quinta-feira, 10 de novembro de 2011

INTERMINÁVEL 2011


INTERMINÁVEL 2011
Denilson Cardoso de Araújo


            Quando oferece tão intensos e trágicos dias, que melhor se conteriam em décadas, mesmo quando acaba, um ano nunca termina, ensinou Zuenir Ventura sobre 1968. O JB de então pôs na previsão do tempo a metáfora para o cruel AI-5: “Ar irrespirável. Fortes ventos varrem o Planalto Central”.
            Fortes ventos, climáticos e morais, varreram Teresópolis. Eventos trágicos o suficiente para perceber-se que 2011 jamais terminará. Ar irrespirável, em ano terrível. O sonho das urnas de 2008 virou frustração em 2009 e traição da esperança em 2010. Deu na vexatória derrota de Dilma por aqui, afundada por governo local autista, de loteamentos inadequados e autoridade de gelatina. No desespero, ao apagar das luzes de 2010, uma espécie de Baile da Ilha Fiscal ocorreu no Hotel Alpina. Lançamento da “Agenda Positiva”, eleitoreiro último suspiro. Megalômanas obras, de que não se assentou um só tijolo decente. Não deu tempo.
            Mal começado o novo ano, a cidade foi-se ao abismo. Lama, pedras, prédios, árvores e políticos despencaram na tempestade. Viu-se a nudez do rei na vexatória bagunça administrativa. Paciência e solidariedade popular foram desperdiçadas. Nunca chegou gerenciamento adequado. Igrejas, famílias e entidades privadas é que improvisaram abrigos emergenciais, jamais apoiados adequadamente pelo poder público.
            A máquina governamental, de gestão ineficiente, amadora e política no pior sentido, explodiu em fraturas da desassistência. Humildes mofavam em filas que encaminhavam a novas filas que pariam cadastros que remetiam a outros infindáveis cadastros. Secretários despencavam como frutas passadas. Governo rotativo. Inábil, desentendeu-se com evangélicos da sua base e da maioria dos abrigos de emergência, e com os católicos, que lideraram coletas e socorros.
            Cláudio Mello, vereador que o governo buscara emparedar no próprio partido, apresentou à Justiça denúncias de contratação e uso irregular de empresas no pós-desgraça. Revoltas latejavam nas ruas. Acanhadas frente à presença da Força Nacional, logo explodiram. Passeatas, Câmara apedrejada, marchas sobre a Prefeitura. A OAB pegou num pé do governo, ao outro se agarraram lideranças empresariais, puxando o Prefeito para baixo. Natural. Novas denúncias fizeram ver que o caso extrapolava a mera incompetência. O modus operandi perverso: corpos ainda em contagem, no banheiro da Prefeitura se recolhia propinas. Acuada, a Câmara majoritariamente parceira do governo agonizante abriu uma CPI paraguaia, pra esfriar a mobilização popular. Mas a pressão aumentou. Na repercussão nacional, apoios minguaram. Sérgio Cabral, antes arroz de festa, evadiu da cidade e tomaram chá de sumiço deputados que loteavam cargos e eleitorado local. Expulso do PT, Jorge Mário ficou pendurado na brocha até cair.
            Surgiu Robertão, experiente Vice que divergira já nas primeiras semanas de governo. Na crise, convocado dos tratamentos de saúde, foi ao palácio com o qual sonhara. Levava anseios e expectativas, esperanças e projetos, um futuro a ser construído. Assinou meia dúzia de documentos. No dia seguinte à posse teatral, shakesperiana surpresa. Seu coração cobrou máximo preço pela alta aventura, e a cidade perdeu quem inspirava serenidade para a travessia.
            A facada do destino surpreendeu apoiadores sérios, de legítimas propostas, e oportunistas, que espreitavam benesses. Em meio às exéquias, o povo choroso mal percebeu o Presidente da Câmara assumir a cadeira principal do palácio. Zuenir Ventura no jornal O Globo: “Em menos de uma semana, Teresópolis teve três prefeitos: um foi afastado por suspeitas de corrupção; o substituto morreu vítima de infarto, e o atual carrega dois pesados processos nas costas. Pelo jeito, na bela cidade serrana, prefeito bom é prefeito morto.”.
            Decisivo capítulo fechou-se com a unânime cassação de Jorge Mário, ocorrida na véspera de Finados. A cidade, que já o tinha por politicamente defunto, apenas foi em silêncio aos cemitérios no dia seguinte.
            Arlei Rosa, vereador de primeira viagem, é o prefeito. Dois processos no cartel, sem grandes futuros, supostamente moldável e influenciável, parece mal menor que a todos convém, enquanto se espera o pleito que virá. Mas a confusão política, já agravada com o aumento nas cadeiras na Câmara, pode ir ao paroxismo, caso o TRE decida por eleições diretas para mandato tampão.
            A cidade ancora dúvidas quanto ao amanhã na certeza de rejeitar retorno ao passado. Há evidente lacuna de liderança. Em política, sem vigilância, oportunistas se lambuzam no melado da vacuidade. Vivemos isso. Majoritariamente, ao menos pelo voto, fomos cúmplices (desavisados e de boa fé, mas cúmplices) do desgoverno que nos soterrou. Por isso, todo cuidado é pouco. Em tempos de popularidade de vampiros e zumbis, indesejadas ressurreições podem ocorrer. Ainda mais numa situação em que a maioria da população precisa somente sobreviver.
            As primeiras chuvas se mostram e os primeiros oportunistas se esgueiram. Não há quem tenha convivido com tragédia assim que não olhe para o céu sem franzidos na testa e para as urnas sem o coração palpitando. Assim será nos próximos anos, em que - sem prejuízo da fé e da esperança - 2011 seguirá, inacabado, cobrando faturas, seus quase quatrocentos mortos a fraturar o calendário, de alguma forma arrastados em nossa consciência. Por isso encerro com o que deve ser alerta e bordão para sempre, em chuvas ou eleições: “Lembrai-vos de 12 de janeiro!”.

*.*

0 comentários:

Postar um comentário