domingo, 18 de março de 2012

EDUCANÃO


Denilson Cardoso de Araújo

            Título feio, este. Neologismo de beira-ridículo. Aqui bem serve, entretanto. Pode convir para descrever o que não é educação. E aí, não parece educação, efetivamente, a atual situação em Petrópolis. Conta pesada, de vários “penduras” de muitos governos. Injusto dizer que a culpa da explosão é de quem está com a bomba no colo na hora do desastre.
            Por isso não entro no histórico do fato. Apenas fotografo o quadro. Há uma crise. Em tempo difícil. Último ano de mandato, ano também de eleição. Não crucifico ninguém, aqui. Teria que desfiar mil novelos até às origens. Não posso. Longe da cidade muito tempo, não opinaria de maneira fundada sobre tal genealogia.
            Mas uma crise ocorre. Escolas com grades ocas, sem professores. Alguns dos que há, lavam banheiros, porque escasseia pessoal de apoio. Diretores inspecionam pátios porque inexistem inspetores. Diretores desistem da direção, porque as contas desfavoreceram. Outros deixaram a sala de aula que acumulavam porque o PCCS assim prescreveu mas substituto não veio. Daí, tempos vagos, metendo alunos a perambular pelas ruas, nos turnos amiudados de horário. Salas operam com mais alunos do que o recomendável. Obras de igreja se esticam nas escolas, por empreiteiras desleixadas de prazos. Não se capinam matagais invasivos, não se trocam telhados quebrados.
            Mas a crise será minorada. Apoios contratados chegam, concursados serão empossados. A Professora Cláudia se empenha. Mas há estragos. Esvai-se no ralo valioso aprendizado em danificado semestre. A autoridade docente, há tempos esculhambada por fatores extra-escola, emagrece. Engordam no tumulto embriões da indisciplina futura. Educação e lavoura não perdoam descumprimento de prazos. A terra para que a semente floresça, precisa de tratos antecipados, aragem de terra, adubos, preparos. Perdidos os tempos, colheita não vem. Assim, alunos.
            A insatisfação é anticlímax para vários que celebraram o PCCS aprovado ano passado, à custa de idas e vindas, mobilizações, negociações, exaustão. Agora se revela outro lado. Exclusividades se exigem. Algo melhorou, mas algo piorou, dizem-me. A transição de uma realidade a outra tem que ser feita em tempo recorde. Canoa que sai da lagoa serena e entra no roldão do rio feroz. Não pode afundar. Mas difícil é que navegue. Bom já será que não vire. Se porto almeja, necessário dar a essa quase jangada feições de barco, providenciar boa quilha, ampliar os remos. Tudo feito no sacolejo molhado que come os pulmões, enquanto a água ameaça naufrágios.
            Mas sou otimista. Venho de família de professores. São otimistas. Conversei com alunos, professores, diretores. Há otimistas. Conheci pessoas da Secretaria de Educação. Vi: sinceramente querem “Educassim”!
            Mas... título feio, este. Neologismo de beira-ridículo. Aqui bem serve, entretanto. Porque podia soar como palavra de ordem e tentação aos mestres pressionados pela situação complicada em que governos outros resistem ao piso digno: “-Educa-não! Não eduque! Você não está ganhando pra isso. Chute o balde!”. Mas educação não é profissão liberal. Não há o trabalhar solitário, entrar olímpico em sala, dar seu recado límpido e sair para a vida, sem vincos. Solidária é a educação, ou educação não é.
            Há que interagir com aluno, direção, colegas, família. O foco é o aluno, a relação humana primordial, professor–aluno, matriz celular sem a qual acontece nada. Daí é que o ser humano evolui. Contaminado esse berçário de gente por desleixo ou deserção, futuro não há.
            Educação é barco de remos muitos, para guerreiros vikings, para avás-canoeiros. Se um lado do povo recolhe o braço e a remada, o barco gira no mesmo lugar. Não sai da crise. Ao contrário, pode fortalecer o vigente espírito de redemoinho que quer engolir a escola. Há que remar, e mais, o que pode parecer ironia em tempos de guerra: remar em harmonia, cantando, marcando a sincronia, para que haja viagem. Como tambor que compassa a remada, bate forte o coração do aluno carente. À margem de divergências e questões políticas e sindicais, este é o ritmo do esforço que se faz urgente.
            E... Título feio, este. Neologismo de beira-ridículo. Aqui bem serve, entretanto. Pode valer para lembrar como o “não” é elemento central da formação, ao contrário de pedagogias pseudo-progressistas que imaginam sins eternais como habitat da criança ideal. Essa mesma criança que vai virar uma gelatina esparramada pelo asfalto, quando adulta. Ou seja, um incontido inútil. Um indisciplinado sem rumo. Sem esmagá-lo, precisamos dizer “não” ao filho e ao aluno, se não seus músculos e asas não se desenvolvem. “É permitido proibir”, venho cantando, desde Caetano.
            Mas antes de qualquer coisa, urgente é dizer “não” à desorganização. Por isso, meu mais empenhado esforço, minha mais sincera prece, meu mais decidido apoio aos que querem fazer da canoa estável barco. Deus abençoe quem capitaneia a missão. Minha homenagem aos que se superam, na crise. Que um dia o magistério, que ministério sempre será, não precise continuar sendo sacrifício. Sempre que puder e me for concedido, ajudo a remar.
                       
