VÉSPERAS SAGRADAS
Denilson Cardoso de Araújo
A
grávida santa, já acostumada, sentava com a cesta de pano e agulhas debaixo da
amarela figueira da tarde. E bordava.
Com
as mãos acariciando o filho que dormindo aguardava na barriga de barca. Então
chegava o pássaro esplêndido, de penas de ouro e topete espetado, em fagulhas
vestido, e, gentilmente, pousava na barriga seu encanto acatado. Lá dentro,
entre ruídos do ventre e fluidos da vida, se mexia o Menino, e encostava por
dentro a mãozinha, na ruga macia onde apontara o canoro bico em cuidados. O
sabiá, então, principiava a sinfonia que era seu prazer e mandato. A mãe,
sorridente no lábio de carne romã, assobiava o ponto de cruz e os compassos do
afago.
E
os sapos ventríloquos, os grilos de aço, a relva ventada, a cigarra contralto,
o deslizar dos riachos, acompanhavam, com suas trompas e seus Stradivarius. Era
Maria, ninando Jesus na barriga enquanto punha no verão do tecido um sol de
purpúreos retalhos. Era a orquestral natureza, acalanto inteira, focada.
Deixando
a carpintaria, José, admirável padroeiro dos pais emprestados, admirava o
torneado prumo da cena, com uma lente de olho alagado. Do alto, sagrando, Deus
pedia quietudes aos anjos e com Sua ternura nos olhos das nuvens, por inteiro,
o céu marejava. Um orvalho, delgado e provido, manifestava seus renovos de
prata, e era, então, exercida a aquarela em saltério crepúsculo. Em dó
maiúsculo. (Como Davi determinou a todas as flautas. Como Isaías escreveu em
todas as pautas).
*.*
PRESÉPIO
Ele
entrou, se arrastando, encurvado, pelo corredor central do susto da igreja
modesta.
Trazia
a barba empapada de um branco empanado e encimava a face obscura com o olho
perolado de mágoa esperança. O enrustido sino vinha na mão grossa calada em
badalos. Tinha a velha bota peneira e rangente, e a manta tramada em dezembros
furados, encardida de milhões de distantes vermelhos... Sua sacola o seguia,
repleta de falidos agrados. Cheirava a sidra barata e saudades antigas. Tinha
na mão uma boneca sem braço, um urso maneta, com olho azul de botão despencado.
Trazia cinco carrinhos descalços, trincados de hérnias do tempo. Chapinhava
seus pés beduínos no rubro carpete de friso dourado, debaixo do olho assombrado
de sorrisos guirlandas da igreja apinhada.
Era
a hora do Auto das crianças. A graciosa Maria de enroscadas chiquinhas acabara
de pousar na manjedoura o Menino. Soava o despencar do isopor da asa laminada.
Era o sardento arcanjo cujo asseio assoava o salão do nariz para a festa. José
mascava o algodão descolado da barba, empurrando com o torto bambu do cajado o
rei mago que toda a mirra de lego enfezado entornara...
Foi quando Papai Noel, cansado de
Islândia, Coca-Cola e sinetas de shopping, Nicolau em pessoa, entrou com suas
botas no estupefato palco com as auras de um estranho sagrado.
Ajoelhou-se ao lado do boneco mulato
que fazia as vezes do Deus pequenino, como fosse um rei mago que emergia
atrasado. Tirou do saco, contrito, seus brinquedos ralos, e buscou no peito
seus sentimentos mais vastos. Colheu do olho a pérola do seu coração escorrido.
Foi colocando, peça a peça, com jeito e apuro, tudo sob os pés do Menino... e
ficou ali, como a carne viva da oração mais sincera, entre anjos nanicos, entre
pastores de lençol com barbante e crepom, com bezerros de guache e cartolina, ficou
ali, debaixo da estrela dourada de papel laminado, inundando a igreja na glória
da estranha humildade, na luz que atravessava sua alma fina, um celofane de
ventos embrulhando a fé do seu coração prateado.
Ficou ali, e Jesus, num sorriso, do
presépio, com duas asas o ungiu. Da janela ele voou pela noite, acariciando a
Lua, branquejando as nuvens, enquanto o povo se apinhava nas sacadas e as
crianças pulavam pelas ruas, vestidas de pastores, de anjos, de santos, até que
no horizonte, indiferente à algazarra, ele sumiu.
*.*
Com
estes poemas do meu “Alegria de Boa Lavra – Artefatos de Ler”, deixo a todos,
os votos de um Felicíssimo Natal de concórdia, fé, alegria e esperança.

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