CURTA

domingo, 28 de junho de 2009

MICHAEL JACKSON - A TRAGÉDIA DA CINQUENTENÁRIA CRIANÇA


Aquela criança pobre teve a infância roubada. Este é o resumo. Havia trabalho escravo, ensaios de quinze horas, mas havia confeitos, festas, brinquedos... o menino se conformava, sem perceber o quando sua vida lhe era arrancada. Havia ensaio-tortura e palco, ah, mas havia aplauso e circo... o menino se conformava. Daí descobriu-se capaz de voar e foi longe, foi alto, foi até onde ninguém jamais tinha ido. Pôs elástico nos ossos, pôs cristais na garganta... mastigou dez tamborins e vinte banjos. Virou um band man. Mascou na alma um chiclete de Elvis, Fred Astaire e Peter Pan. Tinha mil faces, mil nomes, codinomes. Pássaro enluvado e prateado.


Quando viu, tinha 30 anos. Assustado como um menino-lobo que chega ao mundo civilizado, como um Kaspar Hauser largado na praça... Não percebia bem certos códigos, não se conhecia no espelho, não sabia bem a que sexo pertencia. A fase da descoberta havia passado. Mas, como criança, dormia com crianças. As acariciava, criança grande, curioso, brincando atrasado. Só que agora o que em infância seria só um preocupante brinquedo tinha nome abjeto e era objeto penal.


Casou-se, a sociedade pedia, e como tudo em sua vida, simbólico foi o primeiro casamento. O Rei do Pop recebia no altar a herdeira do Rei do Rock, Lisa Presley, a filha de The Pelvis. Nada mais adequado. Mas foi só um brincar de casinha... Não menos significativo, o casamento seguinte: a alma doente escolhe a enfermeira, a que prestava cuidados...


Logo viu-se: o filho pendurado na janela do hotel, o horror, o horror de quem via, mas se esquecia que ele mesmo fora cedo pendurado na janela da mídia, sacudido pelas exigência de um déspota paterno. A família precisava comer. O menino prodígio bailava. Encantava. Andava ao contrário, aquele menino. Isso devia já dizer tudo. E, mais ainda, andava na lua... moonwalker que era. Cavaleiro da lua. Príncipe da ilusão. Foi morar num parque de diversões. Era rico, agora. Trazia o acervo dos Beatles na mão. Era alto, agora. Tinha o mundo como chão.


Mas como a toda criança que sobe em lugar muito alto, surge forte a queda inerente, sua aptidão. Vem outro filho, e o pai desastrado, que boa paternidade não vira, opta pela inseminação. Simbólico, novamente, filho de incubadeira que era. Frango engordado para o abate do espetáculo.


Houve a doença estranha, a dúvida sobre sobre o vitiligo, a acusação sobre a raça negada... Vitiligo assim, ele não sabia, dá é na alma, coração que logo descora... assim são crianças da vida infante precocemente arrancadas. Vieram então os véus, as máscaras, as burcas, os esconderijos... Como a criança que se esconde depois de flagrada, se esconde debaixo da cama, dentro da arca, se esconde.


Quando viu, tinha meio século, o menino. Vieram denúncias. O povo cobrava do adulto de corpo, o adulto de alma que, ali, simplesmente não havia. A criança, por trás daqueles olhos, daquela pele alva, assustada, espreitava. Tinha medo dos bichos no sótão, tinha pânico e vertigens nos pés. Aparece um dia, na TV, algemado. Ninguém viu, mas lá estava aquele negrinho que cantava "Ben", ali, agora, com uniforme militar de palco, algemado, o menino, algemado e assustado, porque brincara atrasado.


Acordos, aproveitadores, sensacionalismo... a criança: acuada!


Meio século. O rosto deformado. O garoto a quem o falar do pai tornara um complexado ("Como você é um negro feio, meu filho"), reagia, mascarando a inexistente feiúra numa máscara que podia ser usada num palco, em Eurípedes, uma tez grega, uma parca negra, um ser que arrasta seus ossos por Atenas noturna, arrasta sua alma, arrasta sua alma, a criança envelhecida, e chora.


Shakespeare não obteria um tal roteiro, Sófocles jamais o adivinharia. Sócrates, apenas o indagaria.


O gênio menino, amaldiçoado. Como no poema de Pablo Neruda, em que a sereia, pura, bela, linda, nua, sai do rio e, desavisada, entra no cabaré. Está nua. Os homens sebentos de álcool não entendem. Apalpam-na, queimam-na com cigarros, confundem sua inocência com torpeza e a massacram... Até que a sereia, inchada, machucada, com a ingenuidade amarfanhada, foge e se devolve ao rio, com suas interrogações sangrando a dor das eternidades.


A tragédia da criança sem infância, é o que fica. Michael não seria menos gênio se o pai aguardasse o fruto amadurecer. Se lhe permitisse um sábio, pausado, saudável crescer. Criança que não brinca, é criança triste. Vai depois brincar na vida, quando o perigo já existe.


A tragédia da criança sem afeto, é o que fica. Michael seria ainda mais gênio, caso viesse o afeto paterno, a paciência, a renúncia! Sim, porque se tratava de renunciar ao dinheiro, ainda que o de matar fomes. Não pode uma família comer às custas da morte de um filho. É canibalismo afetivo, cruel, sequer ritual. Como o pai que bota a criança vendendo bala no sinal, ou mendigando na praia. Ou que a vende ao bordel, e, neste caso, ao bordel do espetáculo, que paga bem, mas cobra sempre mais caro.


A tragédia do ser que, sem pai adequado, bom pai não será, é o que fica. Michael não tinha como saber paternidades, afetos, cuidados... Não importa o que se diz aos nossos filhos. Importa o que realmente fazemos. É o que guardam.


A tragédia do tempo nunca recuperado. Os 50 shows de retorno não realizados são como os 50 anos que não podem ser retornados. O berço, foi-se. O brinquedo, inexistiu. O afeto, morreu. O pai, abusou do menino. As cicatrizes estavam todas à tona, sangrando, o tempo todo. Mas o que a mídia queria era espetáculo. Que grande morte, agora têm, para seus horrendos cardápios!


Em cada favela, em cada condomínio bacana, em cada esquina, há Michaels viventes e projetados. Estes, os meninos empurrados à batalha da vida, da fome, do pão, atacados pelo sexo predador e precoce. Aqueles, adultos já, tortuosos, tortos, estragados, porque adultos mal formados, porque arrancados cedo demais do ovo, carregam até agora um pedaço de casca na orelha, uma sede de leite materno, um afago paterno que não veio e lhes falta, como falta... dói no peito essa lacuna que clínica nenhuma descobre.


Que a morte de Michael Jackson, cujo coração de menino parou, nos leve à reflexão sobre a imperativa necessidade de preservar em seu casulo, no tempo certo, a infância. A juventude. Para que quebrem a casca com suas próprias asas, no tempo certo. No tempo certo. É o que manda a Constituição, é o que prega o ECA. É o que ensina a tragédia!
*.*.*

terça-feira, 23 de junho de 2009

GENTE QUE AJUDA


----Gente assim, toda mão estendida.

----Uma face de sol. Um sorriso de água. Um gorrinho de esperança. Uma flor no cabelo.

----Uma palavra de acordar matinas.

----Uma barra de cereais-palavras, sempre no bolso, pra alimentar corações caídos.

----A confiança no horizonte... além mar, elas apontam, a ilha do amanhã... a pessoa não vê, mas confia. E daí partimos, com nossos navios da esperança.

----Gente assim.

----Um telefonema que não se esperava, na hora difícil. Não foi à tua festa, que importa? Visitou a tua dor. Vale mais.

----Gente assim, que vê nosso tatear e fala: como andas bem! Que vê nosso gaguejo e diz: que belo discurso! Mentiras brandas, mentirinhas brancas, de levantar amanhãs.

----Gente assim.

----Que não vê a poeira em nossa casa, mas elogia a disposição dos móveis, descobre ali uma geometria e uma gentileza, que ninguém mais vira.

----Gente assim.

----Que na terceira visita, quando a gente não tirou a poeira, muda a disposição dos móveis, a mesma que elogiara, mas que - essa pessoa sabe - estava nos matando por excesso de conforto. Daí, levantamos, tiramos a poeira.

----Gente assim. Que nos quer como somos... não que aceite nossos estragos, nossos defeitos, mas que deixa o rio correr, que ajuda com diques, com pontes, não nos destruindo as margens... Gente que sabe que podemos desta gota precária, um dia oceano ser.

----Gente assim. Que ri, a um tempo piedosa e sincera, daquela nossa magra piada.
----Gente que, quando muito bestas estamos, saltando de nós, inchados de nós, nos pregam uma rasteira, só pra que lembremos o gosto da lama. Pra que não esqueçamos que, um dia, rastejamos.

----Gente rara. Gente que faz o milagre de desenvenenar grupos, ambientes, famílias, lugares. Gente que parece manhã de sábado.

----Gente rara. Não pode ser desperdiçada.
----Porque gente rara é sagrado antídoto contra gente que atrapalha.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

GENTE QUE ATRAPALHA


---Gente que atrapalha é um saco. Um porre. Um muro. Você dá um passo e logo te aparelham de abismos. "Cuidado, isso não vai dar certo!" E como temem o esforço, e mais ainda, que o esforço seja bem sucedido, por isso, jogam cascas de banana.

---Cacos de vidro, eles jogam. Porque machuca. Machuca. É como se cada passo que se desse lhes fosse ofensivo. Denunciador da sua inércia destrutiva. Por isso, precisa ser impedido, pra que permaneçam no território conhecido, no conforto do fazer pouco. Não vêem o quanto se pode apodrecer, assim, sentado em tronos de poderes miúdos. Pior: Quando acaba a munição derrapante ou contundente, chegam os punhais da língua, as agulhas da maledicência... a fofoca. Essa que tanto dói, porque é um julgamento secreto, sem defesa ou testemunha, em que o acusador é juiz, jurado e carrasco... Carrasco cruel, que não dá nem a última refeição do condenado.

---Colombo teve os seus muros. Noé. Edson. Lincoln. Churchill. Cristo! E eu aqui, reclamando das minhas muretas!!!
---Melhor fazer como Neemias, que reconstruía as muralhas de Jerusalém... Vieram encher o saco, dizer que não ia dar certo, encrencar... Botar muro inútil na muralha necessária... Chamaram pra um 'reunião'... Neemias, com o lápis na orelha, a espada na cinta e a colher de pedreiro em riste... -Leva a mal não, mas não posso descer aí onde vocês estão... O que estou fazendo aqui é mais importante...

---Mas se até larvas têm seu espaço num plano divino, obstáculos têm lá seu valor. Pegar o muro e exercitar nele os músculos. Até, um dia, derrubá-lo. Com o que sobrar, faz-se uma estrada. Que assim Deus nos ajude.

terça-feira, 16 de junho de 2009

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


14/06/2009


NÃO PERCA ESTE FILME!



Se você gosta de cinema à vera, à moda antiga, sem defeitos especiais, ou seja, com boa câmera, cortes precisos e interpretações deslumbrantes, não perca: "DÚVIDA", de John Patrick Shanley. Atuações soberbas, inesquecíveis, de Philip Seymor Hoffman e da atriz mais constante da história do cinema, a genial Meryl Streep.

Não perca, também, porque a trama central, além de contemporânea (embora o filme se passe nos anos 60), reserva surpresas... e dúvidas!

O grande "duelo" interpretativo que antecede à cena final - um tour de force de cerca de 12 minutos entre Hoffman e Streep - é antológico e devia ser visto, revisto e estudado, por alunos de cinema, de teatro, de psicologia, de direito e de tudo o que diz respeito à alma humana, enfim. Claro que é uma peça de teatro adaptada, o que, neste caso, foi feito com êxito, sensibilidade e adequação de meios, pelo próprio autor/diretor.

Ah, em tempo: isso nem sempre é boa referência, mas quatro atores do elenco foram candidatos aos Oscar de ator e atriz principal ou coadjuvantes. Neste caso, é credencial! Filmaço! Pra ver, deleitar-se e refletir. Muito.



RETORNO

VOLTA - Voltei, mas na verdade, certos retornos demonstram que nunca se tinha saído. É como acordar depois de um sonho-Odisséia e ver que ainda estamos em Ítaca, com Argos nos lambendo os pés. Como sempre. Não é ruim, isso. De um lado, nos mostra que temos raízes. De outro, mostra que a realidade não nos abandona nem quando sonhamos. Mas nada impede que uma árvore bem fincada transborde em flores, dê frutos. Estique um galho e se engasgue nas nuvens.



