domingo, 13 de novembro de 2011

RESGATEM O GRAMADO DA CÂMARA!




Denilson Cardoso de Araújo

            Petropolitano sou, evadido por imposição profissional, e embora presente sempre nesta serra mater, só agora retornado. Como é diferente o “visitar”, mesmo constante, do realmente “morar”, viver o cotidiano! Deliciei-me revisitando ruas, olhando sobrados, redescobrindo sentidos e história. Comi guloseimas de confeitarias, salgados de bar, que sempre deleitaram o apetite da memória. Revejo pelas ruas rostos conhecidos, de nomes que se perderam, mas que sinalizam ao Odisseu o conforto dos portos conhecidos. Estimulante reencontro com minhas raízes.
            Mas algo me impactou negativamente. Menores de idade se embriagando, caminhando nas ruas centrais com latas de cerveja, namoros obscenos em pública, pichações afrontosas em prédios, palácios e na estátua do imperador. O gramado em frente ao Palácio Amarelo invadido por adolescentes, pisoteado, coberto de copos e garrafas, muitas vezes.
            Visitei escolas, para contribuir no resgate do ambiente de paz que há muito se perdeu. Como em todo o país, a situação é grave. Professores movidos a tarja-preta, inspetores assustados, diretoras tensas, alunos abusados. Episódios de indisciplina, violência e bulying avançam. Nas escolas públicas, feridas expostas. Nas particulares, camuflagem, afinal, há clientes e o “abafa” evita a má publicidade.
            Para reconstrução da paz, prego o resgate da autoridade da família e da escola. E maior humildade de crianças e jovens. Estes, para que não desçam aos abismos de geração perdida, precisam de disciplina. Mas há desleixo generalizado. Famílias se desossaram ao ponto da deformidade e do derretimento. Escolas são depósito de contradições e centros de poder dessa juventude abusada. Professores comparecem como quem precisa diariamente cumprir uma pena. Os jovens que saem dessa conjugação são os que se vê na imprensa. Desde os atrapalhados que fizeram a desastrada ocupação da reitoria da USP, até queimadores de mendigos ou espancadores de empregadas domésticas. Sem esquecer muitos que sonham ser o Nem da Rocinha, na busca de atalhos para o “ter é ser” reinante.
            Muita gente acusa o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Um erro! O ECA não impede a autoridade parental ou escolar. A exige. Mesmo que assim não fosse, não é a única lei do país. O descumprido Código Civil obriga ao exercício de autoridade pelos pais! E a Constituição garante a dignidade da pessoa humana como base da República. Por mais aviltado que esteja, o professor é pessoa humana! Sua dignidade é afrontada pelo clima de abuso e indisciplina das escolas.
            Não é fenômeno petropolitano. Mas aqui, há peculiaridades. Exemplo, o debate proposto pelo grande artista que é Marco Aurêh (a quem mando um abraço) sobre as pichações que emporcalham a cidade. Pretendia que os pichadores dessem razões e motivos. Como assim?! Ilicitude tem que ser, pura e simplesmente, reprimida e repreendida. Só então se põe o debate nos trilhos corretos. Quem destrói obras de arte não pode conversar em pé de igualdade com construtores da arte! O bem intencionado equívoco demonstra condescendência danosa à juventude porque sabota a tão reclamada restauração da noção de limites.
            O outro equívoco é o do gramado citado. Ali é uma espécie de “praça dos três poderes” do Município. A águia, em gramado depauperado, está cercada por instituições do Legislativo e Executivo municipais e pelo Museu Imperial, que é federal. Nos debates, pais, professores, adultos, enfim, reclamaram, acanhadamente ainda, da ocupação do gramado que em outros tempos foi sagrado.
            Alguém achou democrático liberar a grama para os tênis e traseiros juvenis. É o mesmo que permitir permanentes acampamentos juvenis na Praça dos Três Poderes em Brasília, ou fazer do espelho d’água do Congresso piscina pública. Não é democrático. Não é salutar. Não é correto. Porque não é boa pedagogia. Não se restaurará a paz nas escolas se não houver resgate da autoridade de pais e professores. Para que esta funcione é preciso que haja o resgate da autoridade pública. E a autoridade pública se exercita acima de tudo e em primeiro lugar, no espaço público. Que é de todos, não só de jovens, não só de adultos.
            Inadmissível bebida, camping, libido incontida, cigarros suspeitos, em próprio municipal privilegiado. Que Petrópolis dê exemplo, faça boa pedagogia de governo, auxiliando professores e estimulando famílias na reconstrução da sua autoridade. Que seja resgatado o gramado, que merece preservação. Se alguém quiser ir até à águia bater uma foto, que se faça um caminho de pedras. No mais, cerca e vigilância ativa da Guarda Municipal.
            Garanto que o futuro agradecerá. Os próprios jovens um dia serão gratos pela noção básica de limite, condição de cidadania. Hoje, poderão ficar chateados, é verdade. Mas é preciso resgatar certa coragem de deixar chateados os jovens. Sem que os esmaguemos, o “não” que chateia é condição essencial para a formação do ser. O “sim” eterno não constrói musculatura moral.

Publicado na Tribuna de Petrópolis de hoje.

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