EVANGÉLICO
PROTESTO (I)*
Denilson Cardoso de Araújo
* Não deixe de ler o post seguinte -
EVANGÉLICO PROTESTO (II),
que completa o presente
EVANGÉLICO PROTESTO (II),
que completa o presente
Por
decisão pessoal, de cuja precocidade desconfiaram muito justamente família e
pastores, fui batizado na Primeira Igreja Batista de Petrópolis aos seis anos
de idade. Mas foi decisão sincera, e consciente. Entretanto, já há muitos anos
me identifico, quando me perguntam sobre religiosidade, como “cristão,
batista”. Rejeito dizer-me “evangélico”. E como batistas não têm exatamente
origem definida na Reforma, não adoto o qualificativo “protestante”. O
interessante é que - embora seja um crente, de testemunho errático e imperfeito
- sempre me pautei pelos Evangelhos, que leio diariamente. Além disso, parece
que nasci para protestar, vocês sabem. Logo, nada demais se eu me quisesse “protestante-evangélico”,
não é? Mas não.
Algumas
coisas têm descido ao absurdo nesse meio. Não bastasse um só agora atenuado conservadorismo
desinformado das denominações tradicionais (que criaram dogmas intransponíveis,
constrangimentos de vigilância comportamental e humilhações farisaicas), surgiram
nas ondas neopentecostais miríades de ritos e feitos de efeitos esquisitos e
duvidosos. Onde muitos enxergaram avivamentos, aconteceram trapalhadas, quando
não meras vigarices.
Não
desconheço que a Bíblia informa que “até pedras clamariam”, e que, por isso,
Deus pode dar-se a conhecer das formas e pelas ferramentas mais estranhas, renovando
até o uso da mula de Balaão, quem sabe? Mas isso não deve obstar a expressão
dos incômodos com o que parece exagero e equívoco. E muitas coisas, travestidas
de fervor evangélico, incomodam.
Sacos
de dinheiro nas costas de obreiros, em cultos públicos de ofertório, me
incomodam. Pastores que têm jatinhos particulares me incomodam. Leilões de
milagres, com estabelecimento de cotas de contribuição, metendo-se etiquetas de
cifrão na fé das pessoas, me incomodam. Gente que instrui botar copos de água
ou rosas consagradas sobre a TV, para “energizar” preces, me incomoda. “Bispos”
que vendem água do Rio Jordão para abençoar pessoas me incomodam.
Aliás,
me incomoda a plêiade de titulações autoinstituídas, pouco humildes, dos “bispos”
(e “bispas”), “missionários”, “patriarcas” e “apóstolos”. Gente que acha que
por orar na montanha conhece Deus mais “tremendo” do que os não vocacionados
para alpinistas, me incomoda. “Louvorzão” aeróbico me incomoda. Som absurdamente
alto na igreja, com as congregações desaprendendo o canto coletivo e modulado,
me incomoda. Constranger anciãos a cantar canções de que não gostam, batendo
palmas sem que se sintam à vontade, acuando-os com um modo de culto estranho
que os deixa saudosos dos velhos hinos de batalha da igreja, me incomodam.
Cantores gospel que andam cercados de seguranças e vendem discos nos saguões de
igreja me incomodam. A importada expressão “gospel”, onde cabe de tudo, me
incomoda.
Pregadores
mirins, “michael-jacksons-do-evangelho” que perdem infância em “ministérios”
precoces, me incomodam. “Namoros santos” com longos compromissos prévios de
oração, que apenas fazem perigoso represar de libido, me incomodam. Ministérios
da dança, que carnavalizam cultos com toscas coreografias, me incomodam. Dar
excessivo crédito e autoridade ao diabo por tudo que ao crente acontece de
dano, doença, erro, acidente ou equívoco, me incomoda. “Apropriar-se da benção”
(que nada mais é do que tentar dar ordens a Deus) me incomoda. Achar que
eventual pobreza, enfermidade, casamento desfeito ou emprego perdido é sempre falta
de fé, me incomoda. Ministérios de louvor que falam gemidamente frases feitas entre
cânticos, me incomodam. A “unção do riso”, em que a suposta expressão do
Espírito se dá por gargalhadas coletivas e incontroláveis, me incomoda. O
desfilar de gente curada de caroços ou de tumores, para logo após se pedir
contribuições financeiras, me incomoda. Os cultos em que a leitura da Palavra e
a fala do pregador se reduzem a cinco minutos, por conta dos shows prévios e
avisos intermináveis, me incomodam.
Existe
uma abdicação da razão, confundindo fé com misticismo, e fervor com fervura, quando
a Bíblia, embora mencione que o Espírito intercede por nós em “gemidos
inexprimíveis”, fala claramente em “culto racional”. O Apóstolo Paulo não abre
mão de que o culto deve edificar (erguer, construir, fundamentar) para, o que indispensável
é seja compreensível.
Mas
hoje temos cultos (e missas!) em que pessoas caem, em que pessoas pulam, em que
pessoas dizem coisas “inexprimíveis”, e em que se produz, a título de
glossolalia, fala supostamente de anjos, mas que muitas vezes é jargão silábico
repetitivo que nada significa, a não ser que a pessoa se pretende mais
espiritual que a outra, à qual não foi concedido o mesmo “dom”. Hierarquias
“espirituais” assim se criam. Mas cansei de ver o sujeito que arenga em línguas
aqui, sonegar o imposto ali, ou não assinar a carteira da empregada acolá.
(continua no próximo POST)
*.*
FUNK GOSPEL – Na verdade, não saio de meu tema
mais freqüente com esta coluna: crianças e adolescentes. Realizei recentes 40
palestras em escolas, num prazo de 20 dias, para todo tipo de audiência: pais,
professores e alunos. Como de hábito, tento impactar escolas para que caminhem
na direção do que denomino “Escola da Paz”. E me surpreendi ao fim de uma
palestra com a menina que me procurou para revelar-se evangélica e dizer de
seus bons propósitos de empenho pela paz, fim do bulying, etc. Problema: Pouco
após nosso papo vi que ela teve o celular tomado, pois o usava, contra a regra
da escola, e para ouvir funk! E logo “Os Havaianos”!
Trata-se de um bando de meninos de comunidades do Rio, que alcançaram sucesso nesse
absurdo ramo carioca do pornô-funk que hoje nos atormenta, agora sob o equívoco
legal de “manifestação cultural legítima”, patrocinado por Marcelo Freixo e
Wagner Montes. Dos Havaianos é o hit “Novinha Tu Me Seduz”, que tem na sua
letra, além de muitos gemidos de “ai ai ui ui”, um coral de meninas que revela
“Eu quero ‘#>/+$*’ com três”, e que “quer ‘#>/+$*’ na boca, na
‘#>/+$*’ e no ‘#>/+$*’”! E pelo que pude ver, o fenômeno é corriqueiro. A
citação dos Havaianos despertava suspiros, até que percebiam que, na verdade,
eu produzia vigoroso alerta contra os produtos culturais que erotizam
precocemente nossas crianças. Mesmo as meninas das igrejas não estão percebendo
o dano desse tipo de “arte” pedófila. Pior, existem artistas de funk “gospel”.
Confusão maior não pode existir. Daí, essa coluna e sua seqüência.

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