quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

POBRE BRASIL RICO


POBRE BRASIL RICO
Denilson Cardoso de Araújo

            Nas “viajandanças” natalinas para abraçar tantos lares, me vi dentro de crepúsculo esplêndido, na BR-040. A estrada era minha, sem vivalma ou motor. A tempestade da tarde de 24 deixara os verdes todos chamejantes. Nuvens em redemoinhos de plumas avermelhavam-se qual cobertores de manjedoura. Música boa enchia o carro. O mundo, embrulhado nessa diáfana coisa-Natal. Uma unção.
            Mas enquanto respirava esse ar de renovo fui olhando à janela slides que o caminho trazia à “olhografia”, este clique da alma. E se vi crianças irradiando boas vésperas, acesas de expectativas; se vi aquela mãezinha bela, de vestido amarelo, carregando um são joãozinho robusto numa das mãos e na outra todos os balões de gás do universo; se vi belos mulatos em fardas de domingo caminhando ao lado de rios inchados que estouravam cantos nas pedras; testemunhei também cenas que me fizeram despencar na realidade de um abduzido Natal.
            As balconistas, tão meninas, que deixavam o shopping após o expediente nas lojas da moda, já altas de baixezas de álcool, usavam microvestidos pretos tão justos, batons tão berrantes, que nítido revelou-se: não iam a qualquer manjedoura ou família. Dei também com a senhora que beirava a estrada com o carrinho de mão e um lenço encardido na cabeça encaracolada de brancos. No carrinho iam: a guirlanda amassada, uns papéis dourados, e uns braços plásticos de árvore, no que pareceu ser portátil Natal da miséria, que, não sei onde, seria montado atrasado. Ia solitária. Seus pés pareciam ruir tristezas de um blues. Vi o bêbado enroscado na sombra da banca de jornal, com ruidosas cobertas de pelo de capivara, a quentinha retorcida escorrendo farofa do lado arreganhado, e a garrafa, abraçada como o urso que aquela criança escondida no pária jamais teve. Vi um carro importado, encostando o pisca-alerta na beira da estrada, o casal de tontos adolescentes descendo em risos, a loura garota ébria vomitando excessos precoces. Vi passarem crianças sem lares, vi lares de crianças sem pai, vi pais sem crianças, lares rasgados de divórcios muitos ou casamentos em excesso, essas coisas que fazem inevitável incômodo que leva à inoportuna e pegajosa tristeza. E vi árvores de Natal encardidas, luzinhas da Prefeitura subindo pelas árvores, queimadas, como trepadeiras cegas...
            De dentro do crepúsculo, concluí: pobre Natal. Cristo menor do que antes, nos lares, talvez comendo PF, o anão, agachado na cozinha. A manjedoura esquecida na penha, com as glórias nas alturas debruçadas no chão, com a fraternidade escorrendo suas palhas moídas. Um Papai Noel momesco, faustoso, encarapitando-se no alto do golpe publicitário vencedor, com que a Coca-Cola revestiu de aura falsa e bochechas vermelhas o materialismo dominante.
            Pobre Natal... Caí daquele crepúsculo de sonho no meio do carrinho de mão da velhinha sem teto ou presentes. Pobre Natal... porque o Brasil fez questão de gritar aos ventos que ultrapassou a Grã-Bretanha (que façanha!) no ranking dos países “mais ricos” do mundo. Em sexto lugar, nosso PIB! Mas e daí? Este Natal, é certo, deveria nos lembrar, não da riqueza que em verdade não temos - posto que angariada às mãos cheias por meia dúzia – mas sim do fato de que o Brasil ainda frequenta vexatórios lugares no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), porque temos velhinhas e bêbados que não comemoram o Natal, sofrem o Natal.
            Pobre Natal, porque o ouro, o incenso e a mirra foram embolsados pela meia dúzia que se locupleta em torno do mercado financeiro internacional e da xepa de feira que é a política brasileira. Por isso, o IDH, principalmente em sua versão corrigida - o IDHAD (IDH Ajustado à Desigualdade), criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – que olha com lupa, caiu tanto. Levou-nos a, mui distantes do trono da rainha, no 84º lugar, disputar migalhas com o Suriname, o Congo e a República Dominicana.
            Por isso, vamos aos 2012 deste Pobre Brasil Rico resgatando pensamentos que o Natal mentiroso e consumista, sem Cristo, não permitiu. Que o recebamos com um mínimo de reflexões sobre duras travessias que fizemos no 2011 que se vai, de tanta guerra cansado. Aquela madrugada terrível de 12 de janeiro, que nos cravou faca no peito, ainda lateja. Não há gotejamento das nuvens que surja, sem que logo venham suspiros das pedras que assombraram as serras. Todos os verões serão difíceis desse momento pra frente.
            Eu, da minha parte, sem esquecer as lágrimas de 12/01, levarei 2012 adentro aquela unção do crepúsculo da tarde de 24/12, para me iluminar melhores caminhos, porque crepúsculos não se podem desperdiçar. E em honra da velhinha do carro de mão, do bêbado na banca de jornal, e das crianças do Vale do Cuiabá, dos desassistidos de uma Teresópolis no caos, de uma Friburgo devastada, cantarei como fiz, em louvor daquele crepúsculo, naquele dia, “Noite Feliz”... Esta canção, que hoje exige coragem para ser pronunciada, como nos dizem as bombas nas igrejas cristãs atacadas por muçulmanos radicais na Nigéria. Que coragem não falte e que o crepúsculo nos acompanhe no cântico em que avançaremos para chamar Jesus, da cozinha à sua real estatura, na cabeceira de nós. Cantemos juntos. Não há “Que tudo se realize no ano que vai nascer” se antes não houver “Noite Feliz”. Cantemos juntos. É tempo.
           
