Denilson Cardoso de Araújo
Caminhava
na agradável noite do verão serrano, lavado pelas chuvas da tarde, e percebi a
matilha que circundava o morador de rua. Bebiam na fonte da praça. Desagradável
o quadro. Cães de rua são danosos à paz pública, podem ser perigosos a crianças
e incômodos a adultos, e moradores de rua nos lembram omissões no acolhimento
aos carentes. De tais pensamentos percebi um desgarrado da matilha que adentrou
o passadiço que conduzia à estátua da Praça Dom Pedro.
Parêntese
rápido. A coluna Les Partisans, arejando notícias em bom humor, é a merecida
campeã de audiência desta Tribuna. Lá, vi com tristeza o centenário monumento
figurar na divertida coluna para nada divertida denúncia. Pichação de que eu já
reclamara, lá prossegue, como se acatada pela cidade, aprovada por autoridades,
incorporada ao monumento.
Pois,
desconsiderando as meditações do monarca, em posição adequada, o cachorro
urinou à farta, roubando ao mais ilustre Orleans e Bragança a demarcação de
limites de seu império de rua. Reflito. Há significados na cena.
Devo
dizer que passeava com minha esposa, logo após assistirmos à recente obra do,
mesmo quando mediano, sempre certeiro Woody Allen. “Meia-Noite em Paris” conta
insatisfações do roteirista hollywoodiano de literatas aspirações. Está em
Paris, onde sonha com a Era Dourada. Para ele, tal compartimento da história se
localiza na Geração Perdida do entre-guerras. Ali, Hemingway buscava pretextos
para boxe e paixões, Picasso tinturava romances, Dali encontrava Buñuel e todos
amavam, ao som de Cole Porter.
Do
jeito simples com que concede magia a seus filmes, à batida da meia-noite, pôs
Allen seu alter ego a bordo do carro de época em rumo das festas. Um portal
para a viagem à Paris do tempo amado. Lá o sujeito se apaixona por diva
disputada por todos os gênios. Descobre, surpreso, que ela sonhava recuar a
outra Era Dourada, a Belle Epoque francesa. Magia simples do roteiro os remete
então ao calendário-desejo, tão somente para que o herói, pasmado, descubra
Degas e Gauguin protestando contra a mediocridade dos tempos, sonhando com Era
Dourada diversa... a Renascença! Moral da história: ninguém está satisfeito com
seu tempo. Necessário é transformar o próprio hoje com o ouro dos nossos sonhos
e o empenho dos nossos afetos.
Fez-se
impossível, na seguinte caminhada sob luzes da Cidade Imperial, não efetuarmos
o exercício óbvio. A qual época retornaríamos, na Petrópolis que nossos pés
palmilhavam? Questão de penosa resposta. Haverá douradas eras de todos nós, não
datadas nem coincidentes. Infâncias fornecerão o caldo de sonho que as tornará
inesquecíveis. Mas isso não define a revisitação imperativa.
Lembro
uma Praça da Liberdade dourada, patins no rink, futebol de salão pelo rádio,
Preguinho artilheiro, peladas no Dona Isabel, automobilismo de rua,
inesquecíveis desfiles da Banda Wolney Aguiar, paixão infantil por doce menina
hoje arquiteta, a Biblioteca velha, o Mini Cinema do primeiro beijo, o Pagador
de Promessas somente meu na primeira sessão do Cinema Petrópolis, prometido
beijo da musa que hoje advoga, cultos cheios de música na Primeira Igreja
Batista, passeios pela arte, com Hellô de macacão, ao som de Cat Stevens, o
xadrez nas bancos do Museu Imperial, o ice-cream-soda do Toni’s... coisas
douradas, enfim.
Mas
dourada época mesmo, com personagens... em Petrópolis?... não sei. Saraus de
poetas e trovadores nos anos 1950 e 1960? O tempo dos cassinos, em que meu pai
começava a vida servindo hollywoodianos nas mesas do Quitandinha? Visitas de
Getúlio? Yedo Fiúza candidato comunista a Presidente? Érico Veríssimo na Rua D.
Pedro? Jorge Amado terminando livro em apartamento do Quitandinha? Oswaldo Cruz
andando a pé do Alto da Serra até a Câmara para ser o primeiro prefeito?
Nada
disso. Concluímos que inesquecível mesmo, dourado mesmo, teria sido cruzar com
o Imperador passeando humildade pelas ruas beira-rio de Koeller, contemplando
ternuras da cidade de estimação. Haveria corte pedante, bajuladores de galões,
escravistas dificultando aspirações libertárias do soberano, monarquistas de
conveniência cerceando seu republicanismo, enfim. Mas haveria o alto D. Pedro e
suas barbas altivas, carregando as dores de precoce órfão de mãe, menino
deixado pelo pai à Pátria em berço, romântico desiludido pelo casamento de
tronos, lírico atormentado na paixão da Condessa... Haveria D. Pedro e seu
papel fiador de uma nação. D. Pedro na ânsia de poesia, sonhos de ciência e
tecnologia, a paixão de mecenas. D. Pedro, que mal saberia que em madrugada sombria
teria que descer às pressas da amada cidade, para o banimento. D. Pedro, tão
esquecido em memória e feitos, porque a República demandou construir-se
vilipendiando o Monarca.
Monarquista
não sou, deixo claro. Mas temos poucos homens de efetivo valor em nossa
história. Pedro II é o maior deles. O SBT anuncia eleição para escolher o maior
brasileiro de todos os tempos. Quem sabe é a chance de resgatar-se o grande
imperador? Petrópolis poderia exercer importante papel na restituição deste
vulto imponente à sua importância, essencial em grandeza humilde. Mas resgate
algum haverá, se a cidade que ele construiu continuar a permitir que, sem
cerceio ou correção, cães urinem na sua estátua, já impunemente pichada.

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