Denilson Cardoso de
Araújo
Petropolitano
sou, evadido por imposição profissional, e embora presente sempre nesta serra
mater, só agora retornado. Como é diferente o “visitar”, mesmo constante, do
realmente “morar”, viver o cotidiano! Deliciei-me revisitando ruas, olhando
sobrados, redescobrindo sentidos e história. Comi guloseimas de confeitarias,
salgados de bar, que sempre deleitaram o apetite da memória. Revejo pelas ruas
rostos conhecidos, de nomes que se perderam, mas que sinalizam ao Odisseu o
conforto dos portos conhecidos. Estimulante reencontro com minhas raízes.
Mas
algo me impactou negativamente. Menores de idade se embriagando, caminhando nas
ruas centrais com latas de cerveja, namoros obscenos em pública, pichações
afrontosas em prédios, palácios e na estátua do imperador. O gramado em frente
ao Palácio Amarelo invadido por adolescentes, pisoteado, coberto de copos e
garrafas, muitas vezes.
Visitei
escolas, para contribuir no resgate do ambiente de paz que há muito se perdeu. Como
em todo o país, a situação é grave. Professores movidos a tarja-preta,
inspetores assustados, diretoras tensas, alunos abusados. Episódios de
indisciplina, violência e bulying avançam. Nas escolas públicas, feridas
expostas. Nas particulares, camuflagem, afinal, há clientes e o “abafa” evita a
má publicidade.
Para
reconstrução da paz, prego o resgate da autoridade da família e da escola. E maior
humildade de crianças e jovens. Estes, para que não desçam aos abismos de
geração perdida, precisam de disciplina. Mas há desleixo generalizado. Famílias
se desossaram ao ponto da deformidade e do derretimento. Escolas são depósito de
contradições e centros de poder dessa juventude abusada. Professores comparecem
como quem precisa diariamente cumprir uma pena. Os jovens que saem dessa
conjugação são os que se vê na imprensa. Desde os atrapalhados que fizeram a desastrada
ocupação da reitoria da USP, até queimadores de mendigos ou espancadores de
empregadas domésticas. Sem esquecer muitos que sonham ser o Nem da Rocinha, na
busca de atalhos para o “ter é ser” reinante.
Muita
gente acusa o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Um erro! O ECA não
impede a autoridade parental ou escolar. A exige. Mesmo que assim não fosse,
não é a única lei do país. O descumprido Código Civil obriga ao exercício de
autoridade pelos pais! E a Constituição garante a dignidade da pessoa humana
como base da República. Por mais aviltado que esteja, o professor é pessoa
humana! Sua dignidade é afrontada pelo clima de abuso e indisciplina das
escolas.
Não
é fenômeno petropolitano. Mas aqui, há peculiaridades. Exemplo, o debate
proposto pelo grande artista que é Marco Aurêh (a quem mando um abraço) sobre as
pichações que emporcalham a cidade. Pretendia que os pichadores dessem razões e
motivos. Como assim?! Ilicitude tem que ser, pura e simplesmente, reprimida e
repreendida. Só então se põe o debate nos trilhos corretos. Quem destrói obras
de arte não pode conversar em pé de igualdade com construtores da arte! O bem
intencionado equívoco demonstra condescendência danosa à juventude porque sabota
a tão reclamada restauração da noção de limites.
O
outro equívoco é o do gramado citado. Ali é uma espécie de “praça dos três
poderes” do Município. A águia, em gramado depauperado, está cercada por
instituições do Legislativo e Executivo municipais e pelo Museu Imperial, que é
federal. Nos debates, pais, professores, adultos, enfim, reclamaram,
acanhadamente ainda, da ocupação do gramado que em outros tempos foi sagrado.
Alguém
achou democrático liberar a grama para os tênis e traseiros juvenis. É o mesmo
que permitir permanentes acampamentos juvenis na Praça dos Três Poderes em
Brasília, ou fazer do espelho d’água do Congresso piscina pública. Não é
democrático. Não é salutar. Não é correto. Porque não é boa pedagogia. Não se
restaurará a paz nas escolas se não houver resgate da autoridade de pais e professores.
Para que esta funcione é preciso que haja o resgate da autoridade pública. E a
autoridade pública se exercita acima de tudo e em primeiro lugar, no espaço
público. Que é de todos, não só de jovens, não só de adultos.
Inadmissível
bebida, camping, libido incontida, cigarros suspeitos, em próprio municipal
privilegiado. Que Petrópolis dê exemplo, faça boa pedagogia de governo, auxiliando
professores e estimulando famílias na reconstrução da sua autoridade. Que seja resgatado
o gramado, que merece preservação. Se alguém quiser ir até à águia bater uma
foto, que se faça um caminho de pedras. No mais, cerca e vigilância ativa da
Guarda Municipal.
Garanto
que o futuro agradecerá. Os próprios jovens um dia serão gratos pela noção
básica de limite, condição de cidadania. Hoje, poderão ficar chateados, é
verdade. Mas é preciso resgatar certa coragem de deixar chateados os jovens.
Sem que os esmaguemos, o “não” que chateia é condição essencial para a formação
do ser. O “sim” eterno não constrói musculatura moral.
Publicado na Tribuna de Petrópolis de hoje.
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