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

VÉSPERAS SAGRADAS


VÉSPERAS SAGRADAS
Denilson Cardoso de Araújo


            A grávida santa, já acostumada, sentava com a cesta de pano e agulhas debaixo da amarela figueira da tarde. E bordava.
            Com as mãos acariciando o filho que dormindo aguardava na barriga de barca. Então chegava o pássaro esplêndido, de penas de ouro e topete espetado, em fagulhas vestido, e, gentilmente, pousava na barriga seu encanto acatado. Lá dentro, entre ruídos do ventre e fluidos da vida, se mexia o Menino, e encostava por dentro a mãozinha, na ruga macia onde apontara o canoro bico em cuidados. O sabiá, então, principiava a sinfonia que era seu prazer e mandato. A mãe, sorridente no lábio de carne romã, assobiava o ponto de cruz e os compassos do afago.
            E os sapos ventríloquos, os grilos de aço, a relva ventada, a cigarra contralto, o deslizar dos riachos, acompanhavam, com suas trompas e seus Stradivarius. Era Maria, ninando Jesus na barriga enquanto punha no verão do tecido um sol de purpúreos retalhos. Era a orquestral natureza, acalanto inteira, focada.
            Deixando a carpintaria, José, admirável padroeiro dos pais emprestados, admirava o torneado prumo da cena, com uma lente de olho alagado. Do alto, sagrando, Deus pedia quietudes aos anjos e com Sua ternura nos olhos das nuvens, por inteiro, o céu marejava. Um orvalho, delgado e provido, manifestava seus renovos de prata, e era, então, exercida a aquarela em saltério crepúsculo. Em dó maiúsculo. (Como Davi determinou a todas as flautas. Como Isaías escreveu em todas as pautas).
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PRESÉPIO

