Luíza e D. Luisa, para atiçar peso aos corações. Não sou dos que acha que precisamos viver culpa infinita, arrastar consciência pesada como correntes, para destruir momentos familiares, estragando aniversários e lacrimejando natais. Merecemos ser alegres. Merecemos ser felizes. Brilhar, disse o poeta. Mas acho que só isso alcançamos se à casa aportamos, depois de jornada na qual tenhamos minimamente honrado missões de reduzir a miséria humana. É o que dá polimento à estrela de nós.
            O problema da Luíza, que voltou do Canadá para aproveitar minutos de ridícula fama, é que se fez signo dessa indigência nossa de cada dia, que mascara tragédias contínuas com piadas, memes e distraidores que nos levam a trair básicos objetivos da humana existência. Distraídos com Luíza e com o BBB, vemos cada vez menos D. Luisa.
            A poucos se concede posição de definir grandes questões. Mas a todos é dado ser majestoso nas coisas pequenas, que podem mover engrenagens grandiosas. Princípio da alavanca em ato. Caridade consciente, que pode apoiar transformações, porque multiplica a “Corrente do Bem”, do filme mediano de bela mensagem.
            A mão que apóia a idosa que entra no ônibus; o lugar cedido à grávida cansada; a paciência do balconista com o humilde que traz seu amarfanhado problema; o médico e o juiz que descem dos cristais do Olimpo até o básico respeito humano do cumprimento de horários; o motorista que cede a vez sem queixumes; o abraço calado no apoio ao enlutado. Atos de solidariedade que deviam se multiplicar mais do que a brincadeira com a Luíza. Multiplicarem-se a ponto da gentileza trazer gestos individuais e, estes, ato coletivo, associação, passeata, partido, realização de governo, enfim!
            A internet ainda me deve essa possibilidade. Incorporar-se ao nosso cotidiano de maneira positiva, para modificar a realidade. Desde Seattle, quando a OMC teve que engolir manifestação organizada na rede, a internet se promete essa capacidade, jamais efetivada. Não se viraliza a necessidade da D. Luisa, como viralizou-se a bobeira da moça Luíza, como grassa pedofilia incontrolada, como se multiplicam furtos intelectuais. Precária, sempre, a mobilização via rede. Como no deu-em-nada “Ocupem Wall Street”. Pessoas chegam (em número sempre abaixo do prometido), não se conhecem, mal se organizam, e fazem evento-espetáculo, como convém aos tempos. Nada que efetive mudanças. Apenas aliviam consciências.
            Não seria difícil que os balcões se interligassem on-line para impedir que as Donas Luisas tivessem que perambular pelas cidades, sem solução para suas tristes encrencas. Abandonar-se os famigerados e burocráticos ofícios em favor da comunicação pela internet. Ao menos isso. Ato de bom governo e gesto de solidariedade. Dever de governo, em verdade, eis que a Constituição determina a fraternidade e a solidariedade como alicerces da República. Maior harmonia das instituições impediria o indigno pingueponguear de gente sofrida cidade afora. Mas não enxergamos D. Luisa. Luz nos falta.
            Luz nos falta, porque solidariedade nos falta. Tema de artefato de ler do meu “Alegria de Boa Lavra” com que encerro o presente. Dedico-o a D. Luisa, que com seus sapatos furados, nunca irá ao Canadá. Sequer a Paquetá.
            RADICAL - Com sol, a palavra solidariedade inaugura-se./ Também assim é que o pertinente sentimento/ se avia e em fulgor se anuncia./ Por isso, inevitavelmente,/ a solidariedade faz dia.

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