TAREFAS - Buscar acordos, lutar por consensos, ser incompreendido, sacudir cabeças, "socar" corações, acariciar frontes, beijar olhares, ser incompreendido e não ligar, dar colo a certas amizades, ter esperanças, construir plataformas de esperanças... essa, a lida. Sempre. Deus no coração é a lanterna.



PALESTRA - A doce Profª Adriana, Diretora do C. E. Higino da Silveira, organizou uma palestra com pais, professores, e muuitos alunos, no SESC. Bullying era o tema. Falei disso, mas falei também de drogas, alienação, etc... Fui duro, eu sei, mas era necessário. Tem uma geração inteira indo pro ralo da vida desperdiçada. Acho que acordei uma meia dúzia, lá pela 7ª fila... Que Deus os abençoe!



O VÔO DESINTEGRADO - O vôo 447 vai doer por muito tempo. Imagina você, querendo dar uma despedida digna a um familiar e te chega o quê, um osso, um pedaço, uma hipótese, um cadáver carcomido, um nada, um pedaço da carteira do clube, um anel de noivado, um nada... Uma dor sem fim. Mortos sem tumba doem mais. Que o mar os acolha. Que o mar de lágrimas refresque a sequidão da garaganta dos que ficam, da terra, à beira de Noronha, de Recife, com suas perguntas sem resposta e dores sem cura... E que tudo isso nos torne mais humildes... Que os Titanics não sejam esquecidos.



CRIAM - Assinei um contrato com os meninos. Regras simples e claras. Quem não participar de todas as atividades, tá fora. Quem não quiser ver balé ou escutar ópera, tá fora do futebol. Quem bagunçar, tá fora. Quem não concordar com as regras, nem entra. Eles leram, pensaram, debateram... Moral: Adesão maciça ao "contrato". Ver os meninos ali, assinando, deu esperanças. Eles querem regras, querem saber que alguém as cumpre... Daí, cumprirão também. Cumpriremos juntos. Nesta semana, já tivemos, com adesão, interesse e calma inéditas, nada menos que um coquetel de: Fred Astaire, Jim Carrey, Carmina Burana, Balé clássico, dança flamenca e dança irlandesa. Ah... teve futebol também. Estamos montando um time. Vai ter nome e uniforme. Vai ter... esperança. Dela, as certezas.



AOS MENINOS QUE SAIRAM DA SEMILIBERDADE - Dois meninos sairam da semiliberdade pra Liberdade Assistida. Ver seus corações ansiosos na sala de espera sempre é comovente. Dar-lhes os parabéns, quando o resultado da audiência os favorece é gratificante. Estar ao seu lado quando o resultado os entristece é um aprendizado. Cobrar-lhes atitude e dar-lhes conforto. Nesta semana, vi os sorrisos, parece uma formatura. Cumpriram uma etapa importante. A sentença nova, que abranda o castigo, é como um diploma especial. Por isso, fico lá, sempre que é possível. Adoro formaturas. Parabéns meninos. Que a vida lhes traga caminhos bons e que venha a coragem de trilhá-los, porque caminhos bons são caminhos difíceis.



O MENINO NA CADEIRA DE RODAS - Na minha sala, para tentativa de acordo com a Prefeitura, inadimplente em fornecimentos devidos. O menino impera. Ele não fala. Não anda. Usa fraldas. Precisa de exames e consultas médicas semanais. Cabeça operada. Precisa de leite especial e fraldas. Tem lá seus 07 anos, parecem menos. Os médicos lhe deram 05 meses de vida, quando nasceu. A mãe, feliz, mostra seu filho, seu orgulho, sua fé! Lição de humildade. Lição de bravura. Lição de grandeza... e a gente reclamando da obturação que caiu!



PALESTRA PRO PESSOAL DA FONTE SANTA - Que povo sofrido, vieram do asfalto até o Fórum, caminhando quase uma hora e meia pra audiência onde eu ia lhes fazer uma palestra. Me deu pena, mas depois me deu orgulho. Povo abençoado e guerreiro! Ali, ouvindo, debatendo, querendo fazer daquela vila perto do CRIAm um lugar de paz. Que assim seja. Drª Inês autorizou que lhes entegássemos passes para o ônibus da volta.
*.*
FERIADO E LUCAS E MARIANA - Fui fazer uma pequena aula de pós graduação, com Lucas, meu professor de 04 anos de idade. São sempre imperdíveis suas aulas. E Mariana, aquele doce. Obrigado Deus, por essas alegrias que me deste!



Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 08h37

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


29/05/2009


FÉRIAS PARAIBANAS E FAMILIARES
*****
Família - Abri as férias fazendo uma palestra pAra famílias na Igreja Batista Central de Teresópolis. Fechei as férias fazendo ontem, uma palestra encerrando o “Mês da Família” na Segunda Igreja Batista de Petrópolis. Não, não é carregar pedras. É derramar algodão. Fiquei grato pela oportunidade. Família deve ser nosso tema mais urgente e grave, hoje.

Paraíba – Falei das férias paraibanas, Jampa (João Pessoa, para os íntimos), artesanato, arte linda em barro de Miguel dos Anjos e das irmãs Cavalcanti (Nenê e Tê), inscrições rupestres e misteriosas na Pedra do Ingá, pôr do sol saxofonado na Praia do Jacaré, Areia (!), Pedra furada, etc. Daí, olha só, volto eu ao Rio, procuro uma peça de teatro (em conta e com algum encanto), e vou parar aonde? Na Paraíba, óxente! “Quebraquilos”, com um grupo de João Pessoa, no Centro Cultural da Caixa. Peça ótima, sobre tema fantástico (a revolta popular contra os pesos e medidas que atualmente usamos, quando os impôs o governo imperial), denunciando agruras que ainda hoje permanecem. Paraíba foi uma descoberta boa.

Família 2 – Mariana!!! E Lucas!!! Saudades. Não há férias que cheguem.
DVD a recomendar - A minisérie francesa com Depardieu (Valjean) e Malkovitch (Javert), "Os Miseráveis". Embora as melhores versões que conheço em filme sejam as que trazem como o sofrido Jean Valjean, Lino Ventura (1982, de Robert Hossein) e Fredric March (1935, com Charles Laughton como Javert), o formato minisérie permite maior detalhamento sobre as tramas da história, o que compensa a fraca direção. Vale a pena.

Fim de sopa – 2ª feira, volta ao batente.





CRIADA COM OS CÃES
Triste notícia de hoje:

Menina criada com cães já brinca com crianças, mas não fala

29 de maio de 2009
AFP

A menina de cinco anos encontrada latindo e pulando em um apartamento decrépito nesta segunda-feira, na Sibéria, brinca com outras crianças, mas não fala, e se comporta como um animal, relataram os psicólogos responsáveis por ela.
Abandonada por seu pai e seus avós, que viviam no mesmo apartamento em Chita, cresceu junto com os cães e gatos da família, e passou a reproduzir o comportamento dos animais.
Quando foi encontrada, "pulou em cima dos policiais, como um cachorrinho", tentando se comunicar com "a linguagem dos animais", contou a polícia local.
Levada para uma instituição, onde recebe ajuda médica e psiquiátrica, a criança, que praticamente nunca tinha saído do apartamento onde vivia, está descobrindo, aos poucos, a vida com os humanos. Porém, alguns de seus comportamentos continuam sendo os de um animal.
"Ela não usa talheres para comer. Quando lhe damos uma colher, ela a ignora e come diretamente com a boca", relatou Nina Emelshugova, funcionária do estabelecimento, à rede de TV russa Rossia.
"Na hora de brincar, ela imita o que vê. Ela tinha muito mais contato com animais do que com humanos", acrescentou outro colaborador da instituição, citado pela agência Interfax.
Este colaborador se recusou, porém, a considerar Natasha como uma "menina-animal". "Ela anda como uma criança normal, e suas atitudes semelhantes as de cães e gatos são freqüentes, mas não constantes. Ela mostra, por exemplo, como colocar uma panela no fogão e acender o gás", afirmou.
De acordo com os médicos que a examinaram, a menina não está muito atrasada em termos de desenvolvimento psíquico, mas tem a aparência física de uma criança de dois anos.
"Outros exames médicos serão realizados, mas ela está bem. O único problema é que com cinco anos de idade, ela ainda não fala", declarou a diretora da instituição, Tatiana Missnik, à agência Ria Novosti.

Multa para o pai
Depois da descoberta da menina, o pai, de 27 anos, foi multado por negligência e a mãe, que vive em outro lugar com outro filho, recebeu uma advertência.
O apartamento onde morava a família parecia um lixão, com um monte de objetos diversos, detritos e louça suja em todos os cômodos, segundo imagens mostradas pela TV russa.
Para a menina, o caminho da socialização deverá ser longo.
"Vamos torcer para que ela consiga ter uma vida normal", disse o diretor adjunto do Instituto psiquiátrico Serbski em Moscou, Evgueni Makushkin, ressaltando que o desenvolvimento psicológico destas crianças, muitas vezes traumatizadas, costuma ser complicado.
"Todas as funções motoras e de linguagem se desenvolvem nesta idade. Natasha vai precisar de um rigoroso programa de acompanhamento", acrescentou.
O caso de Natasha não é isolado. Desde 2003, uma dezena de histórias semelhantes foram registradas na Rússia, com crianças, maltratadas ou abandonadas pelos pais, andando ou se comunicando como cães e gatos.
http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3793449-EI8142,00-Menina+criada+com+caes+ja+brinca+com+criancas+mas+nao+fala.html

*.*
Quando li a notícia acima, lembrei-me de um texto que escrevi em 2007.
Vai aí um trecho:

“(...) Mas, não nos percamos na História. A Constituição é de 1988. O ECA, de 1990. Entre um e outro, cai o Muro de Berlim, o neoliberalismo se consolida com a ferramenta da globalização. E, daí, Estado Mínimo, individualismo, redução do nível de emprego, etc. Ou seja, quando o ECA chega à cena, já nasce sob boicote e má vontade da nova realidade. Fica ali, como uma ‘Bíblia’ incômoda, a apontar pecados.
Pois bem, é hora de brandir essa ‘bíblia incômoda’ e apontar os pecados da construção sócio-estatal que produzimos. Ou assumimos logo que queremos o extermínio dos negros que pensamos ter libertado em 1888 – registrando-se que a grande maioria dos adolescentes em cumprimento de medidas de internação são negros ou mestiços [37] -, ou produzimos uma sociedade que recupere o tempo perdido. E aí, cota racial sim. E aí, refreamento do capital selvagem. E aí, outra política econômica. E aí, recuperação de valores espirituais e éticos. E aí, revalorização da autoridade familiar. E aí, ECA!
Tratamos longamente de todas as vicissitudes que envolvem nossa população infanto-juvenil. Mas ainda cabe uma última constatação. FREUD ensina que dos mamíferos, o homem é o que nasce mais despreparado para os enfrentamentos da vida, carecendo por mais largo tempo de um útero externo representado pelo seio e pelo colo materno. Este útero se alarga com a interferência do pai, que, auxiliando na construção da identidade, faz a criança perceber este tertius que, amorosamente demonstra não ser o corpo da mãe mero prolongamento do seu corpo de criança. E este útero amoroso ainda será necessário e enlarguecido na família, na escola e na comunidade solidária como a da taba indígena já mencionada. Pois bem, crianças que, por suas condições de miséria, não contam com o seio materno, nem com o pai amoroso, e ainda por cima convivem com as mazelas do desemprego, como alcoolismo e maus tratos, são como seres abortados, em incompletude, que chegam à vida em grande desvantagem, com sinapses desatentas, muitas vezes com seqüelas neurais de espancamentos e distúrbios de aprendizagem. Foram abortadas pela sociedade que não lhes proveu e às suas famílias adequadas condições de subsistência.
O problema é que está demonstrada na história que a criança abandonada precocemente recebe como pai e mãe quem lhe adota como filho. São muitos os episódios das crianças-fera. Crianças-lobo, crianças-urso. Crianças que, como as irmãs Amala e Kamala [38], na Índia, no século passado, foram achadas como pequenos quadrúpedes de uma matilha, comendo carne crua, caçando e se portando como lobos, e não sobrevivendo à tentativa de readaptação civilizatória. Achadas por lobos ainda bebês, por eles cuidadas, lobas se tornaram.
Pois, bem, crianças podem ser monstros. Sim, podem. Basta que sejam adotadas por um. Daí teremos as crianças militarizadas à força pelo Khmer Vermelho de Pol Pot que se tornavam refinadas assassinas, como ocorre hoje em Uganda, na Birmânia, como ocorreu com o Japão de adolescentes kamikaze, com os exércitos do nazismo terminal, no massacre de Ruanda. E, portanto, as nossas crianças soldados do tráfico, apenas, abortadas socialmente, se tornam as feras espelho das feras que os criaram.
É por isso, repito, que toda essa discussão trata, antes de política criminal ou debate jurídico, de uma escolha ética. É uma escolha urgente. Pode ser a escolha principal. Pode ser a última trincheira.”


