
---Há quatro anos vejo uma arena montada entre pessoas que pertencem ao mesmo exército (o da defesa dos direitos de crianças e adolescentes), mas se degladiam, gastando energia preciosa, que o adversário suga, enquanto cresce e ataca no vácuo deixado pela batalha insana.
---Há quatro anos sobram flechas para mim, pacifista inconveniente para os que não querem deitar armas ao solo para assentar-se à mesa do diálogo.
---Há quatro anos a fama de irascível me acompanha, quando desfilo com veemência meu inconformismo com a maluquice, a incompreensível amurada, o abismo artificial, montado e remontado sem razão.
---Há quatro anos falo sozinho, no deserto, um João Batista com muitos Herodes à volta. A bandeja já me espreitou o pescoço muitas vezes. Mas resisti. Continuo. Sempre achei que alguém ia me ouvir. Afinal, tenho história.
---Certa vez, pregador jovem, na Igreja Batista de Petrópolis, preguei numa praça vazia. Era um feriado ou coisa parecida, mas o grupo tinha feito suas preces, metido bateria e guitarras às costas, e fomos à praça. Pensaram em cancelar. Eu era o preletor. Disse: Falo assim mesmo. Não me assustam multidões, praças vazias também não. Se há mensagem, tem que ser entregue, foi uma lição que, novo, aprendi. Preguei à praça vazia. Ao fim da noite, já na igreja, aproximou-se um homem, que escutara, atrás de uma pilastra. Naquele dia seu desespero encontrou paz. Continuo, então, falando a praças vazias. Sei lá quem está atrás da pilastra?
---De outra feita, uma peça de teatro, e um blecaute, 10 minutos pós peça começada, num tempo sem celulares. Pedimos ajuda à platéia. Continuamos a peça, à luz de isqueiros e entusiasmo. Ninguem saiu. Continuo apresentando meu texto, mesmo no escuro da incompreensão. Sei lá se alguém traz um isqueiro?
---Teve também a greve que fiz sozinho. Nova Friburgo. Já nos tempos do neoliberalismo triunfante, esmagador de empregos. No dia marcado para o movimento coletivo, baixou a repressão, polícia, gerentes de banco ensandecidos, agarrando gente pelo pescoço... houve medo. Compreendi. Mandei os poucos que saíam para aderir retornarem a seus postos, porque tremiam de medo. Choravam. Passei o dia na porta da agência bancária, discursando contra a intolerância e confortando os que tombaram no medo. Era uma greve solitária, aquela minha. Mas sabia que alguém ia me ouvir. Um dia, mais tarde, aquele gerente alucinado foi derrubado pelos próprios funcionários.
---E assim tem sido. Falar sozinho não me incomoda. "Palavras, o vento leva", não é? Diz-se assim, no sentido da efemeridade do verbo. Mas aprendi que o ventio às vezes carrega palavras ao ouvido certo. Que assim seja.
---Há quatro anos, falo sozinho. Mas sempre achei que alguém ia me ouvir. Até porque a mensagem não é minha. Diálogo, união e abraço são mensagens de Deus. As prego. Sempre. Acho que alguém vai ouvir.
---Parece que chegou a hora. Amém!