INTERMINÁVEL
2011
Denilson Cardoso de Araújo
Quando
oferece tão intensos e trágicos dias, que melhor se conteriam em décadas, mesmo
quando acaba, um ano nunca termina, ensinou Zuenir Ventura sobre 1968. O JB de
então pôs na previsão do tempo a metáfora para o cruel AI-5: “Ar irrespirável. Fortes
ventos varrem o Planalto Central”.
Fortes
ventos, climáticos e morais, varreram Teresópolis. Eventos trágicos o suficiente
para perceber-se que 2011 jamais terminará. Ar irrespirável, em ano terrível. O
sonho das urnas de 2008 virou frustração em 2009 e traição da esperança em 2010.
Deu na vexatória derrota de Dilma por aqui, afundada por governo local autista,
de loteamentos inadequados e autoridade de gelatina. No desespero, ao apagar
das luzes de 2010, uma espécie de Baile da Ilha Fiscal ocorreu no Hotel Alpina.
Lançamento da “Agenda Positiva”, eleitoreiro último suspiro. Megalômanas obras,
de que não se assentou um só tijolo decente. Não deu tempo.
Mal
começado o novo ano, a cidade foi-se ao abismo. Lama, pedras, prédios, árvores e
políticos despencaram na tempestade. Viu-se a nudez do rei na vexatória bagunça
administrativa. Paciência e solidariedade popular foram desperdiçadas. Nunca chegou
gerenciamento adequado. Igrejas, famílias e entidades privadas é que improvisaram
abrigos emergenciais, jamais apoiados adequadamente pelo poder público.
A
máquina governamental, de gestão ineficiente, amadora e política no pior sentido,
explodiu em fraturas da desassistência. Humildes mofavam em filas que
encaminhavam a novas filas que pariam cadastros que remetiam a outros infindáveis
cadastros. Secretários despencavam como frutas passadas. Governo rotativo. Inábil,
desentendeu-se com evangélicos da sua base e da maioria dos abrigos de
emergência, e com os católicos, que lideraram coletas e socorros.
Cláudio
Mello, vereador que o governo buscara emparedar no próprio partido, apresentou
à Justiça denúncias de contratação e uso irregular de empresas no pós-desgraça.
Revoltas latejavam nas ruas. Acanhadas frente à presença da Força Nacional, logo
explodiram. Passeatas, Câmara apedrejada, marchas sobre a Prefeitura. A OAB
pegou num pé do governo, ao outro se agarraram lideranças empresariais, puxando
o Prefeito para baixo. Natural. Novas denúncias fizeram ver que o caso
extrapolava a mera incompetência. O modus
operandi perverso: corpos ainda em contagem, no banheiro da Prefeitura se recolhia
propinas. Acuada, a Câmara majoritariamente parceira do governo agonizante abriu
uma CPI paraguaia, pra esfriar a mobilização popular. Mas a pressão aumentou. Na
repercussão nacional, apoios minguaram. Sérgio Cabral, antes arroz de festa, evadiu
da cidade e tomaram chá de sumiço deputados que loteavam cargos e eleitorado
local. Expulso do PT, Jorge Mário ficou pendurado na brocha até cair.
Surgiu Robertão, experiente Vice que
divergira já nas primeiras semanas de governo. Na crise, convocado dos
tratamentos de saúde, foi ao palácio com o qual sonhara. Levava anseios e
expectativas, esperanças e projetos, um futuro a ser construído. Assinou meia
dúzia de documentos. No dia seguinte à posse teatral, shakesperiana surpresa.
Seu coração cobrou máximo preço pela alta aventura, e a cidade perdeu quem inspirava
serenidade para a travessia.
A
facada do destino surpreendeu apoiadores sérios, de legítimas propostas, e
oportunistas, que espreitavam benesses. Em meio às exéquias, o povo choroso mal
percebeu o Presidente da Câmara assumir a cadeira principal do palácio. Zuenir
Ventura no jornal O Globo: “Em menos de
uma semana, Teresópolis teve três prefeitos: um foi afastado por suspeitas de
corrupção; o substituto morreu vítima de infarto, e o atual carrega dois
pesados processos nas costas. Pelo jeito, na bela cidade serrana, prefeito bom
é prefeito morto.”.
Decisivo
capítulo fechou-se com a unânime cassação de Jorge Mário, ocorrida na véspera
de Finados. A cidade, que já o tinha por politicamente defunto, apenas foi em
silêncio aos cemitérios no dia seguinte.
Arlei
Rosa, vereador de primeira viagem, é o prefeito. Dois processos no cartel, sem grandes
futuros, supostamente moldável e influenciável, parece mal menor que a todos convém,
enquanto se espera o pleito que virá. Mas a confusão política, já agravada com
o aumento nas cadeiras na Câmara, pode ir ao paroxismo, caso o TRE decida por
eleições diretas para mandato tampão.
A
cidade ancora dúvidas quanto ao amanhã na certeza de rejeitar retorno ao
passado. Há evidente lacuna de liderança. Em política, sem vigilância,
oportunistas se lambuzam no melado da vacuidade. Vivemos isso.
Majoritariamente, ao menos pelo voto, fomos cúmplices (desavisados e de boa fé,
mas cúmplices) do desgoverno que nos soterrou. Por isso, todo cuidado é pouco.
Em tempos de popularidade de vampiros e zumbis, indesejadas ressurreições podem
ocorrer. Ainda mais numa situação em que a maioria da população precisa somente
sobreviver.
As
primeiras chuvas se mostram e os primeiros oportunistas se esgueiram. Não há
quem tenha convivido com tragédia assim que não olhe para o céu sem franzidos
na testa e para as urnas sem o coração palpitando. Assim será nos próximos
anos, em que - sem prejuízo da fé e da esperança - 2011 seguirá, inacabado, cobrando
faturas, seus quase quatrocentos mortos a fraturar o calendário, de alguma
forma arrastados em nossa consciência. Por isso encerro com o que deve ser alerta
e bordão para sempre, em chuvas ou eleições: “Lembrai-vos de 12 de janeiro!”.
*.*

0 comentários:
Postar um comentário