quinta-feira, 3 de novembro de 2011

MANDATO NÃO É CHEQUE EM BRANCO


MANDATO NÃO É CHEQUE EM BRANCO
 Denilson Cardoso de Araújo

A NOITE DE OBAMA – Esperava-se muito. Até a eleição Obama tinha o discurso, a aparência e a etnia. No mandato, as esperanças derreteram. Claro que ele paga a conta de desgovernos irresponsáveis. Herdar a economia em pandarecos por conta das guerras de Bush Júnior não foi fácil. Mas pior foi ver o depositário das esperanças e heranças do sonho de Luther King, que recebeu precoce e absurdo Nobel da Paz, aumentar frentes de guerra já existentes.
            Os assassinatos de Osama Bin Laden e de Muamar Kadhafi, amparados e patrocinados pelo governo americano e usados como moeda eleitoreira por Obama, colocam o jovem presidente no caminho terrível do pragmatismo sem escrúpulos. Sabemos que a sociedade americana é cheia de contradições e complexidades. Não seriam fáceis os desafios do novo governo, mas ninguém esperava o quadro desolador que se vê. Multidões acampadas em Wall Street, questionadoras do modelo econômico, do sistema capitalista, e mais propriamente, da “decepção Obama”, bradam aos governantes que mandato não é cheque em branco.
GRÉCIA ACENDE A LUZ – Berço da democracia, a Grécia impacta o mundo novamente. Pode ter sido apenas esperteza do primeiro-ministro pressionado pela crise que explodiu em seu colo. Mas o fato é que, após a assinatura do acordo que garantiu o inédito rebate de 50% da dívida grega, George Papandreou anunciou o tal referendo que remete à população reunida na “ágora” em marchas e greves a decisão sobre as penosas condições impostas pelos credores. Estes se apavoram e imprensam o governo grego. Não se sabe no que vai dar. No atual clima o povo deve rejeitar o enforcamento dos direitos sociais pretendido pelos banqueiros. E daí, ou os bancos acatam a eventual - e provável - decisão que afrontará seus interesses ou recorrem a retaliações que podem se revelar inócuas.
            Desistir, agora, da proposta do referendo, parece improvável, a não ser que Papandreou no mesmo discurso de recuo renuncie ao governo, para manter o mínimo de coerência. Parece-me que o primeiro-ministro moribundo fez cartada de gênio. Após o indispensável acordo, trouxe à mesa o ás da manga democrática. Ninguém esperava. Vai ser difícil à oposição derrubar proposta que deseja a opinião do povo. Vai ser complicado à banca, afrontar o resultado do referendo. Penoso aos governos que se submeteram, explicar o “mau exemplo” grego. Certo é que o primeiro-ministro parece ter entendido que mandato não é cheque em branco. Há contas a prestar.
CRISTINA KIRCHNER – A Argentina ontem foi a Grécia de hoje. E os Kirchner sabiam o que Papandreou sabe. Qualquer negociador bancário conhece. O cliente prioritário do banco é o que lhe deve. Dinheiro de aplicador é do aplicador. Com agrados corretos, taxas razoáveis, cafés bem coados, o dinheiro fica. Mas a grana do que tomou empréstimos é do banco. E aqui, um desequilíbrio nas exigências põe tudo a perder, o dinheiro não volta ao lar. E haja capuccinos, porque devedor que conhece seu potencial exige, negocia. Por isso, no atraso de parcela, aquele esperneio do banco. Cobrador, cara feia, SPC, advogados, processos, uma grita danada. O devedor de sangue frio acaba percebendo sua força e obtém bons acordos que permitem pagamento com descontos, sem que precise amputar membros ou sacrificar filhos no altar da dívida.
            Nestor Kirchner sentou-se no tamborete dos apenas 22% dos votos com que o elegeram os hermanos. Disse: devo não nego, pago como puder o que realmente dever (30% do débito!). Grita internacional, colapsos, ataques cardíacos, mirians leitão praguejando, economistas brasileiros arfantes. No fim das contas pagou o que quis, como quis.
            Cá, rasgado o Programa do PT (que sempre exigiu no mínimo, auditoria da dívida) Lula se orgulhou de não só haver pagado “tudo que devia”, como ainda de ter pagado em antecipadas parcelas! Ou seja, comemoraram-se sacrifícios do povo brasileiro, que permitiram lucro ao agiota! É como se, à beira do caixãozinho de anjo, o pai nordestino louvasse a fome que matou o filho, porque permitiu enricar o explorador. A eleição de Cristina, com 54% dos votos, parece demonstrar que os argentinos premiaram a coerência de quem entendeu: o mandato não é um cheque em branco.
JORGE MÁRIO –Cada um observa melhor a realidade do seu próprio nicho. Da seara dos direitos infanto-juvenis, cedo se viu. Algo ia dar muito errado. Não podia ir bem governo que permitiu a secretários incompetentes, alienígenas, fantoches e arrogantes desrespeitar e afrontar reserva moral da cidade, como a Juíza Drª Inês Coutinho. Mesmo alertado pessoalmente por mim, o Prefeito manteve-se sem qualquer providência de desagravo.
            Não bastasse isso, já no ocaso, a Secretaria de Educação patrocinou recurso contra o Conselho Juvenil. Implicou com a obrigação (acordada!) de as escolas gastarem uns 30 reais - em todo um ano! - com camisetas para os Conselheiros! Pediu logo a derrubada de todo o Projeto de formação de lideranças da Vara da Infância. Por azar, o recurso foi acatado por relator que desconhece as regras do jogo autorizado pelo Conselho da Magistratura.
            Temos então que Jorge Mário, por sua Secretária Magaly, conseguiu dar tiro no peito do Conselho Juvenil, aprovado pela cidade, pelas escolas e pelos estudantes. De morte não será. As lideranças formadas irão em frente, tenho certeza. Mas fica o emblema de um desastre. E o lembrete à arrogância, agora falecida na véspera de Finados: mandato não é cheque em branco.
ARLEI FRANCO - Cada província produz o mau líder que merece, e cada palácio recebe o Collor que lhe cabe. Defenestrado este, esperemos que ao menos o Itamar da vez seja sensato na travessia da crise como foi o então vice. E que não governe só com o coração, que é traiçoeiro. Afinal, o que mais faltou ao desgoverno exterminado foi inteligência.

0 comentários:

Postar um comentário