EVANGÉLICO
PROTESTO (II)
A
sociedade do espetáculo em que vivemos parece precisar desse tipo de
manifestação de suposta fé cheia de fogos de artifício, estádios cheios,
cantores pop-cristãos, padres galãs, parques de diversão com montanhas russas
de altura muita e reflexão pouca. Pastores começam a ser cobrados por
produtividade, precisam de rebanhos crescentes, senão os fiéis acham que a
igreja não faz “sucesso”. Afinal, o “evangelho” em voga não é o da
“prosperidade”? E “prosperidade” (“sucesso”) tem que ser também para a igreja.
Daí muitos líderes incautos ou inexperientes serem seduzidos para esse caminho
do sobrenatural de circo, do fantástico de ocasião. Poucos percebem que nem
todo sobrenatural é divino e que disso tudo resultam sincretismos nocivos
dentro de igrejas. Daí, um pulo pro descalabro.
Exemplos de descalabro. Numa TV
dessas com mil canais, dei o azar de ver trecho da transmissão de um programa
de uma igreja que se reivindicava ao mesmo tempo Evangélica e Templária (!?).
A
Igreja Mundial do Poder de Deus usa como símbolo a mesma logo (mãos abertas
segurando um globo terrestre) adotada pelo Bahaísmo, uma crença do Oriente
Médio, que, negadora do cristianismo, reivindica suposto sucessor de Maomé como
nova revelação divina.
Proliferam
igrejinhas esquisitíssimas: “Igreja Cristo é Show”, “Igreja Pentecostal do
Pastor Sassá”, “Igreja Evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo”, “Igreja
Evangélica dos Hinos Maravilhosos”, “Igreja Evangélica Pentecostal da Bênção
Ininterrupta”, “Associação Evangélica Fiel até Debaixo Dágua”, “Igreja
Evangélica Abominação à Vida Torta”, “Cruzada Evangélica do Pastor Waldevino
Coelho, a Sumidade”, “Igreja Automotiva do Fogo Sagrado”, “Igreja Batista
Incêndio de Bênçãos”.
Certa
igreja “evangélica” promove um tal de “Culto do Caixão”, em que o “fiel” leva
um papel com o nome dos seus inimigos e põe num caixão para pedir vingança a
Deus. Só faltava costurar na boca do sapo!
Lembro
de ter ouvido o Pastor Cidaco revelar do púlpito, que, em visita a uma cidade
em que iria pregar numa Igreja Batista, passou por uma faixa em que havia a
convocação aos obesos para uma “Corrente de Oração para Expulsar o Demônio da
Gordura”!
Há
dois anos foi preso em Manaus um casal da “Igreja Aliança Eterna” que pregava
dentro dos ônibus, incomodando passageiros de forma agressiva. Presos, viu-se
que o casal tinha passagem pela morte do próprio filho, que se chamava...
“Guarda os Dez Mandamentos da Silva Souza”! A criança morrera por desnutrição e
desidratação. Os pais alegavam que a ingestão de leite era proibida pela
religião.
Caco
Barcelos, no livro “Abusado”, sobre Marcinho VP (o primeiro), relata episódio
em que um “missionário” evangélico numa favela carioca, recebe informação de
traficantes justiceiros, logo após uma execução, de que, com o cano na cabeça
da vítima, fizeram-na antes “aceitar Cristo”.
As
danosas intervenções desses segmentos no campo da política, não precisam ser
detalhadas. São conhecidas. O entusiasmo do culto se transfere para a campanha
eleitoral, e o ato de fé se transmite ao voto, e daí ao mandato. Mas o
despreparo teológico leva ao despreparo político, que permite a queda em
armadilhas éticas, como, aliás, salvo engano, parece ter acontecido aqui mesmo,
em Teresópolis.
Enfim...
Sei que haverá trigo no meio desse joio. Mas o fato é que o que se externa é
palha muita e abissal engano. Multiplica-se confusão, religiosidade fácil e
interesseira, imediatista e de sincrética magia. Consistência doutrinária
magra, árvores sem raiz. O que, inclusive, atrapalha a defesa de causas muito
caras aos cristãos, como o combate ao aborto e a defesa da família. Tais
combatentes de débil argumentação e, muitas vezes, de comportamento desairoso,
ao lado de combatentes de real envergadura teológico-doutrinária, atrapalham estes
últimos, pois se tornam alvos fáceis para retaliações e acusações.
Mas
acho que começaremos a ver um amadurecimento. Pessoas que se converteram ou
que, ao menos, passaram a freqüentar igrejas no rastro do fenômeno do
entusiasmo neopentecostal, começam a migrar para igrejas tradicionais, em busca
de reflexão, consciência e amadurecimento. Muitos líderes de igrejas de “unção”
e “milagres” começam a perceber que algo foi longe demais e se sentem
desconfortáveis com o subproduto de suas ações do passado, que hoje frutificam
em descalabros e abusos.
Mas,
repito, amadurecimento haverá. Li em algum lugar que o IBGE divulgará, após
tempos de espantoso crescimento dessas denominações neopetencostais e retração
ou crescimento estacionário das denominações tradicionais (batistas,
presbiterianos, etc), a inversão desses números. Analistas tributam esse
fenômeno, ainda a ser especificado em seus dados, ao acesso das camadas
populares ao mercado de consumo, diminuindo a eficácia do discurso do
“evangelho da prosperidade”. Vamos ver.
Da
minha parte, nunca é tarde para lavrar-se um protesto. E aqui, com muito
respeito pelos fiéis de todos os segmentos, o deixo consignado,
evangelicamente, como um alerta, nunca como um insulto.
Até
porque a situação de descalabro em que vivem crianças e adolescentes nesse
país, com as famílias desmilingüidas, sem pai e sem autoridade, as escolas à
beira de um ataque de nervos, e espaços públicos invadidos pelos abusos de
adolescentes e contra adolescentes, só será revertida quanto se recuperarem
certos valores. O sagrado, senso do que é separado, do que é santo e merece reverência
e devoção, é um deles. E, neste campo, não consinto com a avacalhação.
*.*
HIGINO, 85 ANOS! -
Deixo aqui, atrasado, meu beijo à Profª. Adriana Coutinho, Diretora do Higino
da Silveira em Teresópolis, à sua equipe diretiva e docente, e ao combativo corpo de alunos,
que conta com a Presidente do CJ, Ana Clara Pedrosa, além de um grêmio
dinâmico. Parabéns a todos, e muito sucesso nos próximos 85 anos!

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