Trecho de “Redução da maioridade penal: o Brasil numa encruzilhada ética” em
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9871

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR



22/05/2009


PROGRAMAÇÃO DE FÉRIAS, AINDA!



Passeios

Convento de Sto Antonio no Largo da Carioca – Igreja da Ordem Terceira de S Fco - Ali, no meu queridíssimo Largo da Carioca, aquele monumento ao esplendor do barroco brasileiro, que de tanto passar na frente, eu tinha negligenciado: simplesmente única a Igreja toda forrada em ouro.
Almoço e sorvete com Mariana – O programa favorito do meu coração. E Mariana sozinha é um passeio, em qualquer lugar do mundo.
Passeio nos camelôs do Largo da Carioca – Nada como fuçar bugigangas e comprar coisinhas de dois "real"

Cinema

ANJOS E DEMÔNIOS – Mais da mesma sopa rala de Código da Vinci, com uns pedregulhos de ração canina fazendo as vezes de carne, para os incautos. COTAÇÃO - Quase dormi, mas fiquei até o fim. Já é algo.

STAR TREK – Nunca gostei muito do seriado da TV, nem da série de cinema, não sou trekker, mas o filme é muuuito bom. Grandes efeitos, divertido, Spocks surpresas. COTAÇÃO - Fiquei na ponta da cadeira.

SIMONAL – NINGUÉM SABE O DURO QUE EU DEI – Cresci ouvindo falar da deduragem de Simonal, que teria entregue colegas de profissão à ditadura militar, nos anos 60. Eu tinha 11 anos na época, acompanhei pela TV o último FIC (Festival Internacional da Canção), transmitido diretamente do Maracanãzinho. Embarquei na onda. Simonal = Iscariotes. Depois, militando na esquerda, e aprendendo como funcionam certos julgamentos sumários, precipitações, decisões com pouco cérebro e muito fígado, fiquei com os dois pé atrás em relação a certas “verdades” consagradas, ou demonstrações “politicamente corretas” e “regras” ridículas de bom-mocismo esquerdista. Exemplos: só tomar Guaraná e não Coca-Cola; achar geniais certos filmes ruins como “O dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, feito em momento medíocre pelo gênio de Terra em Transe, Glauber Rocha; achar pueris e menores os filmes da Atlântida e Mazzaropi; e “ter” que desgostar de Simonal, porque certa esquerda assim queria. Pois - depois de já muito confortavelmente ter determinado em meu coração que Grande Otelo e Oscarito eram gênios da raça, que Tristeza do Jeca, do velho Mazza, devia ser obrigatório nas escolas brasileiras - há uns anos atrás me peguei cantando “Moro num Pa-tro-pi” e depois resgatei um teipe de uma das fabulosas performances do astro marrento, Simona em pessoa, regendo “Meu limão, meu limoeiro” para uma platéia da TV Record dos bons tempos. É mágico. Ouçam o que digo: -Mágico! Pois o documentário a que assisti “Ninguém sabe o duro que dei” resgata essa magia e repõe as coisas nos devidos lugares. Por conta de uma canalhice (sim, canalhice) arrogante que cometeu e que nada teve a ver com deduragem, ou comprometimento com a ditadura, Simonal foi tornado invisível, morto em vida, ridicularizado, execrado, afastado e esquecido. Pagou mais do que era a sua dívida moral. Pelé passou anos se recusando a reconhecer filhos que espalhou por aí, o Edmundo (ex-Vasco) matou gente atropelada, FHC esconde uma paternidade fora do casamento, JK tinha suas amantes, enfim, todo mundo tem lá seus podres e está por aí, sendo reconhecido pelo que há de bom em sua biografia, mas Simonal não. Foi pro lixo. Por isso, parabéns aos Cláudio Manoel (do Casseta e Planeta) e seus companheiros de direção do longa. Há coragem e isenção ali. E uma coisa rara neste país. A reparação de uma injustiça. Simonal era um gênio. Vejam o documentário. Uma lição de vida. A dor de Simonal, inclusive, alerta para que sigamos um precioso conselho bíblico em nosso dia a dia: “Aquele que está de pé cuide para que não caia”. Simonal estava nas alturas. Seu pecado maior foi a falta de humildade, como pouco modestos se mostraram também os faraós que ergueram monumentos absurdos e esplêndidos. Mas as pirâmides estão aí. Que a obra de Simonal mereça seu lugar em nossos corações. Sem ela, não se compreende o que é o Brasil. Sem ela, somos mais pobres. COTAÇÃO – Ri e chorei, o que mais se pode pedir de um bom filme?


20/05/2009


AONDE VAMOS CHEGAR?
Embora em férias, não há como deixar de acompanhar as virtudes e mazelas, os dramas da questão infanto-juvenil em nosso país.

1 - PARAÍBA: DO VEXAME AO EXEMPLO - O tempo que passei em João Pessoa foi suficiente pra ver até que ponto chega a vigilância de um povo quando o abismo chega tão perto. Em Sapé (PB) perto da capital, houve um grande escândalo de pedofilia, envolvendo políticos e empresários. A revolta popular é grande. Presenciei manifestações. Vi panfletagens. No dia seguinte à minha partida um grupo de entidades e igrejas ia realizar uma marcha contra a pornografia. Proprietários de bares e boates, mesmo sem cartazes oficiais, pintam a cal, os alertas contra a prostituição e abuso sexual infanto-juvenil em suas portas e muros.

2 - TRISTES NOTÍCIAS, ABSURDAS NOTÍCIAS, PREOCUPANTES NOTÍCIAS - para que fiquemos atentos (Não sejamos ingênuos, a crise é grave!)

Grupo de crianças depreda creche em Botucatu-SP - SÃO PAULO - Um grupo de cinco crianças, com idades entre 8 e 13 anos, promoveu atos de vandalismo no final de semana no interior da Creche Lar Escola Caminho Feliz, no Parque Marajoara, na periferia de Botucatu, no interior do Estado. A polícia identificou todos os vândalos. Segundo a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) da cidade, são ex-alunos da escola. Para entrar no estabelecimento de ensino, onde 102 crianças estudam, o grupo quebrou uma das janelas. Após arrombar armários e jogar tudo ao chão, eles dirigiram-se até a cozinha, onde fizeram o mesmo com os alimentos encontrados. Na sequência, os vândalos pularam o muro e entraram na creche ao lado. O berçário foi parcialmente destruído e até fogo foi ateado nos brinquedos que ficam no pátio. (ESTADÃO 19/05: Ricardo Valota - Agencia Estado).

Menino de 7 anos é suspeito de matar irmão de 4 - Pai teria se livrado de armas antes de socorrer o filho, segundo a polícia. Um menino de 7 anos é suspeito de matar com um tiro acidental o irmão caçula de 4 anos em Rio das Ostras, na Região dos Lagos. O crime aconteceu no início da noite de domingo (17). O irmão mais velho estaria atirando contra a parede com um revólver calibre 38 quando atingiu no peito o caçula. Segundo a polícia, ao chegar do trabalho o pai levou o filho ferido para um mercado ao lado de casa, e teria voltado para se desfazer das duas armas que tinha. Depois de jogar as armas num matagal, ele voltou para socorrer o filho. A criança foi levada ao pronto socorro de Rios das Ostras, mas já chegou morta ao local. (O GLOBO 18/05).

Criança morre por disparo de arma de primo - Um menino de 12 anos morreu na noite de sábado (16), em Irajá, no subúrbio do Rio, com o tiro da arma do próprio primo , de 17 anos. Em depoimento à polícia, ele contou que o disparo foi acidental. O rapaz disse ainda que teria achado a arma na rua e estava brincando, mostrando-a ao primo. Os pais da vítima contaram na 38ª DP (Irajá), que investiga o caso, que os dois e outros primos estavam sozinhos em casa. Atingido na cabeça, Rodrigo Ferreira Flores chegou a ser levado pela família para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, mas não resistiu aos ferimentos. Segundo a polícia, o adolescente foi detido e encaminhado à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. (O GLOBO 18/05).

Alunos depredam escola em SP onde o governador José Serra estudou - SÃO PAULO - Alunos depredaram a Escola Estadual Antonio Firmino de Proença, na Rua da Mooca, Zona Leste, depois que a Polícia Militar entrou na unidade de ensino para deter dois jovens, durante a manhã desta quinta-feira. O governador José Serra é ex-aluno da escola. Os estudantes se revoltaram com a presença da PM na unidade e usaram carteiras escolares para destruir janelas. Os estudantes também espalharam lixo pelo pátio. A escola tem 1.700 alunos, divididos em 3 turnos. O caso foi confirmado pelo secretário estadual de Educação Paulo Renato Souza. A PM foi acionada pela direção da escola. Por conta dos atos de vandalismo, as aulas da tarde e da noite foram canceladas. Os dois estudantes investigados, de 14 e 17 anos, foram levados para a delegacia. Eles estavam fora do horário de aula no momento da ocorrência. (DIÁRIO DE S.PAULO 14/05/2009)

Alunos da 3ª série recebem livro didático com palavrões e conotação sexual em SP - Na semana passada, alunos da rede estadual de São Paulo receberam um livro com histórias em quadrinhos que continham palavrões e conotação sexual. O livro "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol" foi distribuído pela Secretaria Estadual da Educação de São Paulo e era indicado para alunos de nove anos da terceira série do ensino fundamental. Com 11 histórias em quadrinhos de vários autores sobre futebol, a publicação chamou a atenção de coordenadores pedagógicos por fazer referência à facções criminosas, além de apresentar gravuras que faziam menção à sexo. (Portal IMPRENSA 19/05)

Torpedo pornô é enviado para celular de menino de 10 anos - Os pais do menino Victor Delgado Jr., que mora em Naples, Flórida (EUA), deram um celular usado de aniversário para o filho, que acabou recebendo um presente extra. No mesmo dia, entrou um torpedo pornográfico no aparelho de Victor. Segundo a CNN, a mensagem tinha fotos, movimentos e música. – Você se sente traído. Você tenta manter suas crianças inocentes e algo assim, totalmente fora do seu controle, acontece – disse o pai do menino, Victor Delgado. Já que o garoto ainda não tinha divulgado o número, os pais acreditam que se tratava de uma mensagem ao antigo dono do número. Na loja em que adquiriram o celular, os pais foram informados de que não havia disponível para o aparelho uma tecnologia para impedir o recebimento de tais mensagens, e aconselhou Vitor a não abrir mensagens antes de mostrá-la aos pais. (blogs.abril.com.br/gotasdelimao - 180209)

Preso acusado de enganar meninas e pedir fotos de nudez na web - Um homem que se passava por uma agente de modelos no MySpace para enganar garotas e convencê-las a enviar fotos nuas foi preso esta semana na Califórnia, nos Estados Unidos. Joshua Threlkeld, 32 anos, criou um perfil fake com o nome de Sara Miller. Ele enganou cerca de cem meninas e enviava as imagens delas para uma agência de fotos pornográficas. Threlkeld foi desmascarado após a mãe de uma adolescente ter acionado a polícia ao descobrir que a filha havia encontrado pessoalmente o maníaco na cidade de Orange County, onde ela posou para fotos e manteve relações sexuais com ele. Rastreado no próprio MySpace pelas autoridades policiais, ele foi reconhecido pelas tatuagens que tem em torno do pescoço. O falsário atraía garotas com idades de 13 a 17 anos e dizia que selecionava modelos para uma agência. Para a "seleção", ele requisitava fotos delas sem roupa. De acordo reportagem no jornal britânico Daily Mail, Threlkeld pode ser condenado à prisão perpétua (Portal TERRA 14/05/09).