                                                denilsoncdearaujo@gmail.com

quinta-feira, 15 de março de 2012

SIAMESAS SERRAS


Denilson Cardoso de Araújo

            Andarilhei muitos lugares, mas são montanhas que me têm. Nascido em Petrópolis onde hoje laboro, residi 15 anos em Teresópolis. Mantenho um pé em cada serra. Tempos atrás tive dois pés em Nova Friburgo. Aprendi a amá-las. Cada serra com flora, pedras, história e parques, fartos e peculiares. Mesmo quando delas o serrano se esquiva, antes deposita seu coração numa encosta. Tem que voltar do planalto ou do litoral para recolher seu pedaço capital. Fora da serra, o serrano é incompleto.
            Mas serras dão-nos um problema. Em Brasília, ou à beira-mar, se percebe. A visão do longínquo entontece. Horizonte serrano é mais curto, cercado de pétreos vultos que viu o salmista – “Elevo os meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro?” (Salmos 121.1).
            Da unha do Dedo de Deus, da Pedra do Sino, ou do Cão Sentado, a serra dá fabulosos pores de sol. No ângulo correto, devem nada ao Arpoador e merecem aplausos de pé. Mas mesmo ali, o sol dura menos, porque montanhas o cercam. E poucos sobem os picos. Do pé das montanhas, nos vales, a visão é mais limitada. Resulta o sujeito criado nas serras desenvolver certa miopia que impede o mais largo enxergar. A visão do interminável oceano dá vertigens. Planícies remetem a insônias. Sem a segurança de uma parede de pedras ao longe, um barranco pra encostar, de um manacá pra segurar, uma nesga de pedra azulada pra encarapitar a referência do olhar.
            Por isso, chegado à praia, muitas vezes o sujeito montês demanda logo o retorno. Drummond, serrano cidadão de Itabira: “No elevador penso na roça. Na roça, penso no elevador.”. E quando pensa na roça, ou na montanha, pensa em alguém no cume, talvez “serrana bela” e bíblica, morena Raquel do soneto de Camões pela qual Jacó “não servia ao pai, servia a ela”. Porque serras são propícias ao amor.
            São propícias à guerra. Quando alguém procura refúgio guerreiro, estabelece fortificações estratégicas sobre a serra. A Serra do Mar, com nossas serras caseiras, compunham “Muralha” que afrontava e amortecia ímpetos desbravadores com escarpadas dificuldades. O sujeito das serras pode, assim, desenvolver-se com psique defensiva e retraída, defensora e defendida. Armadura psicológica que no desnudar das planícies faz sentir falta da pétrea vestimenta serrana. Alie-se a isso neblina constante branquejando colinas, ruço mais charmoso que fog londrino, enevoando o olhar. Podemos disso, alcançar: no atravessar paredão de neblina, argúcia é preciso. Logo, o montanhês traz olhar atilado que se não lhe concede ver mais longe, pode licenciar ver melhor.
            Junto com muralhas de pedra, geminadas com neblina, a temperatura glacial aflitiva, umidade que empesteia fundos de armários e livros nas estantes. O frio. Pode dar pizza na pedra e fondue com os amigos. Sopa e lareira, quem sabe? Mas frequentemente dá fechamento de porta e solidão. Vejo frustrações de emigrados de cariocas planícies. Prezam achar aqui, além da tranqüilidade, constantes convívios e leves amizades como os superficiais relacionamentos beira-mar, de calor humano ilusório e fantasia solidária.
            Não ocorre. Surge voraz solidão. O gregário padece. Consultórios recebem as vítimas. Depressão da serra. Não há praia, há frio. Muralhas de pedra, pessoas que se recolhem, círculos que se fecham. Difícil ingressar. Pode haver antipáticas “panelas”, admitamos.
            São honras e deméritos da vivência serrana. Eliminando estes em favor daquelas, carece lutar contra inveja mútua e ridícula em que uma serra desdenha a outra, quando todas (Petrópolis, Teresópolis, Friburgo e suas adjacências) têm ofertas tantas, atrações tamanhas, respeitáveis histórias e específicos prazeres complementares.
            Não sei se os pais fundadores das povoações encravadas na copa das serras fluminenses se entenderiam. George March, de Teresópolis, era britânico e lusitano. Nova Friburgo tem costela suíça. E o construtor de Petrópolis era Koeller, alemão. Desde 1818, 1819 e 1837, respectivamente, fincaram altas raízes nessas três pérolas verdes de 800 a 900 metros de altitude. Amulataram-se os europeus, clarearam-se os olhos mulatos e hoje somos isso, serranos mestiços que precisam colaborar. Recentemente unimo-nos nas pedras que rolaram, derrotando povoados e arrasando lavoura e famílias. Vivemos mesmas lágrimas da tragédia. Melhor se aprendêssemos a nos unir na preparação da alegria e no festejo da serrana condição.
            As eleições vem aí. Pós mandatos que oscilaram do constrangedor ao vexatório ou criminoso, é chance de reerguerem-se bases para o futuro. Que surjam lideranças capazes de bem gerenciar cada cidade, mas também de construir harmonia que nos enlace e projetos comuns que nos motivem.
            Temos potencial para ser disputado roteiro, de charme efetivo. O Ministério do Turismo já identificou-nos em seus mapas: “Serra Verde Imperial”, somos nós. Mas ainda escasseiam pacotes de viagem para cá. As serras gaúchas - depois de levarem daqui as mudas das hortênsias que não mais cultivamos como nossos avós - se entenderam, criaram circuito, e colhem fluxos nacionais e atenção estrangeira.
            Somos capazes de fazer mais por nós mesmos. Agência regional, talvez. Mas urge ativar a capacidade de enxergar através da neblina. Subir montanhas para enxergar horizontes maiores. Construir nossa irmandade. Siamesa, ela. Afinal, temos os mesmos pulmões.
                        

segunda-feira, 12 de março de 2012

NICK VUJICIC, INSPIRAÇÃO SEM FIM!

