SIM
OU NÃO?
Em resposta complementar ao artigo
“Resgatem o gramado da Câmara”
Caro Denilson Cardoso de Araujo,
Concordo plenamente com a
essência de seu artigo recém publicado na Tribuna. Permita-me, entretanto,
imprimir algumas considerações.
Realmente, a falta de
limites e rigor, gerada pela onda de contracultura crescente que teve origem
nos movimentos de libertação (fundamentais para a época) do final dos anos
sessenta (Woodstock como ápice), tem criado, de um lado, artistas, filósofos e
intelectuais; do outro, monstros. A
geração “paz e amor” acabou por confundir liberdade com libertinagem - e
instaurou-se, de forma coletiva, a sensação de que impor regras é errado, é
careta, é anacrônico. Lembrei-me do "é proibido proibir" do Caetano.
E as famílias, obviamente, foram se influenciando por esses conceitos como
sendo absolutos. Sou pai, tenho um filho com dezoito anos de idade. Como
criador e responsável por ele, muitas vezes me deparei com dúvidas, suspenso entre
o limiar do sim e do não, e até hoje a incerteza permanece: será que deveria
ter dito não quando disse sim? E vice-versa. Fui professor de música e atuei
por mais de dez anos em várias escolas. Tive a oportunidade de lecionar para
crianças e adolescentes, a maioria indisciplinada e sem noções de limites. Senti
na pele o desrespeito que você apontou. Petrópolis não é diferente do resto do
mundo, você também ressaltou esse fato, porém, ela sempre se mostrou “arrumada”
como uma donzela pronta para ir ao baile de gala. Sempre foi “disciplinada”
como um cadete, herança de sua colonização germânica. Talvez por essas e outras
peculiaridades, soframos mais ao nos depararmos com os desmandos e desalinhos
evidentes no “vestido longo” de nossa dama-cidade. Porém, pergunto: a
repressão, o elitismo, a compostura sisuda e imperialista (no mal sentido do
termo), não seriam estimulantes naturais de um contraponto? Muitos da geração
libertina acima citada eram filhos de militares. Fica a reflexão.
Contudo, vamos ao
ponto que me coube mais diretamente em seu texto que considerou equivocada a proposta
de um debate sobre pichação x grafitagem, evento que promovi recentemente no
Centro de Cultura Raul de Leoni, ao alegar que “O bem intencionado equívoco demonstra condescendência danosa à
juventude porque sabota a tão reclamada restauração da noção de limites”.
Embora eu concorde que devam existir ações enérgicas para quem picha, defendo
piamente o direito de defesa/palavra/diálogo/esclarecimento/ a quem quer que seja
e esteja como réu ou “sub judice”, e essa premissa - independente de ser um ato
nobre, democrático e sociológico, também presente em diversas leis universais,
desde as de guerra (sustentadas pela ética e moral dos combatentes), às convencionadas
pelos diversos tribunais de justiça -, seria, no mínimo, extrema ignorância
desconsiderar o pensamento do “oponente”.
É uma pena que tenha
chegado atrasado ao debate, quando o mesmo já havia terminado, certamente seu
conceito sobre a relevância do evento, que se mostrou extremamente saudável e
esclarecedor, seria outro. Tivemos a visão dos dois lados da questão: das autoridades
“vitimadas” e dos “agentes urbanos”. Registro as ilustres presenças da diretora
do IPHAN, Erika Machado; da professora de artes Meire Rios; do coordenador de
juventude, Yuri Moura e de grafiteiros, que se assumiram como ex-pichadores -
nobreza, tanto na evolução do traço em seus “mandos”, quanto na atitude perante
o debate. O encontro se mostrou bastante fértil. Exibimos um curta-documentário
sobre pichações em São Paulo (com depoimento de vários pichadores) e um
vídeo-animação que fez um paralelo sobre o picho e o grafite; vale destacar que
esses dois termos são muito bem diferenciados no Brasil, coisa que os outros
países não o fazem, pois denominam “grafite” para todos os traços, tanto os
rabiscos quanto os desenhos mais elaborados (aprendemos esse detalhe no
referido debate). Por fim, elencamos a importância da arte urbana. Verificamos
pontos em Petrópolis que poderão receber essas intervenções artísticas, tanto
sob a ótica do IPHAN, com suas referências e precisões técnicas, quanto pelo
prisma dos grafiteiros dispostos a colaborar ao colocarem sua arte em
evidência. Valeu e muito!