Menina de 14 anos é presa acusada de botar as próprias fotos nua na internet - Caso é investigado em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Jovem publicou as fotos para o namorado ver, afirmou xerife Uma adolescente de 14 anos de Nova Jersey, nos Estados Unidos, está sendo acusada de pornografia infantil depois de ter publicado 30 fotos dela própria nua no site de relacionamentos MySpace. O xerife Bill Maer afirmou que a adolescente publicou as fotos porque “ela queria que o namorado dela as visse”. “Consideramos este caso uma chamada para acordar os pais”, disse Maer À agência Associated Press. A jovem, que não teve o nome revelado por ser menor de 18 anos, foi detida e acusada de possuir e distribuir material pornográfico infantil. Ela foi liberada mais tarde, sob custódia da mãe. Caso seja condenada, a adolescente pode ficar presa até os 17 anos, segundo determina a Lei Megan. “A garota precisa de ajuda, não de problemas com a Justiça”, defendeu Maureen Kanka, mãe da menina Megan, que foi sequestrada, estuprada e morta quando tinha 7 anos, em 1994. Após este caso, o estado criou a lei Megan em defesa do abuso contra as crianças e adolescentes. “Ela precisa de uma intervenção e conselhos, porque a única pessoa que ela explorou foi ela mesma”, disse Kanka. O MySpace disse que não iria comentar a investigação da polícia local, mas avisou que tem uma equipe que acompanha a rede para retirar imagens inapropriadas. Além de Nova Jersey, outros estados como Pensilvânia, Connecticut, Dakota do Norte, Ohio, Utah, Vermont, Virgína e Wisconsin estudam leis para proibir que além de publicar fotos pessoais na internet, as crianças e adolescentes também não possam, ou ao menos sejam punidas, caso enviem imagens delas próprias nuas via celular.

FÉRIAS!!!!

COISA BOA... FÉRIAS!!! GRAÇAS A DEUS!
Leituras refinadas: "Encarnação" de José de Alencar, o romantismo em seu apogeu, por um autor em sua maturidade; e "Como cheguei ao poder" de Winston Churchill, com suas preciosas (e assustadoras) revelações de bastidores. Estou começando o divertido bem embasado e "A incrível história da medicina" de Richard Gordon e "Os Magnatas", de Charles Morris, essencial para entender o funcionamento da economia global. Tudo ótimo e em edição de bolso, que afinal, é o formato ideal para ler em praias, praças, rodoviárias, aeroportos e filas. Ou escarrapachado na cama... Leio ainda, "O Efeito Melquisedeque" de Don Richardson, que conta as sementes deixadas por Deus nas várias culturas "não civilizadas", como portais para missionários que pregam o Evangelho.

Filmes: "Che": Muuito bom! - "Wolverine, Origens": Bom - "Marley e eu": fraquim... - Quero ver se assisto "Star Trek", "Simonal - ninguém sabe o duro que dei", "Valsa com Bashir"... etc.



Lugares inesquecíveis: João Pessoa (PB), uma gratíssima surpresa!!! Tranquila, com passeios lindos. Logo que cheguei, ao contrário da maioria que corre aos passeios litorâneos, me apaixonei por um roteiro chamado "Mistérios do Brejo Paraibano", parecia nome de samba enredo. E foi um passeio lindo! Conhecemos cidadezinhas incrívelmente preservadas em seu casario pequeno, colorido e típico, como Remigio e Areia. Esta, especialmente encantadora. Parece um cenário de filme. Além de tudo, possui a casa onde nasceu o grande pintor, Pedro Américo. Passamos na cidade onde nasceu o não menos importante Jackson do Pandeiro. Conhecemos, em Ingá, umas pedras (itacoatiaras!!!) com incríveis inscrições pré-históricas. E tivemos uma pequena (e assustadora!) noção do que deve ser o calor do sertão nordestino. Ah, fomos também ao litoral e vimos coisas lindas como as praias de Coqueirinho, Tambaba (não, não ficamos peladões, informo aos que sabem que ali rola naturismo), Praia do Amor, e outras. Fomos a um culto na Primeira Igreja Batista de João Pessoa, prédio belíssimo, clássico, abobadado, com vidros coloridos.

Outra ópera no CRIAM - Hoje, com os meninos do CRIAM, assistimos e comentamos Carmem, a grande ópera de Bizet, com Maria Ewing no papel principal, regência de Zubin Metha. Como venho afirmando, os meninos curtiram. Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 12h44

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


08/05/2009

A DIVINA AVENTURA DE GESTAR

Gestar é aventura de criar, dar origem, ventar existência nas narinas do barro.

Tudo o que gesta, é virtude que gera.Claro que aquela que pare, que biologicamente é capaz de parir, gera.
Mas quem cria, gera também: às vezes é em verdade quem mais gera.
Porque produz na pessoa cuidada um vinco de pergaminho, um brilho,
um carinho que marca a seda, que – para bem ou mal -
nunca mais será esquecido.Em mães biológicas, úteros são corações especializados em ninho.
Em mães adotantes, a biologia é inversa, se refaz pra tornar o coração um útero radioso,
ali entre a aorta e os ventrículos.Seja útero-coração ou coração-útero, sempre haverá ligação direta
entre útero, coração e a alma dos rios. É que lágrimas são necessárias tanto ao coração quanto ao útero, quando geram.Por isso, dizem que adotar, gestar e gerar são cautelas de natureza melhor que aspirinas, porque afinam o sangue.

Previnem asperezas e cardiopatias.É que vai ali, entre hemácias, o soro bendito dos olhos.Bom pra saúde de quem gera. Bom pra futuros, saudável a esperanças,
de quem é gerado.Quando caminha entre as covas, atirando sementes, o lavrador gera.
O jardineiro gera, quando aduba e rega.
O adotante rega quando cuida.
Homens há, que assim é que geram.
Logo, mães diferentes o são, embora como ‘pais’, nominados.Geração só não há quando inexiste coração.

Logo, todo ser humano, no divino que é, só mãe não será se coração não tiver.
Mas, como sem coração não se existe, impossível a hipótese.
Deus age perfeito.

Só quem não gera é a pedra.Mas até a pedra pode acomodar um berço.Pensando bem, até pedra gera.Deus é muito sábio.E generoso.
É da divindade, esse repartir-se
no milagre do gestar com tantos parceiros. Até com as pedras.

Deus sabe que quem gesta, gestado é.- - -


Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 17h11


QUEM DÁ MAIS PELA DESTRUIÇÃO DE UMA INOCÊNCIA?
Notícia saída agora a pouco, na página de notícias da UOL (http://noticias.uol.com.br/bbc/2009/05/08/ult36u46599.jhtm - 08/05/2009 - 07h29)

"Espanha investiga 'leilão' de meninas em festa para adolescentesBBC BRASIL

---O Ministério Público da Espanha está investigando uma festa organizada por uma discoteca em Granada (sul do país) na qual meninas adolescentes foram "leiloadas" com dinheiro do jogo Banco Imobiliário.---A festa para adolescentes a partir de 12 anos havia sido anunciada pela discoteca Granada 10 com o slogan "Se estiver solteira, leiloe-se. Se estiver solteiro, faça seu lance".---Segundo os organizadores, o grupo de adolescentes subiu ao palco da discoteca voluntariamente para participar do leilão.---Os meninos recebiam, ao chegar à festa, uma certa quantidade de notas de Banco Imobiliário para participar do leilão. Quanto mais cedo chegassem à festa, mais dinheiro recebiam.---Segundo os organizadores, não foram servidas bebidas alcoólicas durante a festa nem era permitido fumar no local. Denúncia A organização da festa foi denunciada à Promotoria dos Menores pela prefeitura de Granada.---A secretária de Bem-Estar Social e Igualdade da cidade, Ana López Andújar, afirmou à imprensa espanhola que a discoteca "mostrou uma atitude machista que não deve ser permitida".---Ela disse esperar que uma nova festa para adolescentes marcada para a semana que vem na mesma discoteca, na qual se anunciavam prêmios a meninas vestidas com minissaia, não ocorra. Em um blog na internet, o juiz de Menores Emilio Calatayud acusou os empresários de privilegiar apenas o interesse econômico e de não cumprirem suas obrigações de proteger os menores. "Este tipo de história é um atentado contra a dignidade dos menores", afirmou.
---O advogado da discoteca, José Luiz López Candal, afirmou ao jornal espanhol ABC estar surpreso com a repercussão provocada pela festa. Segundo ele, o leilão era apenas uma brincadeira inofensiva. "


De 'brincadeira inofensiva' em 'brincadeira inofensiva' se constroem as ofensas odiosas e irreversíveis. É preciso acordar, reagir. Se aos 12 meninas "se leiloam" via Banco Imobiliário, daqui a pouco meninos de 08 disputarão meninas em partidas de bolas de gude (ou, mais provavelmente, videogame).
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 17h08


07/05/2009

COISAS, DE NOVO


BANQUETE – Estar com Lucas e Mariana, por dois fins de tarde/noite já valeriam as férias. Eu e Lucas brincamos de pintar e “consertar” caminhõezinhos de madeira, comprados a preço de banana no Saara. Com nossa ação dedicada e conjunta, ficaram valendo ouro!!! É que adulto e criança se completam ali, descascando suas almas pra dar cor, botar cola, pintar com canetinha, colar pedaços de revista, e daí essa alminha nova que eles trançaram é que, ao final, reveste aquele brinquedo... mágico. Brinquedo que não se vende em loja. Experimente com seu filho, neto, sobrinho, ou com aquela criança que precisa de alguém como vc pra ensinar valores com seu simples ato de respirar... milagre de Deus. E Mariana ali, junto, talvez revendo-vivendo momentos mágicos que construíram em nós parte do melhor de nós dois.

PALESTRA NA IGREJA BATISTA CENTRAL – Num sítio, no primeiro de maio. Sol a jorro, pelas montanhas verdes, a gente toda da igreja, quase duzentas pessoas, ali, rebanhos rolando nas encostas macias dos salmos de Davi. Eu, exausto (como disse na última postagem) meio aperreado, despreparado, cansado, mas... é assim que Deus gosta. Falei por quase uma hora, sobre amores, famílias, crianças, casais, valores, almoço de domingo, macarronada em família, pai na cabeceira, mãe fazendo a oração, essas coisas... mas acho que quem falou foi Deus, claro que muito pouco com minhas toscas palavras...e muito com os seus próprios mistérios de usar enjeitadas ferramentas como eu, inútil de cansado, e que só fiz o que era possível: me encostei numa parede e apenas escorei as águas que Deus quis lançar...

CRIAM, HOJE – De férias... Hoje vimos o DVD do Othelo de Verdi, com Plácido Domingo... a história do guerreiro traído porque deu ouvidos ao fofoqueiro ardiloso... a ponto de desconfiar da amada... a ponto de matá-la por ciúmes insanos!!! Briga por causa de mulher? Iago x Othelo x Desdêmona? Acontece o tempo todo, gente! Os garotos se interessaram, claro! E daí que era ópera? Ah, eles não gostam? Não alcançam? Qualidade é qualidade. O estranhamento é normal. Vencido este, o paraíso da comunicação. Nós é que muitas vezes não conseguimos superar a suposta rejeição manifesta no natural estranhamento. Desdenhamos do aprendizado que o outro faz da novidade. Tachamos de ignorância, arrogantes que somos. Não temos é paciência. Persistamos. Eles acompanham, garanto. Não lhes demos uma subeducação ou uma subcultura só porque somos impacientes.

CRIAM, HOJE 2 – Depois, Adoniram com Demônios da Garoa. Não aprenderam tudo, mas curtiram Trem das Onze, Samba do Arnesto e Saudosa Maloca. Ficaram com o CD e as letras pra aprenderem.

CRIAM, HOJE 3 – A partir de filme sobre a 1ª Guerra Mundial, debate excelente sobre razões e desrazões da guerra, sobre diferenças entre ricos e pobres, sobre haver ou não justiça em ganhar o pão com a morte alheia (guerra, tráfico, etc). Esquentou o clima. Que bom!

CRIAM, HOJE 4 – Fotografia! Cada um bateu sua foto, usando os outros como modelos, em poses de grupo, inventadas, esculpidas, algumas atléticas, outras engraçadas, outras poéticas. Muito show. Existe ouro no fundo desse poço!

CRIAM, HOJE 5 – Torneio de altinho, competição de salto em altura, disputa de pênaltis, e... aquela rachão pra acabar. Muito bom!