Veja:

O cara é o NICK VUJICIC. 



Diz a Wikipedia:"Nicholas James Vujicic (Melbourne, 4 de dezembro de 1982) é um pregador e palestrante motivacional e diretor da Life Without Limbs. Nascido sem pernas e braços devido a rara síndrome Tetra-amelia, Vujicic viveu uma vida de dificuldades e provações ao longo de sua infância. No entanto, ele conseguiu superar essas dificuldades e, aos dezessete anos, iniciou sua própria organização sem fins lucrativos chamada Life Without Limbs (em português: Vida sem Membros). Depois da escola, Vujicic frequentou a faculdade e se formou com uma bidiplomação. Deste ponto em diante, ele começou suas viagens como um palestrante motivacional e sua vida atraiu mais e mais a cobertura da mídia de massa. Atualmente, ele dá palestras regularmente sobre vários assuntos tais como a deficiência, a esperança e o sentido da vida."



Resumo: VIDA COM PROPÓSITO! Esta é a missão! Paremos de reclamar de dois quilos a mais, de uma verruga, de um colega de trabalho implicante, de um dente que cai... sei lá. Esse cara não veio à vida a passeio. Veio mudar a realidade. Ser sal e luz. Para isso nascemos. Somos os braços e pernas de Deus. Mesmo quando não os temos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 7 de março de 2012

DIA DA MULHER 2

DIA DA MULHER - Mando agora umas flores. Só pra lembrar, especialmente às meninas. Sabe uma luta boa pra comemorar esse Dia bonito e merecido? Adotar o lema 
"Cachorra não, eu sou princesa". É o que recomendo às adolescentes, nas palestras em escolas! Hoje não luta maior que esta para as mulheres deste Brasil de sexualidade pedófila e redutora do caráter de nossas meninas. Parabéns, princesas!

DIA DA MULHER 1

DIA DA MULHER - Pode parecer estranha esta minha homenagem. Mas é preciso conhecer essa realidade. Um grande filme triste sobre a condição feminina no Afeganistão. Como vcs sabem, o Dia da Mulher nasceu de uma luta em que mulheres se tornaram mártires durante a greve famosa. Recomendo, após as rosas e os beijos, ainda que no dia seguinte, assistir OSAMA, filme de 2003

