quarta-feira, 30 de novembro de 2011

BÊBADO DE 13 NA 16


BÊBADO DE 13 NA 16

            O Natal luzia nas árvores quando abençoada carona me entregou à Av. da Imperatriz, após palestra em Associação de Moradores. Na Irmãos D’Angelo, a mala aberta de um carro vomitava incômoda potência de trio elétrico. No relógio, 22:20 horas. Que silêncio nada! – deduzi dos jovens ruidosamente agregados no vapor barato aos adolescentes brincantes de álcool.
            Na 16 de março, mais tribos. Passou um carro tunado socando ouvidos. O rapaz de topete melado na testa cantava pneus, meu Deus! Bonés não escondiam menoridades com as mãos nas garrafas estupidamente geladas. Antigamente, frente ao infante arteiro aprontando na calçada, a gente perguntava: “Cadê a mãe dessa criança, meu Pai?”. Hoje, ninguém indaga nada. Engolimos a pergunta que devia ser grito.
            Esse quadro, mais as pichações na parede de fundos do saudoso cinema, e os miseráveis que principiavam a catação do lixo das lojas, davam moldura triste às reflexões pendentes da palestra em que, há pouco, perplexos pais me rogavam socorros.
            Cheguei em casa embebido de inquirições incômodas. A TV noticiava a criança morta atirada no bueiro pelo pai assassino e pela mãe cúmplice. Meu estômago terminou de embrulhar-se na capa desta Tribuna. “Adolescente cai na rua: suspeita é de embriaguez”. E vinha a descrição do incidente terrível. Um menino de 13 anos, “aparentemente embriagado”, achado no fim da manhã de segunda-feira, justo aonde? Na esquina das Ruas 16 de Março e Irmãos D’Angelo! Os socorros de lei não chegaram antes dos pobres avós. Cereja triste no bolo insano. Avós, nesses tempos de pais desnorteados e irresponsáveis, exercendo a paternidade/maternidade dos netos.
            Não quero aqui me referir ao caso específico. Como a lei requer, é menor de identidade desconhecida. Mas fico com o emblema. Sinal da problemática cruel, e signo da geografia abandonada. Temas que me vem convocando ao teclado e à fala: o drama da geração de crianças, adolescentes e jovens que – por omissão paterna, social e governamental – envenenados de mídias, se vão perdendo na ditadura de prazeres rápidos e perigosos, autoritárias máquinas de consumir e buscar sexo. Sou poeta, gostaria de algum devaneio que à poesia importa. Mas palavras me consomem com esse drama. Aguilhão que reparto.
            Sei das virtuosas obras de Padre Quinha, que vi de passagem. Conheço quantos apoiam e o ajudam. Mas espanta, cidade que assim reverencia o apóstolo ceder às ruas tantos jovens em situação de risco e ilicitude. Não adianta a Pastoral de Rua recolher miseráveis, se famílias permitem aos filhos menores de idade frequentar antessalas da miserabilidade moral, social e humana. Vésperas de sarjeta.
            Não poucas famílias lidam com tristezas e desgraças - gravidez precoce, aborto, dependentes químicos, multiplicidade de genros/noras do rodízio de enlaces do mesmo filho/filha, que torna impossível imaginar reuniões de família completas - decorrentes do afrouxamento parental e social que se reflete nas irregularidades observadas por toda a cidade. Sim, porque elas acontecem nas periferias, nos morros, em toda parte. Mas não se acabará com o que de errado ocorre na periferia se consentimos que o mesmo aconteça nessas ruas centrais que tornam tudo mais significativo.
            A Rua Irmãos D’Angelo, que eu saiba, homenageia grande família, de homens valorosos e exemplares. Não merecia virar, a um só tempo, em suas calçadas, irregular pista de skate ameaçando idosos que caminham, ponto de consumo de bebida por menores e corredor de bailes funks automotivos. Já a 16 de Março, que homenageia a data da certidão de nascimento da cidade de Pedro, não merecia dar escrita aos começos da certidão de óbito de uma geração. E tudo somado ao que acontece em frente à Câmara, que referi em outro artigo (“Resgatem o Gramado da Câmara”, disponível na Internet). Na palestra que mencionei ao início, um senhor me confidenciou a urgência recente em que teve que resgatar sobrinho embriagado, caído frente à águia.
            Acham-me radical. Mas erva daninha só se extirpa direito se vier com a danosa raiz. Muita coisa daninha, alienígena, pragas morais, cupins éticos, traças televisivas, urtigas consumistas, se esgueira dentro dos lares, se entranha nos pilares da sociedade, trincando constitucionais alicerces da fraternidade, igualdade, defesa da família e seus valores, proteção integral da criança e do adolescente. Precisamos ir ate essas raízes e higienizá-las.
            Com tais reflexões, fui dormir. Pouco. Logo cedo, deparei-me com o rapaz cheirando cola na calçada da... Rua 16 de Março! É como se a realidade não desse descanso. Veio-me este artigo.
            A rua linda, enfeitada, de lojas bonitas, com associação e tudo. Rua da moda, que dita moda. Que tal ditar respeito à lei e aos direitos e deveres de crianças e adolescentes? Que comerciantes, Guarda, Polícia, síndicos, governo, Conselho Tutelar, todos se mobilizem para dar fim à ilicitude cotidiana. Que, como fez São Paulo, a Câmara aprove lei (que ponha nítido o que já é claro!) para proibição da venda de bebida a menores. E, claro se não pode álcool, maconha não pode, e cola não pode. Que assim seja em todas as ruas. Que não varramos a sujeira para baixo dos tapetes da periferia.
            
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artigo para a Tribuna de Petrópolis
link da notícia da edição de 3ª feira da Tribuna

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