terça-feira, 11 de outubro de 2011

EVANGÉLICO PROTESTO (I)


EVANGÉLICO PROTESTO (I)*
           Denilson Cardoso de Araújo

* Não deixe de ler o post seguinte - 
EVANGÉLICO PROTESTO (II), 
que completa o presente

            Por decisão pessoal, de cuja precocidade desconfiaram muito justamente família e pastores, fui batizado na Primeira Igreja Batista de Petrópolis aos seis anos de idade. Mas foi decisão sincera, e consciente. Entretanto, já há muitos anos me identifico, quando me perguntam sobre religiosidade, como “cristão, batista”. Rejeito dizer-me “evangélico”. E como batistas não têm exatamente origem definida na Reforma, não adoto o qualificativo “protestante”. O interessante é que - embora seja um crente, de testemunho errático e imperfeito - sempre me pautei pelos Evangelhos, que leio diariamente. Além disso, parece que nasci para protestar, vocês sabem. Logo, nada demais se eu me quisesse “protestante-evangélico”, não é?  Mas não.
            Algumas coisas têm descido ao absurdo nesse meio. Não bastasse um só agora atenuado conservadorismo desinformado das denominações tradicionais (que criaram dogmas intransponíveis, constrangimentos de vigilância comportamental e humilhações farisaicas), surgiram nas ondas neopentecostais miríades de ritos e feitos de efeitos esquisitos e duvidosos. Onde muitos enxergaram avivamentos, aconteceram trapalhadas, quando não meras vigarices.
            Não desconheço que a Bíblia informa que “até pedras clamariam”, e que, por isso, Deus pode dar-se a conhecer das formas e pelas ferramentas mais estranhas, renovando até o uso da mula de Balaão, quem sabe? Mas isso não deve obstar a expressão dos incômodos com o que parece exagero e equívoco. E muitas coisas, travestidas de fervor evangélico, incomodam.
            Sacos de dinheiro nas costas de obreiros, em cultos públicos de ofertório, me incomodam. Pastores que têm jatinhos particulares me incomodam. Leilões de milagres, com estabelecimento de cotas de contribuição, metendo-se etiquetas de cifrão na fé das pessoas, me incomodam. Gente que instrui botar copos de água ou rosas consagradas sobre a TV, para “energizar” preces, me incomoda. “Bispos” que vendem água do Rio Jordão para abençoar pessoas me incomodam.
            Aliás, me incomoda a plêiade de titulações autoinstituídas, pouco humildes, dos “bispos” (e “bispas”), “missionários”, “patriarcas” e “apóstolos”. Gente que acha que por orar na montanha conhece Deus mais “tremendo” do que os não vocacionados para alpinistas, me incomoda. “Louvorzão” aeróbico me incomoda. Som absurdamente alto na igreja, com as congregações desaprendendo o canto coletivo e modulado, me incomoda. Constranger anciãos a cantar canções de que não gostam, batendo palmas sem que se sintam à vontade, acuando-os com um modo de culto estranho que os deixa saudosos dos velhos hinos de batalha da igreja, me incomodam. Cantores gospel que andam cercados de seguranças e vendem discos nos saguões de igreja me incomodam. A importada expressão “gospel”, onde cabe de tudo, me incomoda.
            Pregadores mirins, “michael-jacksons-do-evangelho” que perdem infância em “ministérios” precoces, me incomodam. “Namoros santos” com longos compromissos prévios de oração, que apenas fazem perigoso represar de libido, me incomodam. Ministérios da dança, que carnavalizam cultos com toscas coreografias, me incomodam. Dar excessivo crédito e autoridade ao diabo por tudo que ao crente acontece de dano, doença, erro, acidente ou equívoco, me incomoda. “Apropriar-se da benção” (que nada mais é do que tentar dar ordens a Deus) me incomoda. Achar que eventual pobreza, enfermidade, casamento desfeito ou emprego perdido é sempre falta de fé, me incomoda. Ministérios de louvor que falam gemidamente frases feitas entre cânticos, me incomodam. A “unção do riso”, em que a suposta expressão do Espírito se dá por gargalhadas coletivas e incontroláveis, me incomoda. O desfilar de gente curada de caroços ou de tumores, para logo após se pedir contribuições financeiras, me incomoda. Os cultos em que a leitura da Palavra e a fala do pregador se reduzem a cinco minutos, por conta dos shows prévios e avisos intermináveis, me incomodam.
            Existe uma abdicação da razão, confundindo fé com misticismo, e fervor com fervura, quando a Bíblia, embora mencione que o Espírito intercede por nós em “gemidos inexprimíveis”, fala claramente em “culto racional”. O Apóstolo Paulo não abre mão de que o culto deve edificar (erguer, construir, fundamentar) para, o que indispensável é seja compreensível.
            Mas hoje temos cultos (e missas!) em que pessoas caem, em que pessoas pulam, em que pessoas dizem coisas “inexprimíveis”, e em que se produz, a título de glossolalia, fala supostamente de anjos, mas que muitas vezes é jargão silábico repetitivo que nada significa, a não ser que a pessoa se pretende mais espiritual que a outra, à qual não foi concedido o mesmo “dom”. Hierarquias “espirituais” assim se criam. Mas cansei de ver o sujeito que arenga em línguas aqui, sonegar o imposto ali, ou não assinar a carteira da empregada acolá. 
(continua no próximo POST)


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FUNK GOSPEL – Na verdade, não saio de meu tema mais freqüente com esta coluna: crianças e adolescentes. Realizei recentes 40 palestras em escolas, num prazo de 20 dias, para todo tipo de audiência: pais, professores e alunos. Como de hábito, tento impactar escolas para que caminhem na direção do que denomino “Escola da Paz”. E me surpreendi ao fim de uma palestra com a menina que me procurou para revelar-se evangélica e dizer de seus bons propósitos de empenho pela paz, fim do bulying, etc. Problema: Pouco após nosso papo vi que ela teve o celular tomado, pois o usava, contra a regra da escola, e para ouvir funk! E logo “Os Havaianos”! Trata-se de um bando de meninos de comunidades do Rio, que alcançaram sucesso nesse absurdo ramo carioca do pornô-funk que hoje nos atormenta, agora sob o equívoco legal de “manifestação cultural legítima”, patrocinado por Marcelo Freixo e Wagner Montes. Dos Havaianos é o hit “Novinha Tu Me Seduz”, que tem na sua letra, além de muitos gemidos de “ai ai ui ui”, um coral de meninas que revela “Eu quero ‘#>/+$*’ com três”, e que “quer ‘#>/+$*’ na boca, na ‘#>/+$*’ e no ‘#>/+$*’”! E pelo que pude ver, o fenômeno é corriqueiro. A citação dos Havaianos despertava suspiros, até que percebiam que, na verdade, eu produzia vigoroso alerta contra os produtos culturais que erotizam precocemente nossas crianças. Mesmo as meninas das igrejas não estão percebendo o dano desse tipo de “arte” pedófila. Pior, existem artistas de funk “gospel”. Confusão maior não pode existir. Daí, essa coluna e sua seqüência.

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