sábado, 12 de março de 2011

MEDITAÇÃO JAPONESA (Teresópolis-Japão)

Um país improvável. Milhares de ilhas vulcânicas unidas em torno do sol nascente, à sombra do Monte Fuji. As escarpas de montanhas empurrando a imensa e próspera população para as beiradas de praia. Um país que treme todo dia. Precisou aprender engenharias de molas no concreto dos prédios. Construiu-se no erro e na adversidade. Sofreu de xenofobia, fechando-se ao mundo; depois sofreu fascismo imperialista, juntando forças a Hitler e empurrando suas insanas botas kamikazes pelo Pacífico. Duas bombas atômicas no currículo, resultaram num país de joelhos, humilhado com a ocupação americana, mantida piedosamente a combalida monarquia.

Mas deu a volta por cima, democratizou-se, industrializou-se, aproveitou as idéias das eficiências planejadas que os americanos levaram como refugos não aproveitados em seu próprio país. Deu certo, reciclaram as idéias de Tio Sam, e deram um balão na indústria americana, sufocando-a com a qualidade imbatível. Um país sobrevivente.

Mas eles tem cerejeiras. E, SAKURA, elas dão floradas. Essas floradas que nos levam a lembrar o que tem sido muito repetido: "Em caracteres Kanji usados tanto no chinês quanto no japonês, "crise" é escrita com dois símbolos, o primeiro significa "perigo", o segundo "oportunidade"."

Agora que observamos pasmos, aterrados, as imagens de terror que nos chegam pelo satélite, só podemos orar pelo renascimento, pelo poder de superação, pela bondade solidária que socorre os massacrados.

Mas podemos também reaprender humildades. Em Teresópolis, dissemos, tivemos um tsunami de lama, e é assustador, ainda, passar pelas nossas montanhas desnudas, mostrando ossos de rochas descarnadas, lembrando torvelinhos que engoliram corpos ainda hoje escondidos em profundidades inalcançadas.

Mas observando as ciclópicas ondas, inacreditáveis massas de água, entulhos, carros, casas, tratores, prédios, navios, envoltos num redemoinho e mexidos como brinquedos de garoto numa pia, percebemos que é preciso refinar ainda mais as lentes da nossa arrogância estúpida, e descobrir que somos ainda menores do que pensávamos. Porque o tsunami japonês é mais terrível que o tsunami serrano.

Redescobrir nossa pequenez, nessa hora, é nossa maior força. E depois disso feito, descobrir que ainda menores somos, microscópicos, é subir de estágio. Esta, a oportunidade dentro da crise. Esta a cerejeira que flora. A solidariedade dos humildes, as mãos dadas dos pequenos. Deus presente nos que se ajoelham e oram porque descobrem que o mundo se move e a terra que pisamos flutua no fogo. É fugaz. As ondas a comem.

No mais, deixo a fé e a esperança. Que vençamos mesquinharias que nos enraizam na maldade, na inércia, na destruição do meio ambiente, no egoísmo consumista, no descaso pelo outro, na arrogância contra os humildes, na busca do prazer insano.

O mundo é breve. A vida é curta. Deus é Eterno. NEle, eternos seremos.

*.*

APROVEITO PARA RECOMENDAR UM GRANDE FILME QUE VI RECENTEMENTE. É chinês, mas serve bem ao caso e à meditação de agora. "Separados pelo Destino", conta a história de um terremoto de apenas 23 segundos que destruiu a cidade chinesa de Tangshan, em 1976. Dois irmãos são separados, porque em dada altura da tragédia a mãe tem que decidir qual dos dois viverá, pois o socorro só pode ser dado a um deles. A "escolha de Sofia", sempre presente no dia a dia, e sempre terrível. Daí vem a saga de separação e dor de uma família, mas tendo como pano de fundo a luta de uma cidade para se reerguer, os aprendizados da tragédia, a formação de equipes de prevenção e socorro, a solidariedade que se organiza. Vale a pena pra quem viveu o tsunami serrano e pra quem observa a tragédia japonesa agora.

0 comentários:

Postar um comentário