GERAÇÃO
DE IDIOTAS
Numa
escola qualquer cometo a palestra para centenas de jovens. Quero acordá-los,
sacudi-los como se faz com o bêbado prestes ao abismo. Mostrar a destruição que
chega, rodamoinho insano de prazeres rasos e vazios. Olho bem nos olhos de cada
estudante. “Não conheço você. O que vou
dizer não se refere a você individualmente. Mas preciso revelar essa coisa que
vai deixar você muito chateado. Você... pertence a uma GERAÇÃO DE IDIOTAS!”
Perplexidade
aqui. Susto ali. Uma ou outra cara feia... Sigo: “E aí, não vão dizer nada? Vou
repetir: VOCÊS PERTENCEM A UMA
GERAÇÃO DE IDIOTAS!”. Apuro o ouvido na mão em concha. O protesto aumenta.
Insuficiente. Repito a frase, acrescendo: “Quero
vaia, gente! E quero a vaia mais grandiosa que vocês já deram a alguém!”.
Daí renovo a fala. Em algum momento, surge a vaia estrepitosa, catártica.
Satisfeito,
louvo a indignação, que é mãe da atitude. Peço que dêem exemplos de manchetes
sobre adolescentes nos dias de hoje. Silêncio. Após o gaiato que grita “Justin
Bieber!”, surgem falas tímidas: “Bulying!”, “Drogas!”. Logo se escancaram
brados de “Armas!”, “Sexo!”, “Pichação!”, “Suicídio!”. Vão aumentando para
incorporar o leque de malfeitos de que sua geração é autora e vítima. Duro autorretrato,
percebem. Deu-se o campo de trabalho para alcançar-lhes corações e mentes.
Com
histórias e argumentos, alerto sobre drogas, violência, consumismo, sexismo,
falta de autoridade familiar e escolar, e irresponsabilidade da geração que
inviabiliza escolas, cavando um mausoléu de futuros. Olhos se arregalam,
cérebros desacostumados pensam. Ao fim, resgato positivamente a energia do
início. Pergunto: “Escola Fulano de Tal, vocês são uma geração de idiotas? Sim
ou não?” Vem a coroação do esforço de convencimento, no grandíssimo e coletivo
“NÃÃÃOOOO!!!!”, bradado com o orgulho de jovens agora esclarecidos, caldo de
cultura necessário para que proliferem atitudes de reconstrução da paz no
ambiente escolar.
Há
quem reclame do estratagema discursivo. “Mas, rapaz, você chama o pessoal de
idiota!” Não! Provoco, com a constatação que, logo na seqüência, é reforçada
pela própria platéia. E a constatação não é só minha. Mark Bauerlein, professor
americano, foi mais longe no título do livro que escreveu sobre efeitos da
internet na mente de crianças e adolescentes: “A Geração Burra” ("The Dumbest
Generation"). Em seu “Indisciplina na Escola – Alternativas
teóricas e práticas”, Julio Groppa Aquino, na comparação com gerações
anteriores que, sucessivamente, acatavam, contestavam e propunham, refere-se
aos alunos de hoje como “surdos”. Içami Tiba, para tratar da relação juventude
e drogas, chamou a atual geração de “Anjos Caídos”. Blogs de jovens protestam contra a própria
geração, nominando-a “Geração de Babacas” ou “Geração de Panacas”. Já Clifford
Nass, professor americano de Stanford descreve a atual geração como a dos “Cérebros
de Pipoca”, distúrbio do excesso de vida digital que impede identificar o
relevante, se concentrar num livro ou reflexão mais profunda, ou fazer a
leitura de reações humanas reais, de relacionamentos presenciais. Educadores,
frente aos resultados do IDEB e no ENEM, denunciam o que está se constituindo
numa “Geração de Analfabetos Funcionais”.
Claro
que a juventude é vítima de circunstâncias dadas por gerações anteriores. A embriaguez
de pedagogias pseudo-libertárias levou a tolerâncias indevidas. Mas quando avisada,
essa juventude se torna cúmplice da própria desgraça. “Geração de Idiotas” parece
insulto. Apenas descreve o comportamento de quem abdica da inteligência ou
reflexão crítica, e cede corpo e alma cada vez mais cedo a desejos imediatistas
e autoritários. Típica alienação dos comandados pelo “Id” freudiano, sede dos
instintos primários do ser, o princípio do prazer.
Aos
adultos e à sociedade cabe acionar os freios, em defesa dos próprios
adolescentes. Ser para eles o córtex pré-frontal externo, que internamente ainda
não capacitou autocensuras necessárias. Ser para eles o Ego e o Superego que
impeça que andem na corda bamba, com a garrafa de vodka numa das mãos, tentando
acender a cannabis da outra mão, em
incêndios da irresponsabilidade. Tristes suicídios sorridentes.
Mas
preferimos ser “bacanas” com os jovens, num “mundo jovem”. Enquanto esticamos
rugas e pintamos cabelos, nos rendemos. Rendemos-nos ao sexo precoce, à
embriaguez e gravidez de crianças, às drogas da infância, à violência
epidêmica, às escolas sem paz. Rendemos-nos. Porque dizer “não” é incômodo,
impopular. Mas não dizê-lo é trágico. Nossa falta de autoridade e a
permissividade com o lixo midiático e eletrônico sexista e emburrecedor que é
vomitado no inconsciente coletivo é criminosa. Precisamos resgatar nossa
capacidade de indignação. Antes que nós, “geração de bacanas”, respondamos pelo
completo suicídio da “geração de idiotas”. Minha palestra provoca porque jovens
indignados são muito melhores que os idiotas. Indignados de todo o mundo,
uni-vos!
denilsoncdearaujo.blogspot.com

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