DIAMANTINA

Denilson Cardoso de Araújo

Porque raro é o diamante, caro é que se apresenta. Brilha extraordinariamente em sua estrutura de átomos de carbono, bem dispostos em duro cubo. Inflexível, indomável, resistente: “adamas”, do grego, rijo e recortado. Translúcido, transparente, diáfano, num quê de bailarina. “Diaphanes”, do grego, como grinalda e aurora.
            Quem o vê num colo de mulher que ele ilumina, pensa que ali vai um naco pessoal da Lua. Quem vê a pedra coreografando não adivinha o que passou, quanto viveu. Quem diria? Podia ser carvão, apenas. Mas não é. Porque foi fervido nas entranhas incandescentes da Terra, em rocha líquida de fogo grosso e raro. Um dia, a passagem pela forja absoluta provoca a lava da explosão. Ruge o forno que se rompe em bocas de vulcão. A Terra oferece suas entranhas à luz do sol. Derramam-se em vales angulosos, fixam ilhas estranhas, inauguram istmos góticos. A mais jovem destas rochas prenhes de “adamas” tem 70 milhões de anos, diz-se.
            Diamantes enricam quem os vê, porque passeio dos olhos sobre coisa bela é um acender. O dorso de pedra que raja luz nos marca. Diamantes enricam os que têm a graça de os possuir. Por eles, sangue corre pelas áfricas da cobiça. Vidas se perdem no garimpo. No escuro veio das minas jazidas, no fundo dos rios jazendo. Diamantes, fronteira do risco. Abismos vestem diamantes.
            Mas diamantes, até chegarem ao belo colo ou dedo esguio, sofrem mais um cado. Quebras, cortes, entalhaduras. O lapidário que rala a pedra diamante com diamante faca e diamante pó. E põe na gema facetas, ângulos, espelhos, até lhe dar aspecto de vitrina cobiçada e museu de maravilha. Um dia repousa, o diamante. Cravado num berço. Tamanha sua importância, ninguém menos que o ouro é quem o recebe e deposita sobre a pele premiada da privilegiada amada.
            Coroas reais imploram diamantes. Se eles não vêm, diminui-se a majestade. Diamantes da Chapada. Reinos botaram alicerce nessas gemas. Portugal os comeu e repartiu a lauta refeição com a Inglaterra. Nestes 2012 a Rainha Elizabeth comemora seu jubileu de diamantes. Mas não é o trono britânico que move aqui estas linhas repletas do brilho que da pedra empresto.
            Em verdade, casal real de verdadeira gente completou Bodas de Diamante no 1º de Março que se foi. Vieram de roças, onde viram mais carvão que brilho. De Sapucaia e Cardoso Moreira, chegaram. Traziam pés de terra, mãos de lavoura, doces de tacho, penúrias de casebre. Ela foi empregada em casa de família, operária de confecção, professora. Ele esteve servente em padaria, fez-se caminhoneiro, foi garçom, tarde estudou, terminou bacharel.
            Um dia se encontraram. Numa igreja batista, deram-se as mãos. As fotos deles no Parque Cremerie adoçam nossos olhos com a ternura do momento antigo em sépia. Casaram-se no templo da Igreja Metodista. Foram à vida. Filhos, cedo vieram. Empenhos se fizeram. Labuta diária. Ele sem dormir direito para conciliar pão à mesa com o aprimorar saber nas leitoras madrugadas. Ela, se virando, costureira, educadora de urgências, lastro de tudo aquilo. A penca de filhos foi vestida, alimentada, acarinhada.
            A penca de filhos divertia-se com as badernas infantis em que se punham a enlouquecer esses pais que teciam em torno deles os fios da construção do caráter. Juntos levantaram paredes, pai pedreiro e filhos aprendizes, serventes aprendendo a servir. Juntos excursionavam à praia, piqueniques se instalavam em gramados improváveis. Pescarias se multiplicaram nas biografias. Caseiros lagos de peixes que inexplicavelmente sangravam secretos vazamentos. No carro pequeno, entulhados todos, desciam as serras, cantando.
            Momentos de abalo forte e algum susto houve. Aquelas horas em que parece que a família trinca e pode despencar. Disso ninguém se livra. Mas, dissemos, diamantes nascem da pedra em fogo. Buscados em escuras cavernas, em rios difíceis. Assim, famílias. Muitas, que desmoronam no primeiro solavanco, jamais verão fulgor de gemas. Viverão em pedras secas. Quando chegam da vida terremotos, há que buscar raízes que fincam a floresta ao solo.
            E raízes havia. Um “segredo” da família. Culto doméstico. Filhos na manhã à roda do casal, para abrir o dia com a prece, um salmo. O cântico! O coral desafinado que Deus aceita sempre, como se gregorianos monges fosse, porque, como se revelou a um poeta, “no peito dos desafinados também bate um coração”. Essa chave abriu portas muitas, para todos. E houve joelhos no chão, porque não se fazem alicerces (nem jardins, já disse) sem tal curvatura que a oração mais funda exige.
            Custa caro, o diamante. Custa alto elevar-se às bodas pertinentes. Quando vi meus pais na caseira festa, em frente ao painel, olhando o retrato do casório, percebi. O que Deus uniu não separe o homem, frase invencível. Meu pai disse à minha mãe, gaiato: “Viu que dedicatória bacana eu lhe fiz?”, apontando a foto de 60 anos passados, onde as letras brilhavam sobre aqueles jovens em reluzente vestido branco e beca de matrimônio. Ao que minha mãe veio com a implicância carinhosa: “É, mas tinha uma palavra errada que eu consertei...”. O riso de ambos, que só eu assistia sem que percebessem, valeu a festa. Porque a vida foi assim. Coisas bacanas, meu pai fazia. Mas minha mãe ajeitava. Isso é diamantina parceria, pedra vulcânica que vira luz lapidada.
            O precioso é filho do esforço. Nilma e Dinizar de Araújo, meu beijo, porque nos enricaram disso.
                       