FLAMENGO CAMPEÃO – Comemoro, claro! Sou rubro-negro de berço e estirpe. Mas, cá pra nós, que futebolzinho medíocre este nosso país hoje tem, não? Não está longe o dia em que um neto desses nossos aí vai chegar (enquanto falamos de Pelé, Zico, Dida, Dirceu Lopes, Ademir da Guia) e dizer: “O maior jogador que eu vi jogar foi o Leonardo Moura!” – OH, CÉUS!!!!! Não vai nem dar pra dizer que futebol é uma coisa um pouco diferente desse rachão dominical em campo de luxo, com uns pernas de pau que sobraram do mercado europeu, só jogando o bastante pra serem achados por um olheiro que os leve pra jogar nas Ôropa ou no... Afeganistão... Cazaquistão... ou qualquer coisa assim! Inda bem que Ronaldo fez tão lindo no campeonato paulista. E pra quem realmente entende do negócio, seu gol mais bonito não foi aquele segundo contra o Santos em Vila Belmiro, aquele por cobertura. Foi o primeiro, aquele em que a bola cola no pé dele por uns dez minutos, no ar, enquanto ele, girando, a amacia pro toque final.

MARCHA DA MACONHA - Proibida aqui e ali (João Pessoa, Salvador). Permitida aqui (Rio, por enquanto). O pessoal mudando a tática e "adiando" a Marcha, pra ganhar mais tempo de mídia. E uns supostos progressistas defendendo a caminhada da insensatez. Bom, escrevi um livro sobre isso, mandei pra umas pessoas, fiz uns artigos, palestras. Leiam posts anteriores. Sou contra esse absurdo. Ponto. O futuro nos cobrará - caro!! - as ingenuidades de agora! Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h07

PUBLICAÇÃO DO BLOG ANTERIOR


30/04/2009 COISAS


EXAUSTÃO - Exaustão. Mas, pelo menos, coisas foram resolvidas. Pessoas, ajudadas. Para isso é o dia. Para isso, o corpo. Se o cérebro parece uma coisa arenosa, não reclame. Ela laborou bem, por isso, essa sensação de derretimento. Graças a Deus que ainda há cérebro. A exaustão é a existência de você. A prova de que as possibilidades de vida, neste dia, foram cumpridas.

MARCHA DA MACONHA - proibida em João Pessoa, Salvador e São Paulo. Ave! Que não marche a insensatez! Liberdade de expressão não pode ser propaganda de suicídio!

CRIAM, HOJE - Grupo Corpo, o fa-bu-lo-so escrete mineiro e dançante dos irmãos Pederneiras baixou no CRIAM. Os moleques não só viram, como gostaram. Reconheceram na trilha de Benguelê traços de Jobim (acreditem!), de música afro e de forró! Precisos. Crescendo. Triste, que tive que jogar bola, porque alguns só quiseram isso (jogar futebol, sem participar das outras atividades, e isso, a regra do meu programinha não permiter!). Daí tive que pagar o mico de tomar lençol dos garotos. Mas fiz meu golzinho. Brincamos. Aprendemos.

FÉRIAS - A partir de hoje, férias!!! Graças a Deus!

PALESTRA NA IBC - Amanhã, palestra em Encontro das Famílias da Igeja Batista Central de Terê. Que Deus me dê forças. Mas essa exaustão pode ser o que Ele precisa pra fazer-me melhor instrumento. Amém.

SAUDADES - Mana, querida, que saudades!!! Beijos procê.

FERNANDO - Hoje falei pro Fernando, colega de trabalho que caras como ele (e Fá Muniz, Marcelo G., JP, Julinha que foi embora, etc) são pessoas que nos animam, porque a gente vê que pegam na remada com o mesmo tesão que a gente! Que bom saber que não lutamos sós.

DRª INÊS - Com seus 67 anos e vibrando e guerreando, mesmo em meio a problemas, humilha qualquer exaustão desavisada!

SAUDADES - Mana, querida, Lucas, mui lindo, beije-o muito, mãezinha!

MEU AMOR - Ô querida, nossas férias chegaram! Uma palestrinha aqui, outra ali, mas férias... prometo!!!!

Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 20h00

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


23/04/2009


CECÍLIA BARTOLI VAI AO CRIAM
Hoje tive mais uma prova de que não podemos subestimar a humildade, nem desmerecer a inteligência dos meninos que procuramos ajudar, dando-lhes apenas sopa rala, quando merecem (e precisam!) de comestíveis culturais mais densos. Precisamos parar com essa mania de dar o que “os adolescentes querem”, para começar a lhes dar “o que precisam”. E sem achar que isso é autoritarismo. Não! Não se diz a um marinheiro de primeira viagem pra assumir o leme de um navio no meio do nada. Primeiro a gente o treina, lhe dá os mapas e o destino. Aprendiz, aprende. Adolescente, escuta. Depois é que ensina e discursa. Quanto tiver ouvido e aprendido.
Claro que tudo isso com diálogo, com possibilidades de expressão e criação de subjetividade e autoestima, afinal, não estou falando de ditadura ou esmagamento cultura, e quem ensina, antes de ter boa língua tem de ter os melhores ouvidos. Falo de sedução, paciência, descoberta, mas também de autoridade.

Pra que dar aos jovens o funk esgarçado que eles já tem? Pra que dar aos jovens o pagode, tantas vezes tão pobre, que eles já conhecem? Dêem-lhes Beethoven (e Cartola!), e até farão melhor funk e mais saudável pagode. Mais do mesmo, não lhes abre horizontes. Pra quem conhece Terê, mostremos Guapi. Pra quem desceu a serra, mostremos o Rio. Dali, os oceanos! Vamos às fontes culturais dar água pura à nossa juventude. Não os subestimemos. Dar-lhes o que desejam é dar-lhes pouco, porque desejam miséria, porque aprenderam pequeno. É como são produzidos os miseráveis e os ignorantes. O sistema está ajustado para gerar somente trabalhadores passivos, desempregados submissos, máquinas de consumir e se reproduzir e multiplicar a miséria. Universos estreitos para garantir pessoas estreitas. O homem mais culto tem mais opções.
Por isso é que comemoro: -Com sucesso, Cecília Bartoli, a grande mezzo soprano italiana, amanheceu no CRIAM, cantando Mozart e Schubert! Depois, Demônios da Garoa cantaram Adoniram Barbosa! E Carlitos brilhou, em “O Garoto”!

Os meninos se emocionaram e debateram com Chaplin, cantaram e batucaram Tiro ao Álvaro e, depois do estranhamento, ainda interpretaram os sentimentos dos trechos de música de concerto que ouviram (além de acharem Bartoli muito linda, como ela é, realmente: uma morenaça)
Depois, tivemos Olimpíadas: salto em altura, em distância, lançamento de peso, torneio de altinho, disputa de pênaltis. E pelada, ao final. Mostrei só um pouquinho minha catigoria... Em cada tarefa, uma lição e uma disciplina.

Em Chaplin, a importância do papel do pai, a compreensão do drama da mãe, a coragem da Carlitos, a necessidade de aproveitar a segunda chance. Em Bartolli, o aprendizado da música como não só ritmo (funk) ou melodia (pagode), mas também harmonia (a orquestra), além da profundidade do sentimento e da dor das despedidas. Em Adoniram, a gaiatice romântica.
No futebol (três expulsos!), a importância da lealdade e da disciplina (reclamações imensas a este juiz que vos fala).

Ao final, prêmios: biscoito e balas a serem repartidas mas, acima de tudo, conscientização, autoestima e sorrisos. Brincamos, debatemos, crescemos juntos.
Senhor... abençoa aqueles garotos! Que agarrem suas chances, que seus caminhos de abram!
*.*.*
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 17h19



21/04/2009


SENADOR MAGNO MALTA METE O DEDO DE DEUS NA TOMADA!

Noite inesquecível, no dia 20/04, no Hotel Alpina. Todas as autoridades presentes ou representadas, toda a imprensa local, todo o empresariado, todas as entidades que lidam com a questão infanto-juvenil. Estudantes, igrejas, fiéis, ateus, populares. A Assistente Social Tânia Luna compôs a mesa em nome da VIJI-Teresópolis, por estar adoentada, a Drª Inês Joaquina.
Tirando alguns compreensíveis (e irrelevantes) deslizes de organização, Teresópolis viveu um dia histórico.
Certamente, muita coisa se contará a partir de agora, “antes e depois do Magno”.
O experiente e carismático capixaba desfiou sua comovente história pessoal, de homem humilde, de fala simples, que, antes de ser político, já se engajara na luta pela recuperação de dependentes químicos - “meus drogados”, como ele diz. Trata-se de luta de alma efetiva, não discursiva, comprometendo sua própria casa e família como centro e suporte de recuperação de infelizes. Isso fornece àquele orador uma autoridade que é concedida a poucos.

Desta estiva foi a Vereador, Deputado Estadual, depois Senador da República. Lá em Brasília destacou-se na Presidência corajosa da CPI do Narcotráfico. Já nas franjas do relatório final, detectando a exploração do sexo infanto-juvenil por traficantes, saltou a seus olhos a questão da pedofilia. Desumanidade abjeta e bestial, que movimenta 150 milhões de dólares/ano, o dobro do narcotráfico!

De denúncia em denúncia recebida, o sr. Malta foi acumulando indignação e requerimentos no Senado e, contra todas as expectativas e desejos de alguns de seus pares, obteve a criação da CPI da Pedofilia.

O Senador falou por quase três horas. Mas ninguém desgrudou os olhos da sua estampa serena, ou os ouvidos, da sua fala pungente. Magno Malta chorou por três vezes, narrando as atrocidades cuja apuração presidira. Pranto sincero, de quem não está na luta apenas para ganhar voto, e que, por isso mesmo, comoveu a todos os presentes que, juntos, choraram também.
Ficou evidente que não podemos nos descuidar. Que os tempos são outros. Que a Internet é terra de ninguém a ser disciplinada e regulamentada na lei, nas cidades e, acima de tudo, nos lares. Que pais e mães precisam acordar, enquanto é tempo. As narrativas de crianças manipuladas em seus melhores sentimentos, violentadas em sua inocência, para que sua libido lhes chegue mais cedo (aos 07! Aos 05!) , em corpos e mentes ainda despreparados, escravizando-as para sempre, são odiosas, embrulham o estômago.
As fotos exibidas ao final da sua fala (com os cuidados de se retirar os menores do plenário), eram terríveis, chocantes demais (bebês violentados!) mas talvez necessárias para estapear as faces daqueles que ainda dormem o sono dos ingênuos.
O Senador foi ovacionado ao final, no coroamento dos aplausos, muitos, que recebeu durante toda a sua fala, quase como vírgulas do discurso. Falou de diversos projetos, das alterações já obtidas no ECA, realçou a importância do Conselho Tutelar, mencionou como a atuação da CPI que preside forçou o Google a baixar sua crista, como estão se criando parâmetros para a negociação mundial da questão, via ONU, onde tem sido chamado para debater os temas.
Os projetos que sugere são, evidentemente, polêmicos, provocarão muito debate e discussões de constitucionalidade. Por exemplo: sugere que a pena para crime de abuso sexual (de qualquer ordem, havendo ou não conjunção ou contato físico) contra pessoas entre zero e 14 anos, vá a 30 anos, em regime fechado; pretende a aplicação do monitoramento eletrônico e a criação, a exemplo do que ocorre nos EUA, do cadastro de pedófilos, com seus endereços, para divulgação pública; prevê a não concessão de visto a qualquer estrangeiro que pretenda vir ao Brasil em caso de estar condenado ou mesmo respondendo a processo relacionado a crimes de exploração ou abuso sexual infantojuvenil.
O Prefeito Jorge Mário, ao final, fez um pequeno discurso, de que destacamos, com todos os vivas que a ocasião merece, o ‘mea culpa’ de não se ter dedicado como deveria ao aparelhamento do Conselho Tutelar e fazendo ali a promessa pública de que, já na semana que vem o Conselho terá seu carro próprio e exclusivo (viva!!!). Promessa que será, certamente cobrada não só pelo CMDCA e pelos Conselheiros Tutelares, mas pela Vara da Infância, que tanto vê o Conselho padecer com sua mendicância de veículo para realização de tarefas tão essenciais.
Sabemos que muitas pessoas devem ter demorado a dormir naquela noite, refletindo, chocadas, mexidas, reflexivas. Nós, da Vara da Infância, sempre achamos que era necessário meter o dedo de Teresópolis, o Dedo de Deus, na tomada, para começarmos uma pequena revolução de conscientização - por isso nossa proposta, tantas vezes reiterada, de três dias de encontros motivacionais com famílias, alunos e professores das escolas da cidade, no Pedrão.
Que o choque produza energia verdadeira em todos nós!
Contra a Pedofilia, cá estamos nós. E a favor da proteção integral, sempre estivemos. Mas que reflitamos todos, que a questão não é apenas o combate ao pedófilo. Urgente mudar certos consentimentos implícitos que geram sexualidade precoce, estímulos sexuais gratuitos por toda parte, descaso de genitores... Necessário que mudemos de posturas como empresários, governo, serventuários, conselheiros, igrejas, escolas, escolas, escolas, famílias, famílias, famílias!!! Indispensável que abandonemos ingenuidades e vejamos as conseqüências da nossa permissividade e falta de responsabilidade na doação de limites a nossos filhos e à sociedade como um todo. Imprescindível que deixemos de ciumeiras, disputas rasteiras e divisionismos.
Ao cidadão comum e às famílias, a obrigação da vigilância, da denúncia (Disque 100, que é o número do programa específico da Secretaria de Direitos Humanos, ou ligue para o Conselho Tutelar em Teresópolis: ... ou para a VIJI-Teresópolis:...)
À luta, Teresópolis! Parabéns. Senador! Parabéns, ACIAT, pela iniciativa do apoio ao evento! Parabéns à equipe organizadora! Que venham os bons frutos.
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 14h06

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


16/04/2009


GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO

Justiça no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, entregue esta semana!

