Gente
humilde ornava de fruteiras e hortas o pé daquele morro. Um verdor que municiava
feiras e verdureiros. Um dia o bairro nobre comeu a roça e os casebres pobres
foram despentear as encostas. O êxodo rural multiplicou proles e problemas na
favela-cidade. Grande e espremida, persistiu, abandonada, atordoante cartão
postal desfraldado por sobre o Túnel Dois Irmãos.
Na
história das nações, a contrapartida de renunciar armas e entregar vinganças ao
Estado, seria a certeza de receber segurança e serviços. Mas quando estes faltam
- e ele sempre falta aos excluídos - renasce a lei do mais forte. O crime governou
a Rocinha com armas e exércitos. Em modo torpe, dava serviços, empregos,
assistência social. Bandoleira desordem como ordem sem progresso. Como pôde?
Por
décadas, louvaram-se místicas do morro, a negritude e humildade que deu gênios.
A esse folclore, impactou o abuso: a polícia metendo a bota no barraco sem
pedir licença, a fim de esculacho e extorsão podia inibir Cartolas. Traumas da
ditadura no ar, folclore e abuso somaram no equívoco de que toda investida policial
devia ser coibida, em nome dos direitos dos moradores. Nesse complexo de culpa
social, o vácuo. E veio o tráfico explorar o rentável veio da conivência.
A
conivência bebia na necessidade dos bacanas do asfalto, de turbinar festinhas nas
drogas que a senzala morro ofertava. Hélio Luz, quando Chefe da Polícia Civil,
deixou claro - em “Notícia de uma Guerra Particular” decisivo documentário de João
Moreira Sales - que, para acabar com o problema da violência no Rio, ia ter que
meter o pé em casas-grandes de São Conrado e Ipanema. Alguém bancava?
Pôs
em termos exatos, como o fez Tropa de Elite: tráfico ocorre porque usuário
existe. E a conivência destes, especialmente nos “territórios livres” de
Ipanema, Leblon, Barra, etc., estimulava o tráfico lá em cima, enquanto fuzis
subiam o morro. Crueldade. Aos bem nascidos da Zona Sul carioca não bastava ser
elite dominante em sistema que entrega favelados à exclusão social. Pelo
consumo e sua louvação (cançõezinhas, marchas da maconha) entregaram-nos também
à condição de reféns do crime e deram às crianças os heróis errados.
Quando
o crime ficou antieconômico aos poderosos, fez-se o drama. Na tentativa de
retomada, houve excessos conhecidos, mas se tentava resgatar reféns. Os que
visam descriminalizar as drogas se valeram do risco inerente para pregar contra
a “guerra aos pobres”.
Mas
Beltrame, delegado federal gaúcho de ação firme e serena que o credencia à
sucessão governamental, pôs um nó na cabeça desse povo. A inteligência das
operações deixou claro, nas mansões de Nem, contra quem se dava a guerra. E se
tudo der certo, a ocupação de território resgatará aos moradores as regiões das
UPP’s, tirando força ao discurso de “guerra aos pobres”. O discurso pró-descriminalização
renascerá, não mais porque pobres morrem na guerra, mas pela oferta mais difícil
que vai encarecer o produto.
Suponho
ainda que se abrirão poços de contradições em todas as regiões “pacificadas”. Se
a área excluída se agrega à metrópole, isso implica partilhar legalidade e
serviços. Se o processo é sério, serão coibidas ligações clandestinas de luz,
água e TV, comércio de pirataria, etc. E aqui, além dos impostos que virão, a
coisa vai complicar.
Na Rocinha se verá disputa social interna.
Há já potencial para classe bem remediada, de donos de comércios e imóveis,
moradores próximos do asfalto, com capacidade de negociação frente às
autoridades. Há os que moram mais no alto, em piores condições e maior
fragilidade social. Estes, se a precariedade de moradia não impuser remoção – o
que será novo drama - demandarão serviços básicos e regularização de posse. Aqueles
buscarão implementos que otimizem albergues, lajes de reveillon, turismo de
favela. Governo de olho em Copa-Olimpíadas, pode acabar míope em questões de
justiça social e desequilibrar negativamente a balança em favor dos melhor
estabelecidos.
Garantir
governança democrática na Rocinha passará a ser imperativo, dando voz a todos
os segmentos. Se não, o jugo dos traficantes será simplesmente substituído pelo
econômico. Afinal, desigualdade perversa é inerente ao sistema capitalista. Hoje
“tsunamiza” a Europa por conta das fúrias do “mercado”, derrubando direitos e governos.
Voraz, o “mercado” não respeita fronteiras. E sabe que a Rocinha, sem tráfico,
se torna, antes de tudo, espaço econômico, portanto, espaço de exploração. Seu reinado.
A
conjugação UPP’s + Copa + Olimpíada, faz desembarcar estrangeiros aos magotes,
tornando o Rio caro para cariocas e proibitivo a fluminenses. Não duvido que
Berlusconi, esse defenestrado czar da imoralidade pública, títere da
desigualdade consolidada, prócere do mercado que agora o rejeitou, venha buscar
“bunga-bunga” em meio às novas fruteiras e hortas que, desejamos, renascerão na
Rocinha. Esse tipo de sujeito é sempre útil ao sistema. Mas que Berlusconis nunca
sejam bem vindos. Repitam comigo: “Jamais serão!”.
*.*
SIM AO NÃO – Eu e Marco Aurêh só divergimos no
direito de defesa do pichador. Ele o aceita no debate, em condições de
igualdade. Eu só o vejo possível na condição de réu, em processo próprio.
Brinco com o título da sua resposta (“Sim OU Não?”). Acho que hoje precisamos
muito dizer “Sim AO Não”. Abraço, Marco Aurêh. Estamos do mesmo lado.

0 comentários:
Postar um comentário