Denilson
Cardoso de Araújo
Título
feio, este. Neologismo de beira-ridículo. Aqui bem serve, entretanto. Pode convir
para descrever o que não é educação. E aí, não parece educação,
efetivamente, a atual situação em Petrópolis. Conta pesada, de vários “penduras” de
muitos governos. Injusto dizer que a culpa da explosão é de quem está com a
bomba no colo na hora do desastre.
Por
isso não entro no histórico do fato. Apenas fotografo o quadro. Há uma crise.
Em tempo difícil. Último ano de mandato, ano também de eleição. Não crucifico
ninguém, aqui. Teria que desfiar mil novelos até às origens. Não posso. Longe
da cidade muito tempo, não opinaria de maneira fundada sobre tal genealogia.
Mas
uma crise ocorre. Escolas com grades ocas, sem professores. Alguns dos que há, lavam
banheiros, porque escasseia pessoal de apoio. Diretores inspecionam pátios
porque inexistem inspetores. Diretores desistem da direção, porque as contas
desfavoreceram. Outros deixaram a sala de aula que acumulavam porque o PCCS
assim prescreveu mas substituto não veio. Daí, tempos vagos, metendo alunos a
perambular pelas ruas, nos turnos amiudados de horário. Salas operam com mais
alunos do que o recomendável. Obras de igreja se esticam nas escolas, por empreiteiras
desleixadas de prazos. Não se capinam matagais invasivos, não se trocam
telhados quebrados.
Mas
a crise será minorada. Apoios contratados chegam, concursados serão empossados.
A Professora Cláudia se empenha. Mas há estragos. Esvai-se no ralo valioso aprendizado
em danificado semestre. A autoridade docente, há tempos esculhambada por
fatores extra-escola, emagrece. Engordam no tumulto embriões da indisciplina
futura. Educação e lavoura não perdoam descumprimento de prazos. A terra para
que a semente floresça, precisa de tratos antecipados, aragem de terra, adubos,
preparos. Perdidos os tempos, colheita não vem. Assim, alunos.
A
insatisfação é anticlímax para vários que celebraram o PCCS aprovado ano
passado, à custa de idas e vindas, mobilizações, negociações, exaustão. Agora
se revela outro lado. Exclusividades se exigem. Algo melhorou, mas algo piorou,
dizem-me. A transição de uma realidade a outra tem que ser feita em tempo recorde.
Canoa que sai da lagoa serena e entra no roldão do rio feroz. Não pode afundar.
Mas difícil é que navegue. Bom já será que não vire. Se porto almeja, necessário
dar a essa quase jangada feições de barco, providenciar boa quilha, ampliar os
remos. Tudo feito no sacolejo molhado que come os pulmões, enquanto a água
ameaça naufrágios.
Mas
sou otimista. Venho de família de professores. São otimistas. Conversei com
alunos, professores, diretores. Há otimistas. Conheci pessoas da Secretaria de
Educação. Vi: sinceramente querem “Educassim”!
Mas...
título feio, este. Neologismo de beira-ridículo. Aqui bem serve, entretanto.
Porque podia soar como palavra de ordem e tentação aos mestres pressionados
pela situação complicada em que governos outros resistem ao piso digno: “-Educa-não!
Não eduque! Você não está ganhando pra isso. Chute o balde!”. Mas educação não
é profissão liberal. Não há o trabalhar solitário, entrar olímpico em sala, dar
seu recado límpido e sair para a vida, sem vincos. Solidária é a educação, ou educação
não é.
Há
que interagir com aluno, direção, colegas, família. O foco é o aluno, a relação
humana primordial, professor–aluno, matriz celular sem a qual acontece nada.
Daí é que o ser humano evolui. Contaminado esse berçário de gente por desleixo
ou deserção, futuro não há.
Educação
é barco de remos muitos, para guerreiros vikings, para avás-canoeiros. Se um
lado do povo recolhe o braço e a remada, o barco gira no mesmo lugar. Não sai
da crise. Ao contrário, pode fortalecer o vigente espírito de redemoinho que
quer engolir a escola. Há que remar, e mais, o que pode parecer ironia em
tempos de guerra: remar em harmonia, cantando, marcando a sincronia, para que
haja viagem. Como tambor que compassa a remada, bate forte o coração do aluno
carente. À margem de divergências e questões políticas e sindicais, este é o
ritmo do esforço que se faz urgente.
E...
Título feio, este. Neologismo de beira-ridículo. Aqui bem serve, entretanto. Pode
valer para lembrar como o “não” é elemento central da formação, ao contrário de
pedagogias pseudo-progressistas que imaginam sins eternais como habitat da
criança ideal. Essa mesma criança que vai virar uma gelatina esparramada pelo
asfalto, quando adulta. Ou seja, um incontido inútil. Um indisciplinado sem
rumo. Sem esmagá-lo, precisamos dizer “não” ao filho e ao aluno, se não seus
músculos e asas não se desenvolvem. “É permitido proibir”, venho cantando,
desde Caetano.
Mas
antes de qualquer coisa, urgente é dizer “não” à desorganização. Por isso, meu
mais empenhado esforço, minha mais sincera prece, meu mais decidido apoio aos
que querem fazer da canoa estável barco. Deus abençoe quem capitaneia a missão.
Minha homenagem aos que se superam, na crise. Que um dia o magistério, que
ministério sempre será, não precise continuar sendo sacrifício. Sempre que
puder e me for concedido, ajudo a remar.
denilsoncdearaujo@gmail.com