            Ele entrou, se arrastando, encurvado, pelo corredor central do susto da igreja modesta.
            Trazia a barba empapada de um branco empanado e encimava a face obscura com o olho perolado de mágoa esperança. O enrustido sino vinha na mão grossa calada em badalos. Tinha a velha bota peneira e rangente, e a manta tramada em dezembros furados, encardida de milhões de distantes vermelhos... Sua sacola o seguia, repleta de falidos agrados. Cheirava a sidra barata e saudades antigas. Tinha na mão uma boneca sem braço, um urso maneta, com olho azul de botão despencado. Trazia cinco carrinhos descalços, trincados de hérnias do tempo. Chapinhava seus pés beduínos no rubro carpete de friso dourado, debaixo do olho assombrado de sorrisos guirlandas da igreja apinhada.
            Era a hora do Auto das crianças. A graciosa Maria de enroscadas chiquinhas acabara de pousar na manjedoura o Menino. Soava o despencar do isopor da asa laminada. Era o sardento arcanjo cujo asseio assoava o salão do nariz para a festa. José mascava o algodão descolado da barba, empurrando com o torto bambu do cajado o rei mago que toda a mirra de lego enfezado entornara...
Foi quando Papai Noel, cansado de Islândia, Coca-Cola e sinetas de shopping, Nicolau em pessoa, entrou com suas botas no estupefato palco com as auras de um estranho sagrado.
Ajoelhou-se ao lado do boneco mulato que fazia as vezes do Deus pequenino, como fosse um rei mago que emergia atrasado. Tirou do saco, contrito, seus brinquedos ralos, e buscou no peito seus sentimentos mais vastos. Colheu do olho a pérola do seu coração escorrido. Foi colocando, peça a peça, com jeito e apuro, tudo sob os pés do Menino... e ficou ali, como a carne viva da oração mais sincera, entre anjos nanicos, entre pastores de lençol com barbante e crepom, com bezerros de guache e cartolina, ficou ali, debaixo da estrela dourada de papel laminado, inundando a igreja na glória da estranha humildade, na luz que atravessava sua alma fina, um celofane de ventos embrulhando a fé do seu coração prateado.
Ficou ali, e Jesus, num sorriso, do presépio, com duas asas o ungiu. Da janela ele voou pela noite, acariciando a Lua, branquejando as nuvens, enquanto o povo se apinhava nas sacadas e as crianças pulavam pelas ruas, vestidas de pastores, de anjos, de santos, até que no horizonte, indiferente à algazarra, ele sumiu.

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            Com estes poemas do meu “Alegria de Boa Lavra – Artefatos de Ler”, deixo a todos, os votos de um Felicíssimo Natal de concórdia, fé, alegria e esperança.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

EM TEMPO - OPERAÇÃO DEDO DE DEUS


Em tempo - Não estou dizendo? Com a coluna pronta (post anterior), explode a Operação Dedo de Deus. Mario Tricano preso. O que ajuda/complica/enlouquece todo o processo. Ô interminável 2011 este!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

