terça-feira, 20 de dezembro de 2011

VÉSPERAS SAGRADAS


VÉSPERAS SAGRADAS
Denilson Cardoso de Araújo


            A grávida santa, já acostumada, sentava com a cesta de pano e agulhas debaixo da amarela figueira da tarde. E bordava.
            Com as mãos acariciando o filho que dormindo aguardava na barriga de barca. Então chegava o pássaro esplêndido, de penas de ouro e topete espetado, em fagulhas vestido, e, gentilmente, pousava na barriga seu encanto acatado. Lá dentro, entre ruídos do ventre e fluidos da vida, se mexia o Menino, e encostava por dentro a mãozinha, na ruga macia onde apontara o canoro bico em cuidados. O sabiá, então, principiava a sinfonia que era seu prazer e mandato. A mãe, sorridente no lábio de carne romã, assobiava o ponto de cruz e os compassos do afago.
            E os sapos ventríloquos, os grilos de aço, a relva ventada, a cigarra contralto, o deslizar dos riachos, acompanhavam, com suas trompas e seus Stradivarius. Era Maria, ninando Jesus na barriga enquanto punha no verão do tecido um sol de purpúreos retalhos. Era a orquestral natureza, acalanto inteira, focada.
            Deixando a carpintaria, José, admirável padroeiro dos pais emprestados, admirava o torneado prumo da cena, com uma lente de olho alagado. Do alto, sagrando, Deus pedia quietudes aos anjos e com Sua ternura nos olhos das nuvens, por inteiro, o céu marejava. Um orvalho, delgado e provido, manifestava seus renovos de prata, e era, então, exercida a aquarela em saltério crepúsculo. Em dó maiúsculo. (Como Davi determinou a todas as flautas. Como Isaías escreveu em todas as pautas).
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PRESÉPIO

            Ele entrou, se arrastando, encurvado, pelo corredor central do susto da igreja modesta.
            Trazia a barba empapada de um branco empanado e encimava a face obscura com o olho perolado de mágoa esperança. O enrustido sino vinha na mão grossa calada em badalos. Tinha a velha bota peneira e rangente, e a manta tramada em dezembros furados, encardida de milhões de distantes vermelhos... Sua sacola o seguia, repleta de falidos agrados. Cheirava a sidra barata e saudades antigas. Tinha na mão uma boneca sem braço, um urso maneta, com olho azul de botão despencado. Trazia cinco carrinhos descalços, trincados de hérnias do tempo. Chapinhava seus pés beduínos no rubro carpete de friso dourado, debaixo do olho assombrado de sorrisos guirlandas da igreja apinhada.
            Era a hora do Auto das crianças. A graciosa Maria de enroscadas chiquinhas acabara de pousar na manjedoura o Menino. Soava o despencar do isopor da asa laminada. Era o sardento arcanjo cujo asseio assoava o salão do nariz para a festa. José mascava o algodão descolado da barba, empurrando com o torto bambu do cajado o rei mago que toda a mirra de lego enfezado entornara...
Foi quando Papai Noel, cansado de Islândia, Coca-Cola e sinetas de shopping, Nicolau em pessoa, entrou com suas botas no estupefato palco com as auras de um estranho sagrado.
Ajoelhou-se ao lado do boneco mulato que fazia as vezes do Deus pequenino, como fosse um rei mago que emergia atrasado. Tirou do saco, contrito, seus brinquedos ralos, e buscou no peito seus sentimentos mais vastos. Colheu do olho a pérola do seu coração escorrido. Foi colocando, peça a peça, com jeito e apuro, tudo sob os pés do Menino... e ficou ali, como a carne viva da oração mais sincera, entre anjos nanicos, entre pastores de lençol com barbante e crepom, com bezerros de guache e cartolina, ficou ali, debaixo da estrela dourada de papel laminado, inundando a igreja na glória da estranha humildade, na luz que atravessava sua alma fina, um celofane de ventos embrulhando a fé do seu coração prateado.
Ficou ali, e Jesus, num sorriso, do presépio, com duas asas o ungiu. Da janela ele voou pela noite, acariciando a Lua, branquejando as nuvens, enquanto o povo se apinhava nas sacadas e as crianças pulavam pelas ruas, vestidas de pastores, de anjos, de santos, até que no horizonte, indiferente à algazarra, ele sumiu.

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            Com estes poemas do meu “Alegria de Boa Lavra – Artefatos de Ler”, deixo a todos, os votos de um Felicíssimo Natal de concórdia, fé, alegria e esperança.

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