A pichação é um
grito. Seria imprudente procurar saber/refletir/avaliar/constatar a motivação
contida por trás desse ato insano? Creio que não.
Você fez a sua parte
ao escrever apontando os desmandos.
Por outro lado, tenho
certeza de que cumpri o meu papel.
Como administrador de
um Centro Cultural, cabe-me promover o encontro e o diálogo; às autoridades
jurídicas, a punição.
Com cordiais
saudações,
PS: O gramado da
praça da águia e da cobra (prefiro assim chamá-la) está sendo restaurado.
Marco Aurêh
– músico,
ator, gerente do Centro de Cultura Raul de Leoni
- - - -
Este artigo de Marco Aurêh aqui é publicado após troca de
e-mails entre nós. O texto acima é basicamente aperfeiçoamento do e-mail que
ele mandou, após meu contato esclarecendo que não houve qualquer intenção de
ofensa ao artista e administrador. Após minha contra-resposta abaixo, veio,
então o texto ora apresentado. Resgato meu contato abaixo, para que bem se
compreenda os termos do diálogo.
Realço a admiração por Aurêh,
recomendando a visita ao seu
belo sítio:
http://www.marcoaureh.com.br/
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Meu caro Aurêh
(...) Entendo a observação sobre certo germanismo elitista e
imperial da cidade mas não creio ter sido esta a marca de ação da militância
político-sindical, que logo me levou à militância por direitos infanto-juvenis
muito cedo. O problema é que vi muitos meninos e meninas mortos cedo demais. De
tanta reflexão nesses anos vi interpretações equivocadas desses direitos (ECA),
como um dos fatores mais importantes para a situação de calamidade (calamidade,
infelizmente, não posso dizer menos), que hoje vivemos no tema.
Sobre o debate, eu disse, precisava honrar compromisso
anterior com a Academia... esperava
chegar, ao menos, em meio ao debate. Não deu, cheguei 20:40, uma pena... Mas
não entenda mal, por favor. Debate é sempre útil. Mas foi divulgado na imprensa
como chamamento a autores de ilícitos (os pichadores), o que me parece dar
involuntariamente certa legitimidade ao pichador. Travei longos debates com em
Teresópolis com pichadores contumazes, aos quais aplicávamos medidas geralmente
de reparação do dano (repintura dos locais danificados). Conseguimos, motivar
alguns (verdadeiramente eram artistas), que hoje se tornaram grafiteiros, e um,
quadrinista. A maioria eram simples vândalos padecendo de falta de autoridade
familiar, esta forma de desafeto.
Não vejo os meninos como "inimigos", mas como
jovens que precisam de orientação restauradora - que muitas vezes falta em casa
- inclusive para que melhor exerçam a transgressão construtora de caráter.
Dessa tensão transgressão/reprimenda faz-se a formação da pessoa capaz de
autonomia.
Concordo, cabe a democratas estimular o diálogo. Ou o
"direito de defesa". Mas este, a expressão diz, exige mecanismo
próprio, o "processo", em que existe acusado/réu. É ato de
autoridade, não é democrático em si, mas repressivo, mas garantidor do Estado
de Direito. Me permita entender que a Gerência do Centro é cargo de autoridade.
Se dali não cabe punição, cabe a organização da defesa das obras de arte. Disso
resulta exercer quando menos a contratação ou exigência de segurança (logo,
repressão).
Mas meu papel aqui não é só de apontar dedo e mandar
crítica... tenho procurado - e tá
difícil obter o espaço pra isso - trabalhar em duas direções: resgatar
autoridade escolar e familiar e contribuir para direcionar os esforços dos
jovens para atitudes produtivas (criação de coletivos de estudantes,
organização de atividades culturais, etc). O artigo veio apenas em reforço à
primeira das "missões" a que ali me propus: para a qual é indispensável,
como disse, o resgate da autoridade pública.
Na minha visão, estamos do mesmo lado. Da cultura, da
construção de mundo mais solidário, e do resgate de uma juventude atordoada.
Mantenho aqui meu abraço carinhoso e sincera admiração pelo seu trabalho, como artista e
administrador.
Denilson
EM TEMPO - A não ser
que vc tenha algum óbice, vou publicar as suas ponderações no meu blog, com
esta resposta. Afinal, é debate. E, como concordamos, nos termos corretos, é
sempre útil.

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