ESTÔMAGO, um filme genial de Marcos Jorge, foi o grande vencedor (Filme, Roteiro Original, Diretor, Melhor na votação do público) da noite. Inteligência e humor de primeira!
Pena que o melhor ator não foi para o impecável João Miguel (ganhou Selton Melo, por Meu nome não é Johnny - grande desempenho, como hábito, mas Miguel merecia muuuito mais!).
Excelente que reconheceram o Babu Santana como melhor - e bota melhor nisso - coadjuvante.
Gostei também das lembranças ao "Ensaio sobre a Cegueira" (fotografia, maquiagem e arte) do Fernando Meirelles, sobre o livro do Saramago, filme que merecia sorte melhor no mercado, mas que taí, em DVD pra quem quiser encarar uma história densa (não é pra comer pipoca), profunda, metafórica e brilhantemente dirigida e atuada.


15/04/2009


MARCHAS SUICIDAS
MARCHAS SUICIDAS – UM NÃO À MARCHA DA MACONHA![1]


Denilson Cardoso de Araújo


Está programada para o início do mês de maio a versão 2009 da “Marcha da Maconha”. No ano passado, das 10 capitais brasileiras que acompanhariam o movimento internacional, apenas uma a realizou. Nas demais foi proibida por liminares obtidas na Justiça pelo Ministério Público. Muitas cidades, entretanto, viram atos públicos “pela liberdade de expressão”. Importantes lideranças (OAB, ABI, Juizes pela Democracia) se manifestaram contra a posição do Judiciário.

Cansado de observar mães desesperadas, famílias destroçadas e jovens sem futuro, presentes na memória muitas militâncias (miúdas, mas militâncias!) por direitos e liberdades, vi-me na obrigação de tentar entender a questão da liberação da maconha sob a ótica dos direitos e garantias. E para quem trabalha cotidianamente com as mazelas decorrentes da drogadição cada vez mais precoce, parece uma irresponsabilidade que se pretenda realizar um evento com os moldes da Marcha da Maconha.

Não há, absolutamente, nada de progressista no discurso mais radical pró-liberação ou descriminalização de drogas. Qualquer visão que assim defenda, é necessariamente parcial e redutora das mazelas conseqüentes. Os economistas imaginam poupanças ao Erário. Especialistas em segurança pública supõem a redução da criminalidade. O pessoal da área médica pretende impedir a subnotificação dos problemas causados pelo abuso de drogas. Piedosos pretendem trato mais humanitário ao dependente químico.

Entretanto, por mais que se tente provar o contrário, a experiência da liberação das drogas não deu certo nos países em que foi tentada. Não reduziu a criminalidade, incrementou o consumo e ampliou o mercado para drogas mais pesadas. No caso da Holanda, fomentou o narcoturismo que trouxe grandes problemas à população. As cidades que fazem fronteira com outros países da Europa, no ano passado, começaram a pressionar para revisão da política de liberação. Cansaram-se das invasões de finais de semana e dos tumultos provocados pelos muito peculiares narcoturistas.

Aliás, na Holanda, caminha-se para muitos revisionismos da tradição liberal que, após legalizar a prostituição, viu subir a decadência de áreas nobres de Amsterdã, bem como elevar-se o tráfico de escravas brancas; que após ser tolerante com sexo, viu crescer a força de partidos políticos pedófilos, que defendem o absurdo “direito de escolha da criança”; que, extremando as lutas pelos direitos de minorias, viu, na mesma praça, ser proibido caminhar com o cachorro sem coleira, mas ser possível praticar, sem repressão, sexo noturno ao ar livre; que, no afã de manter-se coerente com a liberalidade já desgastada, e ao mesmo tempo, cooperar com os esforços pela erradicação do tabaco, criou o mundo surreal em que é possível fumar maconha em seus cafés, mas ser expulso pelo consumo de cigarros comuns!

É bom que seja ressalvado que não defendo a punição do usuário, nos moldes antigos, em que ele recebia prisão precedida de extorsão policial ilegal e humilhante. Acho um avanço que o usuário receba medidas educativas, mas corroboro a manutenção do porte na esfera criminal. O fato de ser questão também de saúde pública, não autoriza o abrandamento completo das formas de combate a um mal efetivo cada vez maior.

Pesquisas realizadas na Europa dão conta de que a esmagadora maioria dos europeus é contra a repetição da experiência holandesa. Plebiscito recente, na Suíça, deu vitória à política repressiva. Após um período breve de maior brandura, a Inglaterra reclassificou a maconha como droga pesada. A última reunião da ONU sobre o tema do combate às drogas, em março último, embora com muita polêmica e protestos, não só rejeitou a política de redução de danos, como manteve a recomendação de repressão ao tráfico e ao consumo das drogas.

A liberação para fins medicinais, no Canadá e nos Estados Unidos, como provaram reportagens esclarecedoras do jornalista Gilberto Dimenstein, resultou apenas em aumento do mercado de receitas e laudos médicos, que passaram a substituir determinados armamentos no bolso dos traficantes. A experiência portuguesa de liberar drogas para consumo próprio, estabelecendo uma cota diária de porte autorizado, apenas aumentou o mercado varejista, com os traficantes sendo muito zelosos de portar apenas a quantidade permitida. Em Portugal, as casas legislativas da Ilha da Madeira e de Açores, movimentaram-se para aprovar leis próprias, retomando a criminalização abandonada por lei federal, o que, certamente, terminará em discussão sobre constitucionalidade.

Fala-se muito no exemplo americano, onde a política repressiva não teria alcançado êxito em reprimir o consumo, já que lá se observa a maior população de usuários. Mas nunca se faz avaliação do quanto ocorreria de aumento nos níveis de drogadição americanos caso viesse a liberação. O EQUÍVOCO É IMAGINAR QUE A PROIBIÇÃO É QUE PROMOVE O CONSUMO. NÃO É!

Como diz o Professor Içami Tiba: “quem é feliz não usa drogas”! Patologias à parte, a busca pela droga é incrementada pela profunda insatisfação que aflige a humanidade, e a população dos Estados Unidos, em particular! A incerteza de um mundo sem empregos e oprimido pela ameaça das catástrofes ambientais; à deriva pela falência dos esquemas familiares tradicionais, pela falta de referências religiosas, pela quebra das utopias políticas, pelo excesso de informação trazido pela massificação midiática, pelo condicionamento de mentes e hábitos imposto pelo mercado publicitário; a prevalência do ‘ter’ sobre o ‘ser’ e a incessante busca de prazer imediato e vazio; são alguns dos fatores que impulsionam ao desconforto de si e à infelicidade, esta ampla ante-sala da busca por compensadores químicos.

Nossas crianças e adolescentes sofrem, cada vez mais abandonados à própria sorte, para serem criados pela mídia robotizante. Tudo porque, seguem as famílias, sem noção de seu papel de referência e autoridade, com casais derrotados pelo egoísmo do conforto pessoal de cada parceiro e pela indisposição ao sacrifício em prol da harmonia relacional, além da ditadura da busca incessante do prazer individual e supremo. Assim remetemos os casamentos à duração média, verificada pelo IBGE no Brasil, de apenas 10 anos. Por isso, as escolas tornaram-se barris de pólvora, recebendo a ingrata missão de, sem recursos, desentortar gente cuidadosamente entortada em casa. Neste quadro, é uma temeridade que, em um terreno assim fértil para desgraças, se permita a semeadura da cannabis.

Ao contrário do que se pretende, maconha mata sim. Se não pela overdose, apenas tecnicamente possível, morre-se pelo efeito “porta de entrada”, que leva às drogas mais pesadas; morre-se pela diminuição do senso crítico e da disposição para os virtuosos bons combates da vida; morre-se pelos efeitos diretos na saúde, dentre os quais, diversos tipos de câncer, inclusive, de bexiga e de pulmão; morre-se pelos danosos efeitos cerebrais que, além da destruição de neurônios, provocam diminuição da atenção e a possibilidade de graves acidentes de trânsito e de trabalho. Mas, acima de tudo, morre-se como humanidade, porque a maconha, lembremos, distrai das lutas e inabilita às reflexões necessárias a atitudes de combate à injustiça. Não esqueçamos que Gilberto Freire registrou que os senhores das senzalas brasileiras eram coniventes com o consumo de maconha pelos escravos, porque, assim, estes ficavam mais tranqüilos e inaptos a rebeliões.

Logo, não pode ser progressista uma proposta que esteriliza combatentes do progresso e da liberdade. Não pode ser progressista uma proposta defendida reiteradamente pelo mega-especulador George Soros e pelo jornal neo-liberal inglês The Economist. Chega ser feio ver militantes egressos dos anos 60 não perceberem o envelhecimento – maior do que uma ruga de Mick Jagger – do discurso que dava charme ao terceiro elemento do discutível paraíso de sexo e rock’n roll, que hoje se tornou martírio.

(CONTINUA NA POSTAGEM ABAIXO)

MARCHAS SUICIDAS - II
(CONTINUAÇÃO)


Muitos dos defensores da liberação da maconha se sustentam em argumentos de filósofos e pensadores como Stuart Mill, John Locke e Milton, por exemplo. Mas se as suas obras forem lidas com atenção, se verificará que nenhum deles defende liberdades absolutas. Liberdade absoluta não existe. Assim tem decidido o Supremo Tribunal Federal, quando afirma a relatividade dos direitos. Liberdade absoluta se torna ditadura, já que apenas alguns a possuirão ou se torna o caos, já que liberdades absolutas para todos redundarão em conflitos aniquiladores.

Aqueles autores, inclusive, ao contrário do que muitos pensam, jamais admitiram a liberdade de expressão completa, outra ilusão dos falsos progressistas. Montesquieu, por exemplo, admitia que se dissesse tudo em praça pública, exceto que se pregasse a destituição do governo legitimamente constituído. Stuart Mill, embora admitindo a possibilidade da embriaguez, desejava que se impedisse a propaganda dos produtos que a tanto pudessem levar. John Locke não admitia a propaganda do ateísmo. John Milton não queria que se desse voz pública aos católicos. Cada pensador, em sua época, condicionou o exercício das liberdades a uma fronteira em que não fossem atacados elementos estruturantes daquela sociedade à qual se dirigiam.

Por isso, numa sociedade oriunda do Iluminismo, Mill não queria o aumento do número de pessoas incapazes de reflexão racional. Locke, numa sociedade baseada em preceitos religiosos, não dispensava a fé como pilar do convívio humano. Aliás, mesmo pensamento de Tocqueville, que ao analisar as virtudes da democracia americana, viu como indispensável ao funcionamento do sistema, o freio moral oferecido pelo puritanismo, como elemento regulador das liberdades a serem praticadas. Milton, num país que se estruturou em torno do combate ao catolicismo, via como retrocesso a permissão de voz ao sistema religioso papista, que tanta opressão provocara.

Nos tempos contemporâneos, um exemplo desse cerceamento ao que possa ferir elementos fundantes da sociedade, é a vedação à propaganda do nazismo. A experiência do Holocausto e os milhões de mortos civis e militares na sangrenta guerra provocada por Hitler e sua megalomania histérica, deixaram a humanidade ressabiada. No Brasil mesmo, a lei contra crimes raciais proíbe a propaganda do nazismo e há julgados célebres do nosso Tribunal Maior em que foi cerceado o direito de expressão, impedindo-se a publicação de livros que divulgavam as propostas nazistas.

