POBRE BRASIL RICO
Denilson Cardoso de Araújo
Nas
“viajandanças” natalinas para abraçar
tantos lares, me vi dentro de crepúsculo esplêndido, na BR-040. A estrada era
minha, sem vivalma ou motor. A tempestade da tarde de 24 deixara os verdes todos
chamejantes. Nuvens em redemoinhos de plumas avermelhavam-se qual cobertores de
manjedoura. Música boa enchia o carro. O mundo, embrulhado nessa diáfana coisa-Natal.
Uma unção.
Mas
enquanto respirava esse ar de renovo fui olhando à janela slides que o caminho
trazia à “olhografia”, este clique da alma. E se vi crianças irradiando boas
vésperas, acesas de expectativas; se vi aquela mãezinha bela, de vestido
amarelo, carregando um são joãozinho robusto numa das mãos e na outra todos os
balões de gás do universo; se vi belos mulatos em fardas de domingo caminhando
ao lado de rios inchados que estouravam cantos nas pedras; testemunhei também
cenas que me fizeram despencar na realidade de um abduzido Natal.
As
balconistas, tão meninas, que deixavam o shopping após o expediente nas lojas
da moda, já altas de baixezas de álcool, usavam microvestidos pretos tão
justos, batons tão berrantes, que nítido revelou-se: não iam a qualquer
manjedoura ou família. Dei também com a senhora que beirava a estrada com o
carrinho de mão e um lenço encardido na cabeça encaracolada de brancos. No
carrinho iam: a guirlanda amassada, uns papéis dourados, e uns braços plásticos
de árvore, no que pareceu ser portátil Natal da miséria, que, não sei onde,
seria montado atrasado. Ia solitária. Seus pés pareciam ruir tristezas de um
blues. Vi o bêbado enroscado na sombra da banca de jornal, com ruidosas cobertas
de pelo de capivara, a quentinha retorcida escorrendo farofa do lado
arreganhado, e a garrafa, abraçada como o urso que aquela criança escondida no
pária jamais teve. Vi um carro importado, encostando o pisca-alerta na beira da
estrada, o casal de tontos adolescentes descendo em risos, a loura garota ébria
vomitando excessos precoces. Vi passarem crianças sem lares, vi lares de
crianças sem pai, vi pais sem crianças, lares rasgados de divórcios muitos ou
casamentos em excesso, essas coisas que fazem inevitável incômodo que leva à
inoportuna e pegajosa tristeza. E vi árvores de Natal encardidas, luzinhas da
Prefeitura subindo pelas árvores, queimadas, como trepadeiras cegas...
De
dentro do crepúsculo, concluí: pobre Natal. Cristo menor do que antes, nos
lares, talvez comendo PF, o anão, agachado na cozinha. A manjedoura esquecida
na penha, com as glórias nas alturas debruçadas no chão, com a fraternidade
escorrendo suas palhas moídas. Um Papai Noel momesco, faustoso,
encarapitando-se no alto do golpe publicitário vencedor, com que a Coca-Cola
revestiu de aura falsa e bochechas vermelhas o materialismo dominante.
Pobre
Natal... Caí daquele crepúsculo de sonho no meio do carrinho de mão da velhinha
sem teto ou presentes. Pobre Natal... porque o Brasil fez questão de gritar aos
ventos que ultrapassou a Grã-Bretanha (que façanha!) no ranking dos países
“mais ricos” do mundo. Em sexto lugar, nosso PIB! Mas e daí? Este Natal, é
certo, deveria nos lembrar, não da riqueza que em verdade não temos - posto que
angariada às mãos cheias por meia dúzia – mas sim do fato de que o Brasil ainda
frequenta vexatórios lugares no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento
Humano), porque temos velhinhas e bêbados que não comemoram o Natal, sofrem o
Natal.
Pobre
Natal, porque o ouro, o incenso e a mirra foram embolsados pela meia dúzia que
se locupleta em torno do mercado financeiro internacional e da xepa de feira
que é a política brasileira. Por isso, o IDH, principalmente em sua versão
corrigida - o IDHAD (IDH Ajustado à Desigualdade), criado pelo Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento – que olha com lupa, caiu tanto. Levou-nos
a, mui distantes do trono da rainha, no 84º lugar, disputar migalhas com o
Suriname, o Congo e a República Dominicana.
Por
isso, vamos aos 2012 deste Pobre Brasil Rico resgatando pensamentos que o Natal
mentiroso e consumista, sem Cristo, não permitiu. Que o recebamos com um mínimo
de reflexões sobre duras travessias que fizemos no 2011 que se vai, de tanta
guerra cansado. Aquela madrugada terrível de 12 de janeiro, que nos cravou faca
no peito, ainda lateja. Não há gotejamento das nuvens que surja, sem que logo
venham suspiros das pedras que assombraram as serras. Todos os verões serão
difíceis desse momento pra frente.
Eu,
da minha parte, sem esquecer as lágrimas de 12/01, levarei 2012 adentro aquela
unção do crepúsculo da tarde de 24/12, para me iluminar melhores caminhos,
porque crepúsculos não se podem desperdiçar. E em honra da velhinha do carro de
mão, do bêbado na banca de jornal, e das crianças do Vale do Cuiabá, dos
desassistidos de uma Teresópolis no caos, de uma Friburgo devastada, cantarei
como fiz, em louvor daquele crepúsculo, naquele dia, “Noite Feliz”... Esta
canção, que hoje exige coragem para ser pronunciada, como nos dizem as bombas
nas igrejas cristãs atacadas por muçulmanos radicais na Nigéria. Que coragem
não falte e que o crepúsculo nos acompanhe no cântico em que avançaremos para
chamar Jesus, da cozinha à sua real estatura, na cabeceira de nós. Cantemos
juntos. Não há “Que tudo se realize no ano que vai nascer” se antes não houver
“Noite Feliz”. Cantemos juntos. É tempo.
*.*