TERESÓPOLIS: BOLIVIANA ELEIÇÃO


BOLIVIANA ELEIÇÃO

Denilson Cardoso de Araújo
            Quando todos esperavam se mantivesse esse governo banho-maria, sem grandes expectativas, que parecia atender (ou desatender) igualmente a todos, desce a bomba. Extemporânea, indesejada, quase inesperada, em fevereiro, uma eleição se abaterá sobre Teresópolis. Um ano após a tragédia de 12 de janeiro de 2010, proporciona várias leituras.
            Terá desejado o TRE, na interpretação estrita da lei, dar uma de Nero e jogar gasolina na cidade em chamas, que já se abrasava até à quase véspera de pacíficas cinzas? A confusão instaurada, reuniões de última hora, recursos e ameaças de recursos e ruídos de recursos, pranto e ranger de dentes, fizeram reforçar minha impressão, que titulou coluna anterior, de que é mesmo “interminável” este 2011 de tragédia muita e surpresas tantas.
            Mas a eleição que virá (talvez, quem sabe), pode ser efeméride comemorativa de 01 ano do Dia do Desnudamento, a desgraça-mor, quando pedras ficaram desnudas e nossas pobres políticas, despidas; afora o rei que se mostrou implacavelmente nu. O fato é que, ali, vimos nossa pobreza de passado, de opções, de voto e expectativas. Ficamos todos um pouco nus. Essas horas da verdade, embora em silêncio, como ato de contrição, comemoração merecem. Não avisava o Oráculo de Éfeso: “Conhece-te a ti mesmo”, como primeiro passo do discernimento profundo?
            Pode ser também uma eleição “in memorian”. Sim, porque afora a Missa celebrada no Pedrão, os mortos de 12 de janeiro jamais viram suas famílias convenientemente confortadas. Ao contrário, homeopática e dolorosamente foram desonradas pela desassistência administrativa cruel que se externou no dia a dia da pós-tragédia. No âmbito do Conselho de Abrigos, propusemos Culto ecumênico, para conforto dos vivos, mas logo vimos que a desavença extra Conselho era tamanha que não rolaria. Portanto, a cada um que for exercitar seu direito de voto, protesto ou abstenção, estará dada oportunidade de, ao se defrontar com a urna - ou com a falta de urna - de 05 de fevereiro, efetuar solitário ato “in memorian” de seus queridos. Convém o suspiro, vai bem a prece, quiçá o grito de protesto, ainda que em tom menor, para não turbar a paz da zona eleitoral. Nada impede se depositem flores ao lado da urna eletrônica. Ainda que se acumulem, que transbordem em pétalas, seria honesto tributo aos que se foram na enxurrada da desídia. Velas, não recomendo. Periga incêndios, e não convém perturbar o ato cívico.