                                                denilsoncdearaujo@gmail.com

sexta-feira, 2 de março de 2012

GENTILEZA SOBRE AS CINZAS

Denilson Cardoso de Araújo

Em 1961 a voracidade das chamas que engoliram o Grande Circo Americano levou esposa e os cinco filhos de José Datrino. Empresário, largou a vida. Um dia escutou vozes e voltou ao local do incêndio, em Niterói. Plantou um jardim sobre as cinzas da catástrofe, e nele morou. A tragédia o desnorteou.
Por outro lado, a tragédia o norteou. Saiu de lá gentil e profeta. Nos preâmbulos do que viria a ser contracultura hippie, Datrino tornou-se andarilho, país afora. Protótipo do “maluco beleza”. De cajado, túnica e longas barbas, pregava pelas praças. Com senso plástico raro nos painéis fraseados que pintou, José Datrino vestiu de gentileza um viaduto no Rio, nos idos dos 1980. Louco, descreveram o profeta popular, acatado nas ruas. Como disseram de bíblicos profetas, acolhidos nos céus.
            É que muitas vezes chamamos loucura o que não entendemos. Dom da profecia é penosa sina de remar contra a corrente. A loucura de ousar contradizer o discurso dominante com a palavra que atravessa o verbo seco e engasga o ouvinte. E Gentileza predicava nos tempos da ditadura militar, quando a gentileza era cinzas.
Andou meio esquecido por uns tempos. Até que Marisa Monte alertou, em bonita canção, contra a perda do patrimônio deixado nas pilastras do Caju. A canção deu campanha e eles foram restaurados. Gentileza virou febre. Seus dizeres principais se tornaram ícone, em camisetas, cartazes, campanhas.
Ganhou corações e modas, a mensagem de contagiante simplicidade. “Gentileza gera gentileza”. A frase não pega só pela sonoridade do aforismo. Esconde jogo de sensos. “Gentileza” é filha da palavra “gentil”, que nasceu “gente”, que vem do latim “genere”, que significa gerar. Gentileza e gente são entidades capazes de geração. Gentileza: coisa grávida, portanto.
Que a frase tenha ganhado corações, vai bem. Que tenha alcançado a moda, diz mal do seu legado. Porque moda é prostituição do idealismo. Parecença sem miolo. Descascada a pessoa da camiseta, vê-se, por vezes, que a gentileza ali estava, como poderia estar qualquer dito social-engraçadinho. Assim, brucutu de zona sul carioca passa atirando lixo pela janela de seu carro, usando a camiseta do profeta. Levando ao peito, entre brilhos, o bordão, a estudante apressada fura a fila onde aguardam idosos. São tempos de gentileza de camiseta e gentileza efetiva às cinzas, destruída, esquecida. Não basta bonita frase em camiseta icônica. Gentileza é planta do quintal de dentro. Vimos da história de Daltrino, brota melhor na catástrofe.
Vi isso no 12 janeiro de nossas serras. Gente carregando idosos no colo, dando de beber a bombeiros, cavando lama com as mãos, cedendo a sala de casa para dormitório de desconhecidos, deixando de jantar para que desabrigados comessem. Forço aqui o conceito de gentileza como forma de solidariedade. Otto Lara Resende brincou com os mineiros dizendo-os “solidários apenas no câncer”. Pois se não precisa da tragédia, a gentileza muitas vezes demanda o susto.
Estrada, paraíso da incivilidade. Motoristas se cortando como em pista de corridas. Fechadas, freadas, impulsos, hormônios, pulsões. Passam pelo trágico acidente que enforca a estrada. Vêem-se metais retorcidos, sangue pingando, gente pasmada ao som das sirenes. O assombro acende certa tolerância, algum pé no freio, um ceder passagem – uma gentileza, vá! - que antes não havia. Pode até durar pouco, mas acontece.
É que a genuína gentileza exige o sentimento de pequenez. Não há autenticidade na gentileza do “poderoso” que poderoso se acha.  Só o drama nos transporta aos saudáveis campos da humildade. Só a consciência de barco nos comove aos mesmos remos. Não sei se há maior gentileza, mas diz-se haver solidariedade a mais na favela do que no condomínio de luxo. Provável. Tenho visto: quem vive à beira do nada comer, à beira do abismo, excluídos sociais, é mais capaz de se dar as mãos.
Nada impede, que a gentileza ainda semente no peito, floresça primeiro no agir, que depois se interioriza. Afinal, muitas vezes precisamos nos esculpir a partir do que mais nos demonstra. Nossos defeitos, que se exteriorizam em prejuízo dos que convivem conosco. Neste particular, a gentileza torna-se, à moda da obrigação profissional do sorriso de aeromoça, uma obrigação social, civilidade que permite coexistência, “existir com”.
Um cântico que, por vezes, se começa meio sem vontade. Um bocejo da alegria. Um “por favor” que vai tomando nosso coração com um sorriso, o “muito obrigado” que se solta do coração do vizinho e, em dado momento, o “bom dia” geral soma-se ao “com licença” e ao “não há de quê” e tudo se converte, no “me perdoa?”, em celebração e louvor. Uma sociedade que assim canta, pelos males que espanta, a gentileza alcança. E o ser gentil é mais capaz de solidariedade. E o ser solidário é quem melhora o mundo.
Gandhi e Luther King, nas duras tragédias de seus povos, forjaram a forma especial de gentileza solidária que é a não-violência. Ganharam, porque, como disse Walter Benjamin, quem pretende derrotar o bruto e insensível “não deve perder nenhuma oportunidade de ser gentil”.
Quem sabe, num degrau acima, alcançamos essa difícil essência da prática cristã que é “dar a outra face”? Combate acolá da gentileza e muito além da solidariedade. Essa longa caminhada começa na tragédia-nascedouro. O jardim que se faz sobre as cinzas de nós. E plantio de jardim, bom lembrar, só de joelhos se faz. Seja nas cinzas do circo ou da doença, da família quebrada ou do filho perdido, do casamento desfeito ou da penúria material.

                                                denilsoncdearaujo@gmail.com

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ÚLTIMA FALA DE LUTHER KING, NA VÉSPERA DO SEU ASSASSINATO


O Pastor Martin Luther King Jr, líder da luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos, como Moisés, viu a Terra Prometida, mas não pôde nela entrar. Esta fala foi proferida na véspera do seu assassinato, em 1968, quando ia participar de um protesto de apoio a uma greve de lixeiros. A fé de King, é a fé que realiza. Nunca ofereceu a seus rebanhos prosperidade ou milagre, ofereceu esperança e luta. Inspiração para que não deixemos passar dia algum sem cumprir ao menos um passo em nossa caminhada de ser sal e luz.


