quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

POBRE BRASIL RICO


POBRE BRASIL RICO
Denilson Cardoso de Araújo

            Nas “viajandanças” natalinas para abraçar tantos lares, me vi dentro de crepúsculo esplêndido, na BR-040. A estrada era minha, sem vivalma ou motor. A tempestade da tarde de 24 deixara os verdes todos chamejantes. Nuvens em redemoinhos de plumas avermelhavam-se qual cobertores de manjedoura. Música boa enchia o carro. O mundo, embrulhado nessa diáfana coisa-Natal. Uma unção.
            Mas enquanto respirava esse ar de renovo fui olhando à janela slides que o caminho trazia à “olhografia”, este clique da alma. E se vi crianças irradiando boas vésperas, acesas de expectativas; se vi aquela mãezinha bela, de vestido amarelo, carregando um são joãozinho robusto numa das mãos e na outra todos os balões de gás do universo; se vi belos mulatos em fardas de domingo caminhando ao lado de rios inchados que estouravam cantos nas pedras; testemunhei também cenas que me fizeram despencar na realidade de um abduzido Natal.
            As balconistas, tão meninas, que deixavam o shopping após o expediente nas lojas da moda, já altas de baixezas de álcool, usavam microvestidos pretos tão justos, batons tão berrantes, que nítido revelou-se: não iam a qualquer manjedoura ou família. Dei também com a senhora que beirava a estrada com o carrinho de mão e um lenço encardido na cabeça encaracolada de brancos. No carrinho iam: a guirlanda amassada, uns papéis dourados, e uns braços plásticos de árvore, no que pareceu ser portátil Natal da miséria, que, não sei onde, seria montado atrasado. Ia solitária. Seus pés pareciam ruir tristezas de um blues. Vi o bêbado enroscado na sombra da banca de jornal, com ruidosas cobertas de pelo de capivara, a quentinha retorcida escorrendo farofa do lado arreganhado, e a garrafa, abraçada como o urso que aquela criança escondida no pária jamais teve. Vi um carro importado, encostando o pisca-alerta na beira da estrada, o casal de tontos adolescentes descendo em risos, a loura garota ébria vomitando excessos precoces. Vi passarem crianças sem lares, vi lares de crianças sem pai, vi pais sem crianças, lares rasgados de divórcios muitos ou casamentos em excesso, essas coisas que fazem inevitável incômodo que leva à inoportuna e pegajosa tristeza. E vi árvores de Natal encardidas, luzinhas da Prefeitura subindo pelas árvores, queimadas, como trepadeiras cegas...
            De dentro do crepúsculo, concluí: pobre Natal. Cristo menor do que antes, nos lares, talvez comendo PF, o anão, agachado na cozinha. A manjedoura esquecida na penha, com as glórias nas alturas debruçadas no chão, com a fraternidade escorrendo suas palhas moídas. Um Papai Noel momesco, faustoso, encarapitando-se no alto do golpe publicitário vencedor, com que a Coca-Cola revestiu de aura falsa e bochechas vermelhas o materialismo dominante.
            Pobre Natal... Caí daquele crepúsculo de sonho no meio do carrinho de mão da velhinha sem teto ou presentes. Pobre Natal... porque o Brasil fez questão de gritar aos ventos que ultrapassou a Grã-Bretanha (que façanha!) no ranking dos países “mais ricos” do mundo. Em sexto lugar, nosso PIB! Mas e daí? Este Natal, é certo, deveria nos lembrar, não da riqueza que em verdade não temos - posto que angariada às mãos cheias por meia dúzia – mas sim do fato de que o Brasil ainda frequenta vexatórios lugares no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), porque temos velhinhas e bêbados que não comemoram o Natal, sofrem o Natal.
            Pobre Natal, porque o ouro, o incenso e a mirra foram embolsados pela meia dúzia que se locupleta em torno do mercado financeiro internacional e da xepa de feira que é a política brasileira. Por isso, o IDH, principalmente em sua versão corrigida - o IDHAD (IDH Ajustado à Desigualdade), criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – que olha com lupa, caiu tanto. Levou-nos a, mui distantes do trono da rainha, no 84º lugar, disputar migalhas com o Suriname, o Congo e a República Dominicana.
            Por isso, vamos aos 2012 deste Pobre Brasil Rico resgatando pensamentos que o Natal mentiroso e consumista, sem Cristo, não permitiu. Que o recebamos com um mínimo de reflexões sobre duras travessias que fizemos no 2011 que se vai, de tanta guerra cansado. Aquela madrugada terrível de 12 de janeiro, que nos cravou faca no peito, ainda lateja. Não há gotejamento das nuvens que surja, sem que logo venham suspiros das pedras que assombraram as serras. Todos os verões serão difíceis desse momento pra frente.
            Eu, da minha parte, sem esquecer as lágrimas de 12/01, levarei 2012 adentro aquela unção do crepúsculo da tarde de 24/12, para me iluminar melhores caminhos, porque crepúsculos não se podem desperdiçar. E em honra da velhinha do carro de mão, do bêbado na banca de jornal, e das crianças do Vale do Cuiabá, dos desassistidos de uma Teresópolis no caos, de uma Friburgo devastada, cantarei como fiz, em louvor daquele crepúsculo, naquele dia, “Noite Feliz”... Esta canção, que hoje exige coragem para ser pronunciada, como nos dizem as bombas nas igrejas cristãs atacadas por muçulmanos radicais na Nigéria. Que coragem não falte e que o crepúsculo nos acompanhe no cântico em que avançaremos para chamar Jesus, da cozinha à sua real estatura, na cabeceira de nós. Cantemos juntos. Não há “Que tudo se realize no ano que vai nascer” se antes não houver “Noite Feliz”. Cantemos juntos. É tempo.
           
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