A liberdade de expressão é limitada também quando se impede que produtos para adultos sejam divulgados a menores de 18 anos, vedação absoluta, que não pode ser vencida nem mesmo pelo poder familiar. É que a proteção à infância e à juventude é esteio constitucional do Estado Democrático de Direito Brasileiro, que reconhece as peculiaridades da criança e do adolescente como seres em formação, merecedores de cuidados e para quem se exige não serem expostos a influências nocivas ao seu desenvolvimento.

Logo, se a maconha provoca graves danos à saúde, se não é uma proposta progressista, se temos uma sociedade que estimula irresponsavelmente a procura por compensadores químicos, se não é com anestésicos que resolveremos os cancros morais da humanidade, se a dignidade da pessoa humana, esteio da civilização, é atacada pela drogadição, se a liberdade de expressão não é absoluta, a “Marcha da Maconha” deve ser proibida.

Acresço, finalmente, o argumento mais simples e, sem dúvida, o mais importante. A lei proíbe a propaganda ou divulgação de substâncias que possam causar dependência química, a menores de dezoito anos. Os Juízes da Infância e da Juventude, quando concedem alvarás para eventos, devem zelar pelo cumprimento dessa ordem. Propagandas televisivas de cerveja, por exemplo, só podem ser exibidas a partir de determinado horário, visando impedir a assistência de crianças.

Logo, ainda que a pretexto de, meramente, abrir debates sobre a liberação das drogas, não é razoável que se permita a caminhada de pessoas que, como ocorreu na marcha de 2007, no Rio de Janeiro, poderão, não só estar defendendo a maconha, como, ainda, afirmando em cantos de guerra “Eu sou maconheiro com muito orgulho, com muito amor”!

E, ainda por cima – como, parece, voltará a ocorrer este ano - utilizando máscaras de personalidades que usam, usaram ou defenderam o uso ou a descriminalização do uso de maconha. Máscaras de FHC, Sérgio Cabral, Michael Phelps, Marcelo D2, dentre outros, já se encontram disponíveis para download na página do Coletivo Marcha da Maconha. Quem sabe criamos também uma página onde possamos colocar as máscaras das mães desesperadas, dos pais aflitos, dos garotos desdentados, dos jovens de cabeças estouradas, com aqueles olhos embaçados dos desesperançados, ou com a pequena face de tragédia cruel dos meninos e meninas que se prostituem na Cracolândia! E daí, uma inusitada caminhada em sentido contrário, com essas esfarrapadas máscaras de sofrimento, se encontraria com a saudável pequena burguesia mascarada que afirma estar pedindo o fim da “guerra aos pobres”! E isso quando se sabe que os mais altos índices de aprovação às políticas de descriminalização ou liberação de drogas não se encontram nas classes menos favorecidas – que esmagadoramente rejeitam tais propostas - mas sim nas classes abastadas. E, neste embate, fico com os rappers Gog, Rappin Hood e MV Bill, que já se manifestaram pela prioridade de liberar-se antes o feijão e a escola, para só então tratar-se da questão da maconha.

Que os debates se travem no âmbito universitário, nos auditórios do Congresso Nacional, nos Tribunais, em teses e debates nas publicações – e sempre sem a presença de menores de idade! Mas que não se permita a propaganda – ainda que indireta, sob a forma de defesa da rediscussão da lei – de produtos que levam desgraça aos lares brasileiros, na rua, à beira das praias e praças onde as famílias se reúnem.

Enquanto escrevo este artigo, estamos encaminhando à internação socioeducativa um garoto de 13 anos, viciado em crack. A mãe desempregada, grávida precoce, de família desfeita, miserável, chora, com o seu outro filho ao colo. O menino que desce para a crueldade de um presídio juvenil, porque o Estado não fornece outra ferramenta para solução de seu caso, começou usando maconha misturada com crack, o famoso “mesclado”, que já assombra as periferias brasileiras. O abismo está próximo. A partir de certo ponto, certas marchas de uns, viram o suicídio de todos.

***
[1] Todos os dados e pesquisas mencionados neste artigo foram extraídos do livro do autor, “Assim Caminha a Insensatez – A maconha, suas marchas, contramarchas e marchas à ré” (Usina de Letras, 2008)

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


06/04/2009 UM SELO ÚTIL E URGENTE!

Vcs. sabem, maio está chegando, e a Marcha da Maconha vem aí. Nada contra debates e defesas do que quer que seja, mas há modos, e locais adequados para tudo. Na rua, debaixo de nossos narizes, em frente a nossas crianças, contradizendo o que lhes ensinamos... NÃO!!!!
Escrevi um livro falando sobre o absurdo desta marcha ("Assim Caminha a Insensatez - A maconha, suas marchas, contramarchas e marchas à ré" - ver link aí ao lado). Disponibilizo o selo acima, que acabei de preparar, para quem quiser usar.

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


03/04/2009


SAINDO DO CASULO

Ontem foi um dia complicado, com audiências muito complicadas na Vara da Infância. Adolescentes dependentes químicos que se tornam ladrões; meninas que deviam estar brincando de boneca; com os narizes ainda manchados do pó da desgraça; abuso sexual entre menores; espancamentos de crianças; estruturas da cidade que não funcionam, bem deixando as crianças sem transporte; gente bem intencionada que comete descuidos que expõem crianças a abusos... enfim... tanta coisa que nos provoca lágrima, indignação, e... se não tivermos cuidado: desânimo!
Mas aí surge aquilo que anima, fortalece, revigora, reforça a fé na boa luta bem combatida: os três meninos que, ontem, saíram da Semiliberdade pra liberdade assistida ou completa! Dois já com empregos, todos com bons propósitos, as mães com eles, orgulhosas, felizes, aliviadas! A esperança abrindo suas asas, a liberdade bafejando prata em seus olhos... Meninos pretos, mestiços, pobres, mas que, do CRIAM saíram como borboletas saindo de um casulo. Que vão com Deus: que levem os conselhos, os abraços, os debates, os filmes, a terapêutica, os esforços, as sementes, o futuro!!!
Voem! O universo os espera!
E que dessa vitamina continuemos a alimentar nossos dias de esperança sincera. Vitórias virão!


30/03/2009

MILAGRES DA TESOURA
Vou ao CRIAM a cada 15 dias para uma trabalho de sensibilização artística e reflexões sobre direitos, deveres e cidadania, dentre outras coisas. Assistimos filmes e os debatemos; quando dá, fotografamos, desenhamos, observamos e desenhamos mapas, papeamos muito.
Na última ida, fizemos recorte/colagem.
Deus me deu um presente.
Um menino, que aqui chamarei de "JW", com uma história de desgraça e tristeza, como vítima e autor de atos infracionais, sem família, muito desprezado por tantos e por quase todos, de repente... produz uma verdadeira obra de arte!!! Mesmo!
Oh Deus, obrigado por me ter permitido viver esse momento-milagre, de observação da centelha que pode salvar uma vida! Dê-no sabedoria para saber ajudar a avivá-la. Que a desgraça não prevaleça!
Ás vezes só falta fazer a tesoura chegar na mão certa. Daí, a pessoa exclui do fardo de papel o que não interessa, corta da vida o que estraga, e o que fica... ah, o que fica é um sol!

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


25/03/2009


REFLEXÃO NUM FIM DE EXPEDIENTE RUIDOSO
Todo rio tem pedras.
Toda pedra, sua escarpa.
E quando escarpa, inevitável topada.
Sempre tem dores, a topada .
E toda dor lança, afiado, seu grito.
Todo grito é certo que range.
Deveras, todo rangido incomoda.
E... que nem aquele querido LP arranhado,
incômodo aperta.
Mas todo aperto da alma
é um torniquete... sufoca.
Sufoca tanto, que todo sufoco
uma hora, sangra, açude que transborda.
Mas quando transborda,
da cheia,
surge um rio.

Assim, a vida.

Por isso, te acalma.
A vida:
uns rios tortos, umas pedras bicudas,
uns peixes espada que mordem,
um redemoinho que nos leva um pedaço aqui,
um abismo que nos traça um naco de alma ali...
A vida, fazer o quê?
Ah, mas olha só essas lavadeiras tão lindas,
lavando seus brancos nas beiras,
Olha essas crianças que mergulham
como esperanças em setas,
Percebe essas plantas de seda que beijam a água,
ali uns pássaros, aqui uns plânctons,
o sol que gordo como um sultão,
viceja... na água,
luz líquida... esse rio.

Ora, se é luz,
não reclame das beiradas dos montes
que apenas, como a beirada de cobre da lanterna
não atrapalham sua luz...
Só ajustam o foco da aurora.
É assim que ficamos menos cegos.
Assim nos tornamos mais rios.
Ricos.
Rios.
Rio.
Outra travessia foi feita!
Comemora!!!

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


28/02/2009


REFLEXÕES SABATINAS

A vida tem coisas que são intrincadas, intrincadas coisas, na vida e nas coisas, como a vida, ela própria, é uma teia de fios que se retorcem, uns sobre os outros, fazendo da gente uma coleção de passados, um farnel de presentes, um mostruário de futuros projetados, memórias de açúcar, saudades de chumbo, tristezas de água, esquecimentos lembrados, lembranças perdidas num poço...
Porque a vida é assim, uma floresta onde tem aquela árvore, na qual reside uma coruja, cujos olhos iluminam a formiga, a mesma formiga que come a folha, a folha que bebia o sol e o conduzia à raiz, que chupava os minérios e as vitaminas do solo, estes mesmos minérios que, olhados de perto, têm cristais, têm moléculas, que mais de perto ainda, se descobrem átomos girando, entrelaçados, estes átomos que os queria Demócrito, indivisíveis é que os queria, coitado, mas cada vez que se abre um átomo se descobre a partícula, e cada vez que se observa a partícula, se percebe um abismo na subpartícula, e hoje se começa a concluir que ali, naquele abismo invisível, intocável, ali mora Deus, com seus músculos, seus silêncios, sua força, serena força, inigualável força, que dá sentido a tudo e faz de tudo o um...
Esse Deus tão calado de boca e falante de gestos e obras, cheio de escritas pra cada um de nós, escritas pessoais, cartas particulares nas nuvens, nas crianças, nos berços, nos currais, nos jardins, na maravilha, enfim, Ele, todo ouvidos e olhos prá nós, tecelão de horizontes, arquiteto de humanidades, jardineiro de galáxias, esse Deus que olha de fora do Universo, enquanto é Ele mesmo o Universo, como um oceano de prata e ouros e fogos onde flutuam tanto os planetas menores, tanto as estrelas perdidas, quanto nossas maiores esperanças...
Esse Deus que demonstra que nada é só o que se olha, porque vemos pouco, míopes que somos, porque nossos olhos são pequenos, e porque usamos telescópio onde necessário o microscópio, e porque apontamos lunetas para átomos, que por inapropriada lente, assim ficam ocultos, mas que lá estão, rindo de nós, de nossos darwinismos primários, dos nossos quantas ridículos, da fé burra, da razão sem fé, essas muletas de uma perna só que nos levam, mancos seres que não percebem o todo e só querem a parte, esquecendo que a vida é inteireza e completude...
Por isso é que o ar que respiro agora, sei que tem poeiras, tem ácidos, tem memórias e lembranças que irão a meus pulmões me dando tanto oxigênio benfazejo, quanto bactérias, estas, que porão a trabalhar meus anticorpos, pra que não fiquem frouxos, pra que tenham saúde, esses soldados do organismo, e este ar que em mim ingressa vai virar alguma forma de tônus, de conexões neurais, de usinas de calor que me farão bater o coração no peito, e assim o ar correrá meu sangue pelas veias todas, far-me-á um calafrio, e que desembocará numa palavra, esta mesma palavra que no papel, debaixo da tinta, esconde, portanto, este mesmo ar, disfarçado, travestido, convertido, transformado, este ar que é na verdade sentimento e que se torna palavra, palavra que bebida por um coração aberto se fará sangue, correrá veias, virá aos pulmões e, quem sabe, se transformará em suspiro, colocando na atmosfera novos sentimentos, que abrirão suas asas e aspirados por outras almas, irão gerar novas palavras...
Porque a vida é assim, aquilo que vem de você, de bom ou de mal, me completa, e mesmo quando me rói, me estrutura, porque reforça outra musculatura, porque as coisas estão aí, ligadas, interligadas, interpenetradas, como os fios de uma corda, finos, frágeis, mas que unidos levantam a ponte que leva do castelo aos paraísos que moram após o abismo.
Porque a vida é intrincada, texturizada, tecida, cerzida, teia, trama, rede, fiação, cabeamento, renda, fuxico, costura, rima, quadra, redondilha, trança de menina, a vida é. Cuida, portanto, do fio que você nisso tudo significa, cautela com o fio que em ti se enrosca, que a vida seja zelo e algodão do bom, linha firme e agulha reta, pra que haja à tua volta equilíbrio e bom tecido para as mantas que acolherão o sono das crianças.
****