A BARBA AMARELA DO IMPERADOR


Denilson Cardoso de Araújo

Não há Carnaval que justifique. Não há carência de recursos públicos que autorize. Não há confusão administrativa que torne aceitável. Não há miopia política que tanto autorize. Não há povo mal educado que a esse ponto desculpe a omissão. Nada faz possível relevar a depredação que após tomar conta das ruas da Cidade Imperial, emporcalhando monumentos, obelisco, escolas, ruas, postes, orelhões, estátuas, muros, casas tombadas, casas ruindo, ruínas preciosas, escalou a estátua do imperador cravada no centro da cidade, e vandalizou-a com tinta amarela.
Talvez seja coisa de petropolitano não aqui residente por 30 anos, e que agora estabelecido percorre as ruas diariamente e se espanta com a decadência dos equipamentos urbanos. É “de Pedro” a cidade. Pedro, pedra, alicerce. Serviu para o Evangelho. Tu és Pedro, “sobre esta pedra...”, disse Jesus. Embora haja interpretações divergentes, e eu compartilho a que vê no dito o simbolismo da fé pétrea do apóstolo, o fato é que, em torno da figura de Pedro se ergueu o vestíbulo do cristianismo. Petró-polis. Tu és Pedro, Imperador. Sobre esta pedra se ergueu uma cidade, como a fez Koeller.
Saindo daqui e nômade em 30 anos por outras paragens, pude notar certas vaidades que cultivamos intra-muros e que soavam mal a quem observava de fora. Nobrezas envelhecidas, títulos de pompa e sem circunstância nos fizeram assim. Talvez uma ponta de arrogância, aqui e ali, quem sabe. Coisas de cidade que perdeu o porte que o Império lhe dava e que resistia à possível decadência. Não condeno. Coisas de cidade que, em República, era adolescente e carecia se reinventar. Acho que em algum momento se chega ao equilíbrio.
E era mesmo impossível não se maravilhar e inchar o peito, num matinal domingo em sol de ouro e céu azul, com a luz rebatendo nos vitrais da Catedral, correndo pelos rios, encarapitando-se nos castelos e mansões, deslizando pelas encostas e indo brincar nos jardins do Museu. Daí, a humildade passa a ser difícil exercício.
E o que dizer das Academias Petropolitanas, de Letras, de Poesia, de Educação, com seus tantos luminares? Que dizer de Cláudio de Souza e sua Casa ora recuperada? Que dizer de Raul de Leoni, e dos muitos intelectos, como Zweig, Érico, Dante Milano, Jorge Amado, Vinícius, que aqui buscaram letras para suas obras e luz para suas letras? Que dizer dos trovadores e poetas, como Roberto Francisco e Carolina de Castro, que extrapolaram fronteiras com a precisão de seus versos? Que dizer de cidade onde hoje pontificam (e citarei alguns, apenas, na certeza de ser injusto com tantos outros aos quais rogo desculpas...) Fernando Py, Fernando Magno, Ataualpa Filho, Fernando Costa, Sylvio Adalberto, Carmem Felicceti, Gustavo Wider, Gerson Valle, Christiane Michelin, Joaquim Santos, Vera Abad?
Que dizer de uma cidade que teve nas famílias Chaves e Aguiar de Reynaldo, Mariazinha, Wolney e Ernani esteio que celebrou a música deixando legados como a Banda Marcial do D. Pedro II, o Coral Municipal, a Escola de Música Santa Cecília? E falando em música, que dizer de uma cidade onde nasceu Guerra-Peixe? Onde há Canarinhos e Princesas, rouxinóis todos? Onde atuou Joar Gelli, Célio Barbosa, onde Marco Aurêh labora? Onde o Grupo Taruíra encanta? Onde o Coral Celebrai, da Segunda Igreja Batista, inspira? Onde encantaram pelas igrejas evangélicas os violinos de Henrique Carnevalli e do Pr. Nilson Dimárzio?
Que dizer de uma cidade de educadores como Dinizar de Araújo, Maurício Cardoso de Mello, Josemar Contage, Ernani Pinto Ferreira, Josemar Contage, Frei Mozer, e tantos outros? Uma cidade de cujos bancos acadêmicos saíram tantos juristas e Desembargadores?
São compreensíveis, portanto, as causas de nosso orgulho, que pode ter deslizado à vaidade. E o problema do vaidoso que não se humilda (se torna humilde), é não escapar à arrogância. Fatalmente acaba humilhado, exposto, envergonhado. E o fato é que, assim como a casa suja e mal cuidada frequentemente demonstra, mais do que penúria material da família, a certeza da penúria moral da sua alma, uma cidade suja e de prédios mal cuidados põe na sua pele as erupções e escaras de mazelas que lhe correm as entranhas. Nem se diga que descuro questões sociais e a pobreza do nosso povo. Pois se assim se cuida do Imperador, quanto não padecem os pobres, pelos subúrbios e encostas? E tenho visto que muito padecem.
Humilha-nos o estado da Casa do Barão de Mauá, do Obelisco e de outros monumentos, e determinam: graves são nossas mazelas. Mais emblemático do que tudo, entretanto, é o desleixo com o vandalismo à estátua de Pedro II. Após pichações que se sucederam e envelheceram sobre a fuligem incrustada e a urina dos cães que a manchou, veio agora o desrespeito-mor. O amarelo entornado em sua cabeça e barba. Já me disseram de turistas que sobem ao colo do monumento para bater fotos. A não ser que a explodam, não falta mais nada.
No Rio existe a cerimônia de lavagem da estátua de Tiradentes, em frente à ALERJ, que gerações sucessivas de alunos praticaram, como ato de civismo. A estátua de Pedro II devia merecer algo parecido. Um rodízio de escolas para esse cuidado, não faria mal aos alunos, faria bem à estátua, e talvez ajudasse a evitar que fosse assim vandalizada.
Um dia perdemos as hortênsias que nos forneceram saudoso codinome. Dizem-me que foram transplantadas para Caxias do Sul, onde fazem sucesso. Se não queremos honrar o legado deste maior brasileiro que foi Pedro II, consolidador de uma nação, que proponhamos a mudança da centenária estátua para dentro do Museu Imperial ou para o Palácio de São Cristóvão. E que se altere o nome da cidade, então. Se em nós seca o orgulho da nossa bela herança, que adotemos de vez o mais adequado nome de... Córrego Seco.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

ATIRADOR DA ESCOLA DE OHIO SOFRIA BULLYING



28/02/2012 19h19 - Atualizado em 28/02/2012 19h24

Suspeito de ataque em escola de Ohio atirou a esmo, diz promotor

Estudante entrou atirando em refeitório, matou três e feriu dois em Chardon. À tribunal, ele disse ter atirado aleatoriamente contra colegas, diz promotor.

