sábado, 21 de janeiro de 2012

CÃES URINANDO NO IMPERADOR


                                                                                                     
                                                            Denilson Cardoso de Araújo

           
            Caminhava na agradável noite do verão serrano, lavado pelas chuvas da tarde, e percebi a matilha que circundava o morador de rua. Bebiam na fonte da praça. Desagradável o quadro. Cães de rua são danosos à paz pública, podem ser perigosos a crianças e incômodos a adultos, e moradores de rua nos lembram omissões no acolhimento aos carentes. De tais pensamentos percebi um desgarrado da matilha que adentrou o passadiço que conduzia à estátua da Praça Dom Pedro.
            Parêntese rápido. A coluna Les Partisans, arejando notícias em bom humor, é a merecida campeã de audiência desta Tribuna. Lá, vi com tristeza o centenário monumento figurar na divertida coluna para nada divertida denúncia. Pichação de que eu já reclamara, lá prossegue, como se acatada pela cidade, aprovada por autoridades, incorporada ao monumento.
            Pois, desconsiderando as meditações do monarca, em posição adequada, o cachorro urinou à farta, roubando ao mais ilustre Orleans e Bragança a demarcação de limites de seu império de rua. Reflito. Há significados na cena.
            Devo dizer que passeava com minha esposa, logo após assistirmos à recente obra do, mesmo quando mediano, sempre certeiro Woody Allen. “Meia-Noite em Paris” conta insatisfações do roteirista hollywoodiano de literatas aspirações. Está em Paris, onde sonha com a Era Dourada. Para ele, tal compartimento da história se localiza na Geração Perdida do entre-guerras. Ali, Hemingway buscava pretextos para boxe e paixões, Picasso tinturava romances, Dali encontrava Buñuel e todos amavam, ao som de Cole Porter.
            Do jeito simples com que concede magia a seus filmes, à batida da meia-noite, pôs Allen seu alter ego a bordo do carro de época em rumo das festas. Um portal para a viagem à Paris do tempo amado. Lá o sujeito se apaixona por diva disputada por todos os gênios. Descobre, surpreso, que ela sonhava recuar a outra Era Dourada, a Belle Epoque francesa. Magia simples do roteiro os remete então ao calendário-desejo, tão somente para que o herói, pasmado, descubra Degas e Gauguin protestando contra a mediocridade dos tempos, sonhando com Era Dourada diversa... a Renascença! Moral da história: ninguém está satisfeito com seu tempo. Necessário é transformar o próprio hoje com o ouro dos nossos sonhos e o empenho dos nossos afetos.
            Fez-se impossível, na seguinte caminhada sob luzes da Cidade Imperial, não efetuarmos o exercício óbvio. A qual época retornaríamos, na Petrópolis que nossos pés palmilhavam? Questão de penosa resposta. Haverá douradas eras de todos nós, não datadas nem coincidentes. Infâncias fornecerão o caldo de sonho que as tornará inesquecíveis. Mas isso não define a revisitação imperativa.
            Lembro uma Praça da Liberdade dourada, patins no rink, futebol de salão pelo rádio, Preguinho artilheiro, peladas no Dona Isabel, automobilismo de rua, inesquecíveis desfiles da Banda Wolney Aguiar, paixão infantil por doce menina hoje arquiteta, a Biblioteca velha, o Mini Cinema do primeiro beijo, o Pagador de Promessas somente meu na primeira sessão do Cinema Petrópolis, prometido beijo da musa que hoje advoga, cultos cheios de música na Primeira Igreja Batista, passeios pela arte, com Hellô de macacão, ao som de Cat Stevens, o xadrez nas bancos do Museu Imperial, o ice-cream-soda do Toni’s... coisas douradas, enfim.
            Mas dourada época mesmo, com personagens... em Petrópolis?... não sei. Saraus de poetas e trovadores nos anos 1950 e 1960? O tempo dos cassinos, em que meu pai começava a vida servindo hollywoodianos nas mesas do Quitandinha? Visitas de Getúlio? Yedo Fiúza candidato comunista a Presidente? Érico Veríssimo na Rua D. Pedro? Jorge Amado terminando livro em apartamento do Quitandinha? Oswaldo Cruz andando a pé do Alto da Serra até a Câmara para ser o primeiro prefeito?
            Nada disso. Concluímos que inesquecível mesmo, dourado mesmo, teria sido cruzar com o Imperador passeando humildade pelas ruas beira-rio de Koeller, contemplando ternuras da cidade de estimação. Haveria corte pedante, bajuladores de galões, escravistas dificultando aspirações libertárias do soberano, monarquistas de conveniência cerceando seu republicanismo, enfim. Mas haveria o alto D. Pedro e suas barbas altivas, carregando as dores de precoce órfão de mãe, menino deixado pelo pai à Pátria em berço, romântico desiludido pelo casamento de tronos, lírico atormentado na paixão da Condessa... Haveria D. Pedro e seu papel fiador de uma nação. D. Pedro na ânsia de poesia, sonhos de ciência e tecnologia, a paixão de mecenas. D. Pedro, que mal saberia que em madrugada sombria teria que descer às pressas da amada cidade, para o banimento. D. Pedro, tão esquecido em memória e feitos, porque a República demandou construir-se vilipendiando o Monarca.
            Monarquista não sou, deixo claro. Mas temos poucos homens de efetivo valor em nossa história. Pedro II é o maior deles. O SBT anuncia eleição para escolher o maior brasileiro de todos os tempos. Quem sabe é a chance de resgatar-se o grande imperador? Petrópolis poderia exercer importante papel na restituição deste vulto imponente à sua importância, essencial em grandeza humilde. Mas resgate algum haverá, se a cidade que ele construiu continuar a permitir que, sem cerceio ou correção, cães urinem na sua estátua, já impunemente pichada. 

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