quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PRESÉPIO - poema constante de "Alegria de Boa Lavra"


PRESÉPIO

Ele entrou, se arrastando, encurvado,
pelo corredor central do susto da igreja modesta.
Trazia a barba empapada de um branco empanado
e encimava a face obscura com
o olho perolado de mágoa esperança.
O enrustido sino vinha na mão grossa
calada em badalos.
Tinha a velha bota peneira e rangente, e
a manta tramada em dezembros furados,
encardida de milhões de distantes vermelhos...
Sua sacola o seguia, repleta de falidos agrados.
Cheirava a sidra barata e saudades antigas.
Tinha na mão uma boneca sem braço,
um urso maneta, com olho azul de botão despencado.
Trazia cinco carrinhos descalços, trincados de hérnias do tempo.
Chapinhava seus pés beduínos no rubro carpete
de friso dourado,
debaixo do olho assombrado de sorrisos guirlandas
da igreja apinhada.
Era a hora do Auto das crianças.
A graciosa Maria de enroscadas chiquinhas
acabara de pousar na manjedoura o Menino.
Soava o despencar do isopor da asa laminada.
Era o sardento arcanjo
cujo asseio assoava o salão do nariz para a festa.
José mascava o algodão descolado da barba,
empurrando com o torto bambu do cajado
o rei mago que toda a mirra de lego enfezado entornara...
Foi quando Papai Noel, cansado de Islândia,
Coca-Cola e sinetas de shopping,
Nicolau em pessoa,
entrou com suas botas no estupefato palco
com as auras de um estranho sagrado.

Ajoelhou-se ao lado do boneco mulato
que fazia as vezes do Deus pequenino,
como fosse um rei mago que emergia atrasado.
Tirou do saco, contrito, seus brinquedos ralos,
e buscou no peito seus sentimentos mais vastos.
Colheu do olho a pérola do seu coração escorrido
Foi colocando, peça a peça, com jeito e apuro,
tudo sob os pés do Menino... e i cou ali,
como a carne viva da oração mais sincera,
entre anjos nanicos,
entre pastores de lençol com barbante e crepom,
com bezerros de guache e cartolina,
i cou ali, debaixo da
estrela dourada de papel laminado,
inundando a igreja na glória da estranha humildad
na luz que atravessava sua alma i na,
um celofane de ventos embrulhando
a fé do seu coração prateado.
Ficou ali, e Jesus, num sorriso, do presépio,
com duas asas o ungiu.
Da janela ele voou pela noite,
acariciando a Lua,
branquejando as nuvens,
enquanto o povo se apinhava nas sacadas
e as crianças pulavam pelas ruas,
vestidas de pastores,
de anjos, de santos,
até que no horizonte, indiferente à algazarra,
ele sumiu.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

ALEGRIA DE BOA LAVRA - Obrigado!



Agradeço muito a todos que prestigiaram as tarde/noite de autógrafos do meu novo livro. Livro é um filho. Este, de gestação demorada. Assim, ir ao lançamento é como ir visitar o bebê na maternidade. Coloquei sapatinhos na porta. Distribuí lembrancinhas. Estávamos prosas, eu e minha amada.

E muitos bons amigos apareceram lá na Livraria Impressões em Petrópolis, e no SESC Teresópolis. Bacana a leitura de textos, o ambiente, a comida, a música, alegria. De boa lavra, certamente.

Aliás, o nome já deu confusão. Muita gente achou e anunciou o livro como "Algeria de Boa Palavra". Mas é de "Boa Lavra" mesmo. E lavra, aqui pode ter o significado que vc quiser (lavra de minério, lavra de lavoura, lavra de escritura, o que for). Importante é prevalecer o sentido de"boa origem", bom berço, legitimidade. Esta, a minha alegria com essa obra.

Obrigado por permitir-me reparti-la com vc. O livro está aí, nas Livrarias de Petrópolis (Impressões e Vozes) e Teresópolis (Clube Cultural e Littera). Semana que vem estará na Palabrador, de Três Rios, e Da Vinci, no Rio. Está nos sítios na internet, da Editora All Print e da Livraria Martins Fontes. Em breve, na Nobel, Saraiva e outras.

Segue abaixo o poema que dá nome ao livro:

ALEGRIA DE BOA LAVRA


Alegria de boa lavra
principia branda.
Como a fina ruga em
mar de abismo,
que propicia a onda.


Boa safra de alegria
principia é mansa.
Qual faísca miúda
em lenha seca,
quando o estalo
profetiza a chama.


Alegria de boa bica
principia em gota.
Como a aurora
em breu da noite, cora
em sangues
sua boca lâmpada.


Berço airoso à alegria
principia em ovo.
Como novo riso
em névoa inscreve
que habita a boca.


Alegria de boa estirpe
principia é broto.
Assim, a estrela em que
a primavera faz-se estreia.
Humo sigilo roto
tira à muda em toco
o arco-íris pétala que
acarreta à terra gozos.


Desconfiado é que vejo
insolente alegria que, ainda soleira,
extremada ou bastante
se promete salão e palácio anuncia.
Não há rumorosa cascata
que origem não tenha
em paciência de pingo.
Nem gargalhada existente
que antes não tenha,
um pouco Gioconda em recatos,
se feito a partir do hesitante sorriso.

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