(...)Identificado como T. J. Lane, o jovem compareceu na tarde desta terça a sua primeira audiência num tribunal do Condado de Geauga. Ele está mantido preso enquanto aguarda a acusação formal. O depoimento foi fechado à imprensa.

(...) Os colegas descreveram Lane como um "marginalizado" que era vítima de perseguição por parte de outros colegas e disseram que havia publicado advertências no Twitter e mensagens alarmantes no Facebook. (...)


Veja completa em:
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/02/suspeito-de-ataque-em-escola-de-ohio-atirou-esmo-diz-promotor.html

Aluna de 10 anos morre após briga 'por causa de garoto' nos EUA


Repito, insisto, proclamo, reclamo, persisto: NECESSÁRIO CUIDAR DAS ESCOLAS! Lá está a sociedade de amanhã. E o quadro que se anuncia não é bom. Que famílias se reconstruam. Que a mídia abusiva e ilegal seja controlada. Que os professores sejam dignificados. E que os estudantes sejam acordados para que vejam o abismo.

Segue a notícia do G1

(...)

28/02/2012 05h24 - Atualizado em 28/02/2012 06h37

Aluna de 10 anos morre após briga 'por  causa de garoto' nos EUA

Sem nenhum ferimento aparente, jovem passou mal e perdeu a consciência depois do choque.

Uma menina de dez anos de Long Beach, Califórnia (Estados Unidos), morreu após uma briga com uma colega de escola da mesma idade, na última sexta-feira (24). A polícia ainda investiga as causas da morte e da disputa entre as duas garotas, mas testemunhas ouvidas pela imprensa local dizem que a briga foi por causa de um garoto.

O caso foi classificado nesta segunda-feira (27) como um homicídio, causado por um "forte trauma" na cabeça da vítima. Joanna Ramos, 10, e sua colega brigaram após as  aulas de sexta-feira à tarde. (...)

-.-

- Veja completa em - http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/02/aluna-de-10-anos-morre-apos-briga-por-causa-da-garoto-nos-eua.html

ANIME-SE! VEJA/OUÇA ESTA MÚSICA!

Um dos encontros musicais mais lindos, pela espontaneidade e alegria. 
Cassiane! Com Marisa Monte, Zizi e mais umas duas, das melhores cantoras do Brasil!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Abaixo-assinado Urgente

Amigos(as), Acabei de ler e assinar este abaixo-assinado online: «Youssef Nadarkhani - Convertido ao cristianismo é condenado à morte no Irã!

» http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N21246  Pessoalmente, concordo com este abaixo-assinado e acho que você também pode concordar. Assine o abaixo-assinado e divulgue para seus contatos.Obrigado,  Denilson Cardoso de Araújo

BUNKER ROY e a UNIVERSIDADE DOS PÉS DESCALÇOS - - A TRANSCRIÇÃO DA PALESTRA DO POST ANTERIOR BUNKER ROY - A TRANSCRIÇÃO DA PALESTRA DO POST ANTERIOR


