quinta-feira, 24 de novembro de 2011

GERAÇÃO DE IDIOTAS


GERAÇÃO DE IDIOTAS

            Numa escola qualquer cometo a palestra para centenas de jovens. Quero acordá-los, sacudi-los como se faz com o bêbado prestes ao abismo. Mostrar a destruição que chega, rodamoinho insano de prazeres rasos e vazios. Olho bem nos olhos de cada estudante. “Não conheço você. O que vou dizer não se refere a você individualmente. Mas preciso revelar essa coisa que vai deixar você muito chateado. Você... pertence a uma GERAÇÃO DE IDIOTAS!”
            Perplexidade aqui. Susto ali. Uma ou outra cara feia... Sigo: “E aí, não vão dizer nada? Vou repetir: VOCÊS PERTENCEM A UMA GERAÇÃO DE IDIOTAS!”. Apuro o ouvido na mão em concha. O protesto aumenta. Insuficiente. Repito a frase, acrescendo: “Quero vaia, gente! E quero a vaia mais grandiosa que vocês já deram a alguém!”. Daí renovo a fala. Em algum momento, surge a vaia estrepitosa, catártica.
            Satisfeito, louvo a indignação, que é mãe da atitude. Peço que dêem exemplos de manchetes sobre adolescentes nos dias de hoje. Silêncio. Após o gaiato que grita “Justin Bieber!”, surgem falas tímidas: “Bulying!”, “Drogas!”. Logo se escancaram brados de “Armas!”, “Sexo!”, “Pichação!”, “Suicídio!”. Vão aumentando para incorporar o leque de malfeitos de que sua geração é autora e vítima. Duro autorretrato, percebem. Deu-se o campo de trabalho para alcançar-lhes corações e mentes.
            Com histórias e argumentos, alerto sobre drogas, violência, consumismo, sexismo, falta de autoridade familiar e escolar, e irresponsabilidade da geração que inviabiliza escolas, cavando um mausoléu de futuros. Olhos se arregalam, cérebros desacostumados pensam. Ao fim, resgato positivamente a energia do início. Pergunto: “Escola Fulano de Tal, vocês são uma geração de idiotas? Sim ou não?” Vem a coroação do esforço de convencimento, no grandíssimo e coletivo “NÃÃÃOOOO!!!!”, bradado com o orgulho de jovens agora esclarecidos, caldo de cultura necessário para que proliferem atitudes de reconstrução da paz no ambiente escolar.
            Há quem reclame do estratagema discursivo. “Mas, rapaz, você chama o pessoal de idiota!” Não! Provoco, com a constatação que, logo na seqüência, é reforçada pela própria platéia. E a constatação não é só minha. Mark Bauerlein, professor americano, foi mais longe no título do livro que escreveu sobre efeitos da internet na mente de crianças e adolescentes: “A Geração Burra” ("The Dumbest Generation"). Em seu “Indisciplina na Escola – Alternativas teóricas e práticas”, Julio Groppa Aquino, na comparação com gerações anteriores que, sucessivamente, acatavam, contestavam e propunham, refere-se aos alunos de hoje como “surdos”. Içami Tiba, para tratar da relação juventude e drogas, chamou a atual geração de “Anjos Caídos”.  Blogs de jovens protestam contra a própria geração, nominando-a “Geração de Babacas” ou “Geração de Panacas”. Já Clifford Nass, professor americano de Stanford descreve a atual geração como a dos “Cérebros de Pipoca”, distúrbio do excesso de vida digital que impede identificar o relevante, se concentrar num livro ou reflexão mais profunda, ou fazer a leitura de reações humanas reais, de relacionamentos presenciais. Educadores, frente aos resultados do IDEB e no ENEM, denunciam o que está se constituindo numa “Geração de Analfabetos Funcionais”.
            Claro que a juventude é vítima de circunstâncias dadas por gerações anteriores. A embriaguez de pedagogias pseudo-libertárias levou a tolerâncias indevidas. Mas quando avisada, essa juventude se torna cúmplice da própria desgraça. “Geração de Idiotas” parece insulto. Apenas descreve o comportamento de quem abdica da inteligência ou reflexão crítica, e cede corpo e alma cada vez mais cedo a desejos imediatistas e autoritários. Típica alienação dos comandados pelo “Id” freudiano, sede dos instintos primários do ser, o princípio do prazer.
            Aos adultos e à sociedade cabe acionar os freios, em defesa dos próprios adolescentes. Ser para eles o córtex pré-frontal externo, que internamente ainda não capacitou autocensuras necessárias. Ser para eles o Ego e o Superego que impeça que andem na corda bamba, com a garrafa de vodka numa das mãos, tentando acender a cannabis da outra mão, em incêndios da irresponsabilidade. Tristes suicídios sorridentes.
            Mas preferimos ser “bacanas” com os jovens, num “mundo jovem”. Enquanto esticamos rugas e pintamos cabelos, nos rendemos. Rendemos-nos ao sexo precoce, à embriaguez e gravidez de crianças, às drogas da infância, à violência epidêmica, às escolas sem paz. Rendemos-nos. Porque dizer “não” é incômodo, impopular. Mas não dizê-lo é trágico. Nossa falta de autoridade e a permissividade com o lixo midiático e eletrônico sexista e emburrecedor que é vomitado no inconsciente coletivo é criminosa. Precisamos resgatar nossa capacidade de indignação. Antes que nós, “geração de bacanas”, respondamos pelo completo suicídio da “geração de idiotas”. Minha palestra provoca porque jovens indignados são muito melhores que os idiotas. Indignados de todo o mundo, uni-vos!

denilsoncdearaujo.blogspot.com

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