PUBLICAÇÕES DO BLOG ANTERIOR


16/02/2009 A MACONHA DE FHC NÃO CHEIRA BEM - 1

Há um ditado machista que já deu um punhado de confusões na política brasileira (proferido desastradamente por Maluf e depois, Marta Suplicy): “se é inevitável o estupro, relaxa e goza”. É uma frase canalha, mas tem lá sua moral duvidosa: tire algum proveito da desgraça.
Anos 80. Sarney fez a moratória da dívida externa, que tanto o PT – que não a fez, por sinal - defendia. Era o presidente-por-acidente um corajoso, um bravo e era seu bigode um jardim socialista? Não! Ali não havia coragem, mas cofres vazios. O Brasil quebrara. Logo, moratória! Mas alguns se iludiram com o arroubo.
Tímidos cães, acuados nos becos, viram feras de ataque. São corajosos? Não. Apenas, não têm saída, e o instinto de sobrevivência os convoca. Já que para a carrocinha se vai, porque não como fera?
Problema. Nenhuma estuprada realmente se alegra, acadêmico udenista não se torna um Guevara e a regra é que viralata é necessariamente um cachorro medroso.
Essas foram as reflexões que, de pronto, me ocorreram quando do anúncio, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, da proposta discutida recentemente, na 3ª Reunião da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, de descriminalização da maconha para uso próprio. O pessoal está mesmo jogando a toalha, pensei. E com a derrota dos esforços de controle da drogadição, ainda querem posar de progressistas, continuei pensando. A proposta será levada à ONU, que, pelo seu Escritório Contra as Drogas e o Crime (UNODC), se reunirá em março, havendo possibilidades de que adote a proposição, abrandando ainda posições com relação a outras drogas.
O problema é que, quando se fala sobre o fracasso da política de combate às drogas, parte-se sempre de um raciocínio simplista: “Repressão não adianta”. Bom, depende das informações de quem fala, e mais, depende das intenções do discurso. Em qualquer tentativa de tapar buracos de estrada, não basta somente jogar areia e asfalto nas crateras. É preciso ver de onde vieram. O Brasil, hoje, tem crateras estruturais e, claro, não há repressão (remendos de areia) que as feche. E a coisa vem de fundo, de baixo, de sismos subterrâneos. Por isso, repressão só, é coisa mal intencionada mesmo. Não tem como dar certo. Agora, posar de progressista com o próprio fracasso da política incompleta? Não seria melhor reconhecer, sim, suas falhas, mas, além de expurgá-la de excessos, complementá-la com o que necessita para dar certo?
Ninguém mais pretende que seja o usuário dependente tratado como criminoso, embora ainda seja polêmica aqui ou ali, esta posição. Compreende-se a controvérsia, pois na verdade, ao contrário dos crimes contra o patrimônio, em que criminaliza-se a receptação para inibir furtos e roubos, tenta-se combater o tráfico descriminalizando-se a posse para uso. De certa forma, permite-se, e até se estimula, o mercado e a demanda, e se quer fechar a fábrica! Mas até acho esse contrassenso necessário. Em tese, a receptação de res furtiva não vicia, não cria dependência nem vira doença. O usuário dependente, por sua vez, é um doente. A ele, os benefícios da Saúde Pública, com os devidos rombos no erário, afinal, que a sociedade arque, em impostos, com o ônus de ter permitido que a ambiência e o tráfico viciassem aquele sujeito.
Mas o que não dá pra aceitar é o conjunto de atitudes e propostas que, até na boa intenção de livrar o dependente da opressão policial, acabam, ingenuamente em minha opinião, contribuindo para a propagação da mazela do vício. Mais ou menos como ocorreu com a tentativa de eliminar a discriminação contra os portadores do vírus HIV. Isso, aliado ao avanço da eficácia da medicação, que melhorou a qualidade de vida dos pacientes, tem feito a nova geração retornar a comportamentos de risco que pareciam vencidos. Horrorizei-me na última semana, com um adolescente infrator que participava de um grupo numa instituição, em que eu dirigia um debate. A dada altura, o assunto passou pelo uso da camisinha. Além das queixas normais dos rapazes aos incômodos do artefato, embora confessando aqui e ali uns vacilos ou “esquecimentos”, ninguém contestou sua necessidade. Entretanto, um dos mais jovens do grupo afirmou, com, todas as letras: “Não uso, senhor. Morrer de AIDS não é vergonha. É coisa de macho”.
Recente reportagem do O Globo falou sobre a prática homossexual do “bareback” em que portadores de AIDS são “disputados” exatamente para sexo suicida, desprotegido, numa adrenalina idiota de um tempo insano, de gente insana caminhando para a cova. Evidente, como alguns especialistas notaram, que essa postura surgiu da pacificação em torno da aceitação social dos portadores. Muitos morreram para que se alcançasse esse respeito e tolerância, além de aumento da cautela. Mas está aí, o efeito colateral: uma geração jovem, que desconhece dramas recentes, talvez passando a achar a AIDS tão “normal” como uma “gripe sexual” ou algo similar.
Claro que não estou defendendo que se volte ao preconceito contra portadores do HIV. Apenas alerto para certos equívocos de discurso em termos de conteúdo ou de ênfase. Repressão às drogas não dá certo? Depende. Na Europa, a Suécia reprime tanto quanto os Estados Unidos. Nestes, a repressão não resolveu tudo, a drogadição aumenta. Já no país nórdico, o consumo e o tráfico se reduziram. Portugal fez liberalidades (descriminalizou até 10 doses). O que aconteceu? O tráfico se adequou aos limites dos pacotinhos. O crime só fez aumentar suas bancas de varejo.
Quanto ao aumento da drogadição, americana ou brasileira, vejamos. O que leva uma pessoa à escravidão das drogas? Predisposição genética, ambiência e experimentação. Da herança genética vem o veneno incubado que a ambiência favorece a experimentação dispara. E a ambiência se prova cada vez mais relevante. As angústias contemporâneas de uma sociedade vazia de valores espirituais e morais, onde o egoísmo dita os comportamentos da busca do prazer imediato, do lucro imediato, do “tudo ao mesmo tempo agora”, são um fator tão extremado que se converte em circunstância inédita de ambiência, que fomenta o interesse pelo escape que tranqüiliza, ou pela “vitamina” que acelere os ritmos necessários a que o organismo suporte a insana competição com o relógio.

(continua no post abaixo)

A MACONHA DE FHC NÃO CHEIRA BEM - 2
(continuação do post acima)

Os Estados Unidos, campeões de individualismo nefasto têm ambiente propício ao aumento da drogadição. Logo, dizer que lá a repressão falhou é uma afirmação que não percebe o que poderia ocorrer se a repressão não existisse: uma explosão de consumo ainda mais relevante, apocalíptica, talvez. Já no Brasil, além do individualismo, temos a desproteção social, a miséria, a incerteza do amanhã, o estreitamento das possibilidades de futuro tanto para as novas gerações quanto para os de meia-idade. Os extremos etários que não encontram colocação no mercado gerando a angústia que favorece a experimentação química. Agora, retire-se a repressão e mantenha-se o estímulo dado pelas circunstâncias contemporâneas. É a explosão. E isso significa mercado, grana, impostos, gente que embolsa lucros. Por isso, o título. Acho que FHC é um cara bem intencionado, mas que a maconha que defende não cheira bem, ah isso não cheira mesmo.
Não acho que deva cessar a repressão. Acho deve parar de ser utilizada como instrumento de dominação política. Acho que deve cessar seu uso como fator de opressão classista. Acho que deve ser tratada com a conveniente formação dos agentes de segurança em direitos humanos. Mas entendo que se deve acoplar à repressão uma firme disposição de seguir os mandamentos da Carta das Nações Unidas e da Constituição Brasileira que apontam os objetivos de construção de sociedades fraternas, igualitárias, onde todos tenham seus afetos e seu pão. Sem isso, não há prevenção que dê certo. É como educar alguém para o mundo do emprego, e ao mesmo tempo dinamitar as possibilidades da economia que geraria esses empregos. Educar alguém para a saúde, mas injetar-lhe nas veias, pela ambiência, pelas mídias, todos os estímulos à busca da depressão e da doença.
FHC refere-se também, como se tornou comum hoje em dia, à baixa lesividade da maconha, mito que precisa urgentemente ser derrubado. Se, em geral, ninguém morre de overdose de maconha, isso não a torna uma droga “branda”. É uma droga-escada, é um produto alienante, e o discurso do “não faz tanto mal assim” ajuda à sua propagação. Converse com adolescentes que estão escravizados pela dependência química. Pergunte como começaram. Você, provavelmente, ouvirá: com álcool e maconha. Uma, a droga (droga, sim! conserte sua lista, ANVISA!) legalmente aceita e a outra, cada vez mais, socialmente tolerada.
Isso tem me indignado profundamente. Quem viveu de perto a experiência de lidar com drogaditos sabe dos riscos desse discurso. Por isso é que ninguém pode pretender supremacia nesse debate. O pessoal da segurança quer a liberação, porque acha – equivocadamente – que reduziria a criminalidade. A galera da educação e das ciências da mente, em geral, permanece combatendo a droga como alternativa de vida saudável, porque conhece, no maconheiro, por exemplo, as crises de ausência, a dificuldade de concentração, o isolamento social que tantas vezes ocorre. Já o pessoal do direito se divide entre maximalistas e minimalistas do penalismo. Uns querem mais repressão, outros, descriminalização geral. Ah, não esqueçamos de economistas – conservadores à frente – que pretendem abocanhar os recursos que a liberação geral traria aos cofres do mercado. Por ora, eu fico com os pais e mães conscientes, preocupados, aflitos, vendo o que o mundo de hoje está fazendo com a educação que tentam dar a seus filhos – claro que me refiro àqueles que ainda tentam educar realmente seus filhos. O mundo contemporâneo está transformando em farrapos e cinzas a educação e a autoridade familiar. Liquefazendo-as, como diria Bauman.
A ponto de, naquele grupo de meia centena de jovens traficantes de classe média presos recentemente numa operação da Polícia Federal contra o tráfico de drogas sintéticas, ter surgido um pai que confessou que seu filho consumia maconha em casa com sua autorização, nefasta posição que muitos defendem. Bom, esta aí o resultado: filho traficante.
Ok, amigos, presidentes, ex-presidentes, secretários de segurança e todo mundo, enfim: não prendamos mesmo as pessoas doentes, não ponhamos a ferros os dependentes químicos. Mas, devagar com o andor. Não façamos do combate a uma discriminação ou estigmatização social uma propaganda do equívoco. Não aumentemos o estoque de doentes. Se não tapar os furos da canoa não adianta ficar tirando água com a caneca.
Perceba, leitor, que hoje, pela Lei 11.343/06, já não se prende o usuário. Mantém-se a criminalização, apenas no sentido em que remete ao juiz criminal a advertência ou remessa do usuário a programas educativos ou terapêuticos. Mas a proposta sobre a maconha apresentada por FHC - além de esbarrar numa razão que remete ao “jogar a tolha” do início do texto: “é a droga mais consumida” - não é clara neste ponto. Pode apenas retirar o caso totalmente da esfera criminal, inclusive evitando apreensões policiais de usuários, mas pode, ainda, obrigar à definição da quantidade que seria considerada como porte para uso próprio, tema do qual a lei brasileira sempre se esquivou, delegando ao juiz o exame do caso concreto. Aí mora o risco, a exemplo do que ocorreu em Portugal do tráfico de camelotagem.
Mas, à margem dessas questões técnicas, me preocupa mesmo é o discurso como um todo. No livro que escrevi “Assim Caminha a Insensatez - a Maconha, suas marchas, contramarchas e marchas à ré” (Usina das Letras/Vermelho Marinho, 2008) busco combater essas posturas (como a própria Marcha da Maconha) que, mal compreendidas, ou divulgadas sem temperamentos, podem aumentar nosso caos social. Cansei de ver futuros emborcados na lama.
*.*.* Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 18h37