MANDATO
NÃO É CHEQUE EM BRANCO
A NOITE DE OBAMA – Esperava-se muito. Até a eleição Obama
tinha o discurso, a aparência e a etnia. No mandato, as esperanças derreteram.
Claro que ele paga a conta de desgovernos irresponsáveis. Herdar a economia em
pandarecos por conta das guerras de Bush Júnior não foi fácil. Mas pior foi ver
o depositário das esperanças e heranças do sonho de Luther King, que recebeu
precoce e absurdo Nobel da Paz, aumentar frentes de guerra já existentes.
Os
assassinatos de Osama Bin Laden e de Muamar Kadhafi, amparados e patrocinados
pelo governo americano e usados como moeda eleitoreira por Obama, colocam o
jovem presidente no caminho terrível do pragmatismo sem escrúpulos. Sabemos que
a sociedade americana é cheia de contradições e complexidades. Não seriam
fáceis os desafios do novo governo, mas ninguém esperava o quadro desolador que
se vê. Multidões acampadas em
Wall Street , questionadoras do modelo econômico, do sistema
capitalista, e mais propriamente, da “decepção Obama”, bradam aos governantes
que mandato não é cheque em branco.
GRÉCIA ACENDE A LUZ – Berço da democracia, a Grécia
impacta o mundo novamente. Pode ter sido apenas esperteza do primeiro-ministro pressionado
pela crise que explodiu em seu colo. Mas o fato é que, após a assinatura do
acordo que garantiu o inédito rebate de 50% da dívida grega, George Papandreou anunciou
o tal referendo que remete à população reunida na “ágora” em marchas e greves a decisão sobre as penosas condições
impostas pelos credores. Estes se apavoram e imprensam o governo grego. Não se
sabe no que vai dar. No atual clima o povo deve rejeitar o enforcamento dos
direitos sociais pretendido pelos banqueiros. E daí, ou os bancos acatam a
eventual - e provável - decisão que afrontará seus interesses ou recorrem a
retaliações que podem se revelar inócuas.
Desistir,
agora, da proposta do referendo, parece improvável, a não ser que Papandreou no
mesmo discurso de recuo renuncie ao governo, para manter o mínimo de coerência.
Parece-me que o primeiro-ministro moribundo fez cartada de gênio. Após o indispensável
acordo, trouxe à mesa o ás da manga democrática. Ninguém esperava. Vai ser
difícil à oposição derrubar proposta que deseja a opinião do povo. Vai ser
complicado à banca, afrontar o resultado do referendo. Penoso aos governos que
se submeteram, explicar o “mau exemplo” grego. Certo é que o primeiro-ministro
parece ter entendido que mandato não é cheque em branco. Há contas a
prestar.
CRISTINA KIRCHNER – A Argentina ontem foi a Grécia de
hoje. E os Kirchner sabiam o que Papandreou sabe. Qualquer negociador bancário
conhece. O cliente prioritário do banco é o que lhe deve. Dinheiro de aplicador
é do aplicador. Com agrados corretos, taxas razoáveis, cafés bem coados, o
dinheiro fica. Mas a grana do que tomou empréstimos é do banco. E aqui, um
desequilíbrio nas exigências põe tudo a perder, o dinheiro não volta ao lar. E
haja capuccinos, porque devedor que conhece seu potencial exige, negocia. Por
isso, no atraso de parcela, aquele esperneio do banco. Cobrador, cara feia,
SPC, advogados, processos, uma grita danada. O devedor de sangue frio acaba percebendo
sua força e obtém bons acordos que permitem pagamento com descontos, sem que
precise amputar membros ou sacrificar filhos no altar da dívida.
Nestor
Kirchner sentou-se no tamborete dos apenas 22% dos votos com que o elegeram os
hermanos. Disse: devo não nego, pago como puder o que realmente dever (30% do
débito!). Grita internacional, colapsos, ataques cardíacos, mirians leitão
praguejando, economistas brasileiros arfantes. No fim das contas pagou o que
quis, como quis.
Cá,
rasgado o Programa do PT (que sempre exigiu no mínimo, auditoria da dívida)
Lula se orgulhou de não só haver pagado “tudo que devia”, como ainda de ter
pagado em antecipadas parcelas! Ou seja, comemoraram-se sacrifícios do povo
brasileiro, que permitiram lucro ao agiota! É como se, à beira do caixãozinho de
anjo, o pai nordestino louvasse a fome que matou o filho, porque permitiu enricar
o explorador. A eleição de Cristina, com 54% dos votos, parece demonstrar que
os argentinos premiaram a coerência de quem entendeu: o mandato não é um cheque
em branco.
JORGE MÁRIO –Cada um observa melhor a realidade
do seu próprio nicho. Da seara dos direitos infanto-juvenis, cedo se viu. Algo
ia dar muito errado. Não podia ir bem governo que permitiu a secretários
incompetentes, alienígenas, fantoches e arrogantes desrespeitar e afrontar
reserva moral da cidade, como a Juíza Drª Inês Coutinho. Mesmo alertado
pessoalmente por mim, o Prefeito manteve-se sem qualquer providência de
desagravo.
Não
bastasse isso, já no ocaso, a Secretaria de Educação patrocinou recurso contra
o Conselho Juvenil. Implicou com a obrigação (acordada!) de as escolas gastarem
uns 30 reais - em todo um ano! - com camisetas para os Conselheiros! Pediu logo
a derrubada de todo o Projeto de formação de lideranças da Vara da Infância. Por
azar, o recurso foi acatado por relator que desconhece as regras do jogo
autorizado pelo Conselho da Magistratura.
Temos
então que Jorge Mário, por sua Secretária Magaly, conseguiu dar tiro no peito do
Conselho Juvenil, aprovado pela cidade, pelas escolas e pelos estudantes. De
morte não será. As lideranças formadas irão em frente, tenho certeza. Mas fica
o emblema de um desastre. E o lembrete à arrogância, agora falecida na véspera
de Finados: mandato não é cheque em branco.
ARLEI FRANCO - Cada província produz o mau líder
que merece, e cada palácio recebe o Collor que lhe cabe. Defenestrado este,
esperemos que ao menos o Itamar da vez seja sensato na travessia da crise como
foi o então vice. E que não governe só com o coração, que é traiçoeiro. Afinal,
o que mais faltou ao desgoverno exterminado foi inteligência.

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