            Alguém pode ver essas eleições ainda como espécie de “dever de casa”. Oportunidade a péssimo aluno antes de prova final. Terá pensado o TRE: Teresópolis anda votando tão mal, precisa reforço, trabalho extra-classe, extra-outubros. Que melhor exercite o voto, mais treine, assim quando vier a hora da verdade, quem sabe a serra melhora a pontaria da escolha? Quem sabe melhora o índice na correlação – sobre a mesma pessoa - entusiasmo de candidato versus hombridade do governante? Quem sabe aprendemos a festejar menos os resultados eleitorais e a cobrar mais a gestão do dia a dia. Quem sabe melhoramos a caligrafia dessa história? Quem sabe o eleito perceba que não adquiriu castelo cor de rosa no centro de um feudo de fantasia e prazeres?
            Aliás, ‘en passant’, desde já apoio quem prometer repintar o palácio cor de rosa em matiz que não iluda tanto ao governante, nem lhe dê à imaginação tão coloridas asas a ponto de esvair-se o senso crítico e o pé no chão.
            Mas essa pode ser também a eleição do desafogo. Sim, porque afora as passeatas do “Xô Jorge Mário” - que reuniram, sim, robusta platéia, mas povo pouco, assim entendidos os moradores de encostas e comunidades precárias -  os desfavorecidos desta cidade, os sofridos desabrigados, os clientes do Bolsa-Família e do aluguel social, os abandonados de sorte e governos, esses não puderam ainda externar sua dor, corporificar sua mágoa, transformar a lágrima em ato. Assim, poderá o TRE ter buscado momento catártico, limpeza de trilhos, antecipando para fevereiro a raiva, o descaso, o descarrego da dor, permitindo em outubro melhor reflexão e menos paixão. Quem sabe, assim se verá na eleição regular urnas mais comprometidas com o futuro que buscamos?
            A decisão do TRE pode também viabilizar uma grande pré-campanha de vereadores. A lógica é perversa para candidatos de outubro, que viverão o Natal do dilema da antecipação de campanhas. Há risco de amargarem derrota que maculará caminhada posterior. E com vitória em fevereiro, poderão reeleger-se em outubro, mas perder a possibilidade de 08 anos no comando da aldeia. Daí o dilema: 08 anos ou 05 anos? Mas, ao mesmo tempo, desde quando, em urna ou galinheiro, se pode garantir matinal ovo no ninho? Por isso, acho que gente graúda pode evitar arriscar-se, o que permitirá experimentos visando desde ensaios de ressurreições a campanhas de vereança mais confortáveis em outubro. Isso implicaria em renúncia do eleito em maio, para que assuma o novo vice. O que daria à cidade o recorde: 05 prefeitos em 04 anos! Isso se Arlei não quiser se arriscar já nesta, o que implicará em sua urgente renúncia para concorrer em fevereiro (afinal, se a lei deve ser estritamente lida, estritas devem ser as regras). Daí, cravaremos a façanha de 06 prefeitos! Guiness certo! Montanhas, já temos. Para Bolívia (que chegou a ter presidentes trocados mensalmente) só nos faltarão as lhamas!
            Será um Natal de dilemas. Cuidado com Papais-Noéis repentinos. Barbas postiças se multiplicarão, escondendo interesses vários. Ponhamos as nossas de molho. Não esqueçamos que logo depois dessas eleições, vem o Carnaval! Aff! Nem Garcia Márquez bolaria enredo assim.
denilsoncdearaujo.blogspot.com
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

RECOMENDO: SOUL SURFER

Vi e Recomendo
História real imperdível. Fé e coragem,
Abaixo a foto de Bethany Hamilton, a surfista cuja vida inspirou o filme.
Seu lema? O mesmo que uso neste blog e tento usar na vida:
Posso todas as coisas naquEle que me fortalece - Efésios 4:13

RECOMENDO: LIXO EXTRAORDINÁRIO

Vi e Recomendo
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BRASÍLIA DESTRUINDO FAMÍLIAS


BRASÍLIA DESTRUINDO FAMÍLIAS

Denilson Cardoso de Araújo

            Das temporadas em que a frequentei em missão sindical ou de trabalho, conclui: -artefato arquitetônico frio e distante, Brasília é a “Ilha da Fantasia”. Dá bizantinos debates, argumentos grandiloquentes, pletora de teorias absurdas, visionarismos de botequim. Tudo descolado do piso das fábricas, desconhecedor do chão de esgotos das favelas, ignorante das gretas de terra nordestinas ou desdenhoso da lama de encostas serranas. Sapatos de verniz federal impedem aos pés deputados a pele encourada dos que pisam o real chão do povo descalço.
            Vi decisões de Brasília parindo desastres políticos e criminosos abandonos sociais que condenam mães à lágrima. Baixa umidade atmosférica mais baixa humildade humana, parecem favorecer fluidos esotéricos que proliferam no Planalto, aumentando ilusões de ótica da paisagem sem horizonte. Pessoas ficam desorientadas. Dali o Brasil tem sido pródigo no dinamitar ferramentas indispensáveis à proteção de crianças e adolescentes.
            Após o Congresso começar debates sobre a lamentável Lei da Palmada (v. “Palmada ou Cassetete”, na internet), vem desastrosa ADIN impetrada pelo serviçal PTB. No STF foram proclamados 04 votos contra o artigo 254 do ECA, que tenta eficácia a duas previsões constitucionais. A necessidade de classificação indicativa (Art. 21, XVI) e a proteção integral à criança e ao adolescente (Art. 227). Prevê sanções às empresas difusoras que exibirem programas fora dos horários recomendados, ou sem o alerta da faixa etária apropriada. Argumentos do relator Toffoli: a seleção de programas que podem ser assistidos pelas proles cabe aos pais; e se é indicativa a classificação, é sugestão, não pode ser punido seu descumprimento. Ora, se é assim, vamos permitir livre acesso a sexy shops, zoofilia exposta nas calçadas, tudo a critério dos pais! E que pais? Toffoli parece desconhecer que hoje proliferam pais de 16 anos e mães de 12! E os de 20 a 30, educados já sem âncoras e freios, entregam as crias aos avós! Isso quando não temos avós de 30 anos!
            O Ministro Joaquim Barbosa pediu vistas para melhor avaliar o caso. Torçamos para que divirja e que o julgamento seja revertido! Não sendo assim, o lobby das rádios e TV’s sairá vencedor, com as pródigas campanhas para combater o que entendem ser “censura”. Com marqueteiros em geral, invocam “liberdade de expressão” como direito invencível. Ora, não existem direitos absolutos, já se proclamou tantas vezes! E a “liberdade de expressão” – numa era de marketing publicitário criminoso, lixo ávido, alimentador de falsas necessidades; em dias de programação audiovisual tóxica, a fomentar superficialidade, sexismo e consumo – não pode continuar a ser observada, ingenuamente, como fosse a sagrada liberdade pela qual se constituíram democracias e direitos, na garantia de voz aos jornais que expressavam minorias, financiados por cotizações de idealistas e trabalhadores. Os tempos são outros e, na concentrada imprensa da notícia-espetáculo e da manchete paga, os idealistas foram expulsos ou comprados pelo mercado.
            É ridículo e perigoso o contrassenso. Se a família tem autoridade e discernimento efetivo a ponto de poder decidir sem apoio quanto à programação audiovisual dos filhos, terá necessariamente que ter o poder de, inclusive, exercitar a palmada educativa contra a qual Brasília se movimenta no Congresso Nacional. Os fundamentos da decisão do STF (negação da classificação indicativa porque os pais têm discernimento) são contraditórios com os da decisão perseguida pelo Congresso (negação da palmada porque os pais não têm discernimento).
            De tão contraditórias, ouso rogar todas as vênias para dizer que ambas as decisões (caso se concretizem como apontado) estão erradas! Precisamos da palmada e precisamos da classificação indicativa! Os jovens são adestrados pela mídia para a violência, como se vê das brigas, agressões, bulying e assassinatos em escolas. Essa mídia baseada em inconfessos interesses de mercado, precisa ser controlada. A classificação indicativa é o mais necessário e brando dos controles possíveis.
            Erro grave, típico da “Ilha da Fantasia” e do campo esotérico das teorias do Direito, desconhecer que, em seara infanto-juvenil, como na ecologia, decisões se regem pelo princípio da precaução. Estabelecido pela Declaração da ECO/92 (princípio 15), tal princípio prevê - grosso modo e em linguagem popular - que, se algo pode dar errado, não deve ser feito.
            Acho que muita coisa já está dando errado na relação audiovisual x formação da psique infanto-juvenil. Vejam meu artigo “O Cavaleiro das Trevas Explode a Classificação Indicativa”, onde relato a perplexidade de ver pais (a quem o Ministro Toffoli concede discernimento inexistente), levando filhos de 03, 05 anos de idade a filme com classificação etária que deveria ser de 14 anos. Isso quando há pais na casa! Isso quando a criança não possui 04 ou 05 “pais” diferentes e, não raro, divergentes! O Congresso, o STF e a sociedade brasileira não podem desconhecer essa realidade. Aceitando essas decisões da Ilha da Fantasia, estamos desenhando belo manual de como destruir famílias já frágeis. Reajam, pais, famílias, igrejas, jovens, juízes, pessoas de bem!
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sábado, 3 de dezembro de 2011

PALMADA OU CASSETETE

PALMADA OU CASSETETE

Denilson Cardoso de Araújo


            Vai à pauta do Congresso a Lei da Palmada. O Projeto de Lei nº 2654/03 pretende acréscimo em leis importantes. No ECA, a proibição “a qualquer forma de punição corporal” em “castigos moderados ou imoderados”. Aos pais infratores, sanções administrativas. O artigo 1.634 do Código Civil, que dita a sadia (e desconhecida!) obrigação dos pais de “dirigir a educação dos filhos”, deles podendo “exigir obediência, respeito e os serviços inerentes à sua condição”, seria modificado, para que o façam “sem uso de força física, moderada ou imoderada”.
            Assina o desastre a hoje Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário. A que deu ouvidos à aleivosia promovida no Governo Jorge Mário, anunciando a suposta “doação” de crianças órfãs na tragédia de janeiro. A Ministra despencou-se ruidosamente de Brasília para, com sua “fiscalização”, desfeitear a Dra Inês Joaquina, Juíza séria e operosa. Apenas constatou a mentira.
            O Projeto foi incubado na USP, sob plêiade onde reluz o nome de Flávia Piovesan, e justifica origem em petição pública com 200 mil assinaturas. Soma-se aos ilustres nomes da Ministra e da jurista, a Xuxa, garota propaganda da novidade. Diz-se que a idéia acompanharia leis da Suécia, Áustria, Dinamarca, Noruega, Letônia, Alemanha, Chipre, Islândia, Itália, Canadá, Reino Unido, México e Nova Zelândia.
            E daí? Quanto à questão legal, o projeto é desnecessário. A Constituição já proíbe submeter quem quer que seja à “tortura, tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante” (Art. 5º). O ECA impede “qualquer forma” de “violência, crueldade e opressão” contra a criança ou adolescente (art. 5º). Basta a coragem de cumprir o que já está escrito! Mas somos um povo que gosta de escrever leis.
            Quanto à Xuxa, lembro que ela surgiu na vaga neoliberal, que levou o ECA a ser irresponsavelmente “vendido” como carta só de direitos e não de cidadania. O mercado queria crianças pidonas, consumistas, sexualizadas. As teve. A apresentadora cumpriu papel de “paquitização” das meninas, véspera da sexualização precoce.  
            Flávia Piovesan, Xuxa e Maria do Rosário se unem justo na má hora em que se paga o preço daquela leviandade: falência familiar, descontrole disciplinar, crianças em abismos de drogadição, sexo precoce, falta de civilidade, violência, bulying e pânico no ambiente escolar.
            Pedagogos, psicólogos, advogados e famílias hoje defendem limites aos jovens. Mas os progressistas ingênuos e irresponsáveis combatem a palavra “não”, a proibição e os castigos. Ora, haja santa paciência! É como querer lavar roupa sem esfregar! Diálogo na educação não exclui a proibição. E proibição eficaz exige possibilidade de castigo. E castigo pode ser muitas coisas, inclusive palmada. Urge não seja exercício gratuito de ódio ou descarrego emocional, mas algo usado com senso de justiça e equilíbrio. Logo, que eduquemos os pais para o exercício da autoridade, e punamos os abusadores, mas não destruamos um instrumento pedagógico.
            A ampla expressão que proíbe “qualquer forma de punição corporal” “moderada ou imoderada” estimulará a já grave inércia disciplinar das famílias, propagando sinais errados em plena batalha. A autoridade familiar deve avançar, mas a Lei indicará recuo. Para extirpar trecho de bosque doente (abuso parental), derrubará toda a floresta (disciplina familiar).
            Se o moleque pula cerca de terreno, arrisca-se à mordida do cachorro. Cerca é limite, um “não” físico. A coerção estatal ao delinqüente é física. Policiais a exercem porque criminosos não se prendem com “por favores”. Não é dado espancar e torturar, mas há que deter, algemar e obrigar. “Violência legítima”, dizem os manuais de Direito.
            Aos pais é dado fazer o filho conhecer tanto o diálogo, direitos, deveres, como também, se necessário, a coerção. Não espancamentos, surras, socos na cara, chutes, ferro quente, correntes de bicicleta, canos de PVC, tábuas de carne, água fervida nas mãos, e todo o rol de torturas cruéis, odiosos castigos a que são submetidas crianças por pais alcoólatras e abusadores. Falo da palmada, que evitará cassetete e algemas. Educação familiar não há sem atitude física. Conter criança surtada que se debate em pirraça perigosa, exige energia e alerta sobre o erro, como palmada em mão de criança que do colo da mãe estapeia a cara da avó.
            A maioria de nós tomou ao menos uma palmada na vida. Aos pais coerentes que a exerceram com lucidez pedagógica, agradecemos. Proibi-la pode desestimular pais conseqüentes, sem impedir a tragédia dos pais odiosos cujos maus tratos dão em crânios afundados, braços destruídos, queimaduras graves. Para estes, cumpra-se a lei já existente.
            Citam-se outros países. Pois digo, saindo a Lei da Palmada, se agravará a situação de filhos malcriados que se tornam alunos indisciplinados que passam a violentos, e enlouquecem escolas. Da Áustria, que instituiu antes lei similar, vem o alerta. O psiquiatra alemão Michael Winterhoff visitou o exasperado Sindicato dos Professores de Viena. Concluiu, a um jornal austríaco que crianças não respeitam professores, não tem noção nas conseqüências de seus atos, por isso brigam pelos corredores, sendo necessário regras de educação mais severas, a partir do lar. Interessante, né?
            Da indisciplina e violência escolar para a o ato infracional é um pulo. Se abolida a necessária palmada parental, nos restará aguardar, então, a dura educação dos cassetetes policiais. Mais produtivo seria fazer uma Lei do Almoço Dominical, que ressuscitasse a finada cerimônia familiar tão educativa e saudável.