Denilson Cardoso de Araújo
Atrasado
que sou, a novidade da jovem paraibana que estava no Canadá, me chegou já finada.
Soube da jovem Luíza no dia em que conheci D. Luisa, anciã. Atendi-a, mulher
digna, com sorriso de nobreza que desmentia na alma a condição de física
penúria e material miséria. Como ela, muitas, que arrastam carências porta em
porta das moucas repartições da cidade. Pano na cabeça, calçados furados vazando
reumatismo e artroses. Mendigam cestas básicas, remédios, auxílios. Atiradas
irresponsavelmente de um a outro balcão, distantes eternidades. Há quem
desdenhe D. Luisa, achando que pretende vida mansa... Como fácil fosse essa
vida de sustentar filho deficiente, netos sem creche e marido acamado, com os
poucos trocados que, lavadeira bissexta ou faxineira de coluna estragada, obtém!
Acostumada
à desfeita, Dona Luisa segue o caminho, da lama ao lixo, passando entre
alamedas de luxo. É negra, sua pele. Refaz caminhos de avós, que perambulavam
entre palacetes com seus farrapos e trabalhos de ganho. A única viagem de
grande latitude que seu DNA conheceu foi porão de tumbeiro, quando ancestrais
vieram da África. A própria D. Luisa somente recorda manhã velha, quando desceu
da serra à praia do lameiro de fundo da Guanabara.
Exerce
olimpíada sem louros, pelas repartições que nunca resolvem demandas. Êxodos, em
desertos de fome, sem coluna de nuvem ou fogo. Sob chuva ou sol, sem maná. Sai
de casa, a D. Luisa, somente com pão sonolento e aguada cafeína. É o sustento de
dia inteiro. Muitas vezes, quando retorna à casa precária, leva ao colo somente
frustrações. As supera. É preciso forjar a canja rala com pedaços de frango que
a remota geladeira reserva entre ferragens ferrugens. Quando consegue leite ou
cesta básica, vai o peso nos braços. Transparente, a cesta causa vergonha. Mas a
profecia de estômagos calmos a felicita. Por isso, abraça o fardo. Fugazes que
somos, não vemos D. Luisa, a invisível.
Entretanto,
a jovem paraibana mereceu de nós abusiva visagem, internacional notoriedade, em
uma semana. Efeito avassalador da mobilização virtual “espontânea”. Culto da
novidade, neste mundo cada vez mais sem tino, tão teen. Gosto pela inconseqüente
bobeira. Andy Warhol radicalizado em celebridades de 15 segundos.
Não
trago à mesma crônica Luíza e D. Luisa, para atiçar peso aos corações. Não sou
dos que acha que precisamos viver culpa infinita, arrastar consciência pesada como
correntes, para destruir momentos familiares, estragando aniversários e lacrimejando
natais. Merecemos ser alegres. Merecemos ser felizes. Brilhar, disse o poeta.
Mas acho que só isso alcançamos se à casa aportamos, depois de jornada na qual
tenhamos minimamente honrado missões de reduzir a miséria humana. É o que dá
polimento à estrela de nós.
O
problema da Luíza, que voltou do Canadá para aproveitar minutos de ridícula
fama, é que se fez signo dessa indigência nossa de cada dia, que mascara
tragédias contínuas com piadas, memes e distraidores que nos levam a trair
básicos objetivos da humana existência. Distraídos com Luíza e com o BBB, vemos
cada vez menos D. Luisa.
A
poucos se concede posição de definir grandes questões. Mas a todos é dado ser majestoso
nas coisas pequenas, que podem mover engrenagens grandiosas. Princípio da
alavanca em ato. Caridade consciente, que pode apoiar transformações, porque
multiplica a “Corrente do Bem”, do filme mediano de bela mensagem.
A
mão que apóia a idosa que entra no ônibus; o lugar cedido à grávida cansada; a
paciência do balconista com o humilde que traz seu amarfanhado problema; o
médico e o juiz que descem dos cristais do Olimpo até o básico respeito humano
do cumprimento de horários; o motorista que cede a vez sem queixumes; o abraço calado
no apoio ao enlutado. Atos de solidariedade que deviam se multiplicar mais do
que a brincadeira com a Luíza. Multiplicarem-se a ponto da gentileza trazer
gestos individuais e, estes, ato coletivo, associação, passeata, partido,
realização de governo, enfim!
A
internet ainda me deve essa possibilidade. Incorporar-se ao nosso cotidiano de
maneira positiva, para modificar a realidade. Desde Seattle, quando a OMC teve
que engolir manifestação organizada na rede, a internet se promete essa
capacidade, jamais efetivada. Não se viraliza a necessidade da D. Luisa, como
viralizou-se a bobeira da moça Luíza, como grassa pedofilia incontrolada, como
se multiplicam furtos intelectuais. Precária, sempre, a mobilização via rede.
Como no deu-em-nada “Ocupem Wall Street”. Pessoas chegam (em número sempre
abaixo do prometido), não se conhecem, mal se organizam, e fazem
evento-espetáculo, como convém aos tempos. Nada que efetive mudanças. Apenas
aliviam consciências.
Não
seria difícil que os balcões se interligassem on-line para impedir que as Donas
Luisas tivessem que perambular pelas cidades, sem solução para suas tristes encrencas.
Abandonar-se os famigerados e burocráticos ofícios em favor da comunicação pela
internet. Ao menos isso. Ato de bom governo e gesto de solidariedade. Dever de
governo, em verdade, eis que a Constituição determina a fraternidade e a solidariedade
como alicerces da República. Maior harmonia das instituições impediria o
indigno pingueponguear de gente sofrida cidade afora. Mas não enxergamos D.
Luisa. Luz nos falta.
Luz
nos falta, porque solidariedade nos falta. Tema de artefato de ler do meu
“Alegria de Boa Lavra” com que encerro o presente. Dedico-o a D. Luisa, que com
seus sapatos furados, nunca irá ao Canadá. Sequer a Paquetá.
RADICAL - Com sol, a palavra solidariedade
inaugura-se./ Também assim é que o pertinente sentimento/ se avia e em fulgor
se anuncia./ Por isso, inevitavelmente,/ a solidariedade faz dia.

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