quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

TERESÓPOLIS: BOLIVIANA ELEIÇÃO


BOLIVIANA ELEIÇÃO

Denilson Cardoso de Araújo
            Quando todos esperavam se mantivesse esse governo banho-maria, sem grandes expectativas, que parecia atender (ou desatender) igualmente a todos, desce a bomba. Extemporânea, indesejada, quase inesperada, em fevereiro, uma eleição se abaterá sobre Teresópolis. Um ano após a tragédia de 12 de janeiro de 2010, proporciona várias leituras.
            Terá desejado o TRE, na interpretação estrita da lei, dar uma de Nero e jogar gasolina na cidade em chamas, que já se abrasava até à quase véspera de pacíficas cinzas? A confusão instaurada, reuniões de última hora, recursos e ameaças de recursos e ruídos de recursos, pranto e ranger de dentes, fizeram reforçar minha impressão, que titulou coluna anterior, de que é mesmo “interminável” este 2011 de tragédia muita e surpresas tantas.
            Mas a eleição que virá (talvez, quem sabe), pode ser efeméride comemorativa de 01 ano do Dia do Desnudamento, a desgraça-mor, quando pedras ficaram desnudas e nossas pobres políticas, despidas; afora o rei que se mostrou implacavelmente nu. O fato é que, ali, vimos nossa pobreza de passado, de opções, de voto e expectativas. Ficamos todos um pouco nus. Essas horas da verdade, embora em silêncio, como ato de contrição, comemoração merecem. Não avisava o Oráculo de Éfeso: “Conhece-te a ti mesmo”, como primeiro passo do discernimento profundo?
            Pode ser também uma eleição “in memorian”. Sim, porque afora a Missa celebrada no Pedrão, os mortos de 12 de janeiro jamais viram suas famílias convenientemente confortadas. Ao contrário, homeopática e dolorosamente foram desonradas pela desassistência administrativa cruel que se externou no dia a dia da pós-tragédia. No âmbito do Conselho de Abrigos, propusemos Culto ecumênico, para conforto dos vivos, mas logo vimos que a desavença extra Conselho era tamanha que não rolaria. Portanto, a cada um que for exercitar seu direito de voto, protesto ou abstenção, estará dada oportunidade de, ao se defrontar com a urna - ou com a falta de urna - de 05 de fevereiro, efetuar solitário ato “in memorian” de seus queridos. Convém o suspiro, vai bem a prece, quiçá o grito de protesto, ainda que em tom menor, para não turbar a paz da zona eleitoral. Nada impede se depositem flores ao lado da urna eletrônica. Ainda que se acumulem, que transbordem em pétalas, seria honesto tributo aos que se foram na enxurrada da desídia. Velas, não recomendo. Periga incêndios, e não convém perturbar o ato cívico.
            Alguém pode ver essas eleições ainda como espécie de “dever de casa”. Oportunidade a péssimo aluno antes de prova final. Terá pensado o TRE: Teresópolis anda votando tão mal, precisa reforço, trabalho extra-classe, extra-outubros. Que melhor exercite o voto, mais treine, assim quando vier a hora da verdade, quem sabe a serra melhora a pontaria da escolha? Quem sabe melhora o índice na correlação – sobre a mesma pessoa - entusiasmo de candidato versus hombridade do governante? Quem sabe aprendemos a festejar menos os resultados eleitorais e a cobrar mais a gestão do dia a dia. Quem sabe melhoramos a caligrafia dessa história? Quem sabe o eleito perceba que não adquiriu castelo cor de rosa no centro de um feudo de fantasia e prazeres?
            Aliás, ‘en passant’, desde já apoio quem prometer repintar o palácio cor de rosa em matiz que não iluda tanto ao governante, nem lhe dê à imaginação tão coloridas asas a ponto de esvair-se o senso crítico e o pé no chão.
            Mas essa pode ser também a eleição do desafogo. Sim, porque afora as passeatas do “Xô Jorge Mário” - que reuniram, sim, robusta platéia, mas povo pouco, assim entendidos os moradores de encostas e comunidades precárias -  os desfavorecidos desta cidade, os sofridos desabrigados, os clientes do Bolsa-Família e do aluguel social, os abandonados de sorte e governos, esses não puderam ainda externar sua dor, corporificar sua mágoa, transformar a lágrima em ato. Assim, poderá o TRE ter buscado momento catártico, limpeza de trilhos, antecipando para fevereiro a raiva, o descaso, o descarrego da dor, permitindo em outubro melhor reflexão e menos paixão. Quem sabe, assim se verá na eleição regular urnas mais comprometidas com o futuro que buscamos?
            A decisão do TRE pode também viabilizar uma grande pré-campanha de vereadores. A lógica é perversa para candidatos de outubro, que viverão o Natal do dilema da antecipação de campanhas. Há risco de amargarem derrota que maculará caminhada posterior. E com vitória em fevereiro, poderão reeleger-se em outubro, mas perder a possibilidade de 08 anos no comando da aldeia. Daí o dilema: 08 anos ou 05 anos? Mas, ao mesmo tempo, desde quando, em urna ou galinheiro, se pode garantir matinal ovo no ninho? Por isso, acho que gente graúda pode evitar arriscar-se, o que permitirá experimentos visando desde ensaios de ressurreições a campanhas de vereança mais confortáveis em outubro. Isso implicaria em renúncia do eleito em maio, para que assuma o novo vice. O que daria à cidade o recorde: 05 prefeitos em 04 anos! Isso se Arlei não quiser se arriscar já nesta, o que implicará em sua urgente renúncia para concorrer em fevereiro (afinal, se a lei deve ser estritamente lida, estritas devem ser as regras). Daí, cravaremos a façanha de 06 prefeitos! Guiness certo! Montanhas, já temos. Para Bolívia (que chegou a ter presidentes trocados mensalmente) só nos faltarão as lhamas!
            Será um Natal de dilemas. Cuidado com Papais-Noéis repentinos. Barbas postiças se multiplicarão, escondendo interesses vários. Ponhamos as nossas de molho. Não esqueçamos que logo depois dessas eleições, vem o Carnaval! Aff! Nem Garcia Márquez bolaria enredo assim.
denilsoncdearaujo.blogspot.com
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