Assim, em 1965, fui para a que foi chamada a pior crise de fome de Bihar, na Índia, e vi fome, morte, pessoas a morrer de fome, pela primeira vez. Isso mudou a minha vida.Voltei para casa, disse à minha mãe: "Gostaria de viver e trabalhar numa aldeia." A minha mãe entrou em coma. (Risos) "O que é isto? O mundo inteiro está ao teu dispor, os melhores empregos estão ao teu dispor, e tu queres ir trabalhar numa aldeia? Quero dizer, há alguma coisa errada contigo?" Eu disse: "Não, tive a melhor educação possível.Isso fez-me pensar. E queria retribuir alguma coisa à minha maneira." "O que queres fazer numa aldeia? Sem emprego, sem dinheiro, sem segurança, sem perspectivas." Eu disse: "Quero viver e cavar poços durante cinco anos." "Cavar poços durante cinco anos?Tu frequentaste a escola e a faculdade mais caras da Índia e queres cavar poços durante cinco anos?" Ela deixou de me falar durante muito tempo, porque achava que eu tinha deixado ficar mal a minha família.
Mas, então, descobri os mais extraordinários conhecimentos e habilidades que as pessoas muito pobres têm, que nunca são trazidos ao conhecimento público -- que nunca são identificados, respeitados, aplicados em larga escala. E pensei fundar uma Universidade de Pés-Descalços -- uma universidade só para os pobres. O que os pobres considerassem ser importante seria reflectido na universidade. Fui a uma aldeia pela primeira vez. Os anciãos vieram ter comigo e disseram: " Estás a fugir da polícia?"Eu disse: "Não." (Risos) "Ficaste reprovado no teu exame?" Eu disse: "Não." "Não conseguiste um cargo público?". Eu disse: "Não." "O que é que estás aqui a fazer?Porquê que estás aqui? O sistema de educação na Índia aponta-te Paris, Nova Deli e Zurique; o que estás a fazer nesta aldeia? Há alguma coisa errada contigo que não nos estejas a contar?" Eu disse: "Não, eu quero realmente fundar uma universidade só para os pobres." O que os pobres achassem que era importante seria reflectido na universidade.
Portanto, a universidade funciona segundo os estilos de vida e de trabalho de Mahatma Gandhi. Come-se no chão, dorme-se no chão, trabalha-se no chão. Não há contratos, não há contratos escritos. Podem ficar comigo 20 anos, ou partir amanhã. E ninguém pode receber mais de 100 dólares por mês. Quem vier pelo dinheiro, não entra na Universidade dos Pés-Descalços. Quem vier pelo trabalho e pelo desafio, entra para a Universidade dos Pés-Descalços. Lá queremos que se tentem criar ideias malucas.Qualquer ideia que tenha, venha experimentá-la. Não faz mal se falhar. Maltratado, ferido, começará de novo. É a única universidade onde o professor é o aprendiz e o aprendiz é o professor. E é a única universidade onde não é conferido certificado. É-se certificado pela comunidade que se serve. Não é necessário um papel para pendurar na paredepara mostrar que se é engenheiro.
Portanto, quando eu disse isto, eles disseram: "Bom, mostre-nos o que for possível. O que está a fazer? É tudo conversa fiada se não for capaz de nos mostrar isso no terreno."Então, construímos a primeira Universidade dos Pés-Descalços em 1986. Foi construída por 12 arquitectos Pés-Descalços que não sabem ler, nem escrever,construída por 1,50 dólares o metro quadrado. 150 pessoas viveram ali, trabalharam ali.Receberam o Prémio Aga Khan para a Arquitectura em 2002. Mas depois desconfiou-se, achou-se que havia um arquitecto por detrás. Eu disse: "Sim, eles fizeram as plantas,mas os arquitectos Pés-Descalços realmente construíram a universidade." Na verdade, fomos os únicos a devolver o prémio de 50.000 dólares, porque não acreditaram em nós, e nós pensámos que eles estavam, verdadeiramente, a insultar os arquitectos Pés-Descalços de Tilonia.
De cinco em cinco anos temos uma eleição. As crianças entre os 6 e os 14 anosparticipam num processo democrático, e elegem um primeiro-ministro. A primeira-ministra tem 12 anos. De manhã, toma conta de 20 cabras, mas à noite é primeira-ministra. Tem um governo, um ministro da educação, um ministro da energia, um ministro da saúde. E eles efectivamente acompanham e supervisionam 150 escolas com 7.000 crianças. Ela recebeu o Prémio das Crianças do Mundo há 5 anos, e foi à Suécia. Pela primeira vez saiu da sua aldeia. Nunca tinha visto a Suécia. Não estava nada deslumbrada com o que estava a acontecer. E a Rainha da Suécia, que está ali, virou-se para mim e disse, "Pode perguntar a esta criança onde foi ela buscar tanta autoconfiança? Ela só tem 12 anos, e não está deslumbrada com nada." E a rapariga, que está à sua esquerda, virou-se para mim e olhou para a rainha directamente nos olhos e disse, "Por favor, diga-lhe que sou a primeira-ministra."
Fomos a África, e fizemos a mesma coisa. Todas estas mulheres sentadas à mesma mesa, vindas de 8, 9 países, todas a conversar entre si, não compreendendo uma palavra, porque estão todas a falar línguas diferentes. Mas a sua linguagem corporal é extraordinária. Estão a falar entre si e, na verdade, a tornar-se engenheiras solares. Fui à Serra Leoa, e aconteceu um ministro ir a guiar, pela calada da noite -- atravessa uma aldeia. Volta para trás, vai à aldeia e diz: "Bom, o que é que se passa?" Eles disseram: "Estas duas avós..." "Avós?" O ministro não podia acreditar no que estava a acontecer."Onde é que elas foram?" "Foram à Índia e voltaram." Foi directo ao presidente. Disse: "Sabe que há uma aldeia electrificada com energia solar na Serra Leoa?" Ele disse: "Não." Metade do governo foi visitar as avós no dia seguinte. "Como é que isto aconteceu?" Então, ele chamou-me e disse: "Pode treinar-me 150 avós?" Eu disse: "Não posso, Senhor Presidente. Mas elas treinam. As avós treinam." Assim, ele construiu-me o primeiro centro de treino Pés-Descalços na Serra Leoa. E 150 avós foram treinadas na Serra Leoa.
Gambia: fomos à Gambia seleccionar uma avó. Fomos a uma aldeia. Eu sabia que mulher gostaria de levar. A comunidade reuniu-se e disse: "Leve estas duas mulheres."Eu disse: "Não, quero levar esta mulher." Eles disseram: "Porquê? Ela não conhece a língua. Você não a conhece." Eu disse: "Gosto da linguagem corporal. Gosto da maneira como ela fala." "Tem um marido difícil; não é possível." "Chamem o marido." O marido veio, fanfarrão, político, de telemóvel na mão. "Não é possível." "Porque não?" "A mulher, veja como ela é bonita." Eu disse: "Sim, ela é muito bonita." "O que acontece se ela foge com um indiano?" Era esse o seu maior medo. Eu disse: "Ela estará feliz. Ligar-lhe-á pelo telemóvel." Ela foi como uma avó e regressou como um tigre. Desceu do avião e falou aos jornalistas como se fosse uma veterana. Lidou com a comunicação social nacional e tornou-se uma estrela. E quando voltei, seis meses mais tarde, disse: "Onde está o teu marido?" "Ah, anda por aí. Não interessa." (Risos) Uma história de sucesso.

Extraído de - http://www.ted.com/talks/lang/